Quem visita Teresópolis encontra um destino que reúne montanhas, cachoeiras, parques nacionais, gastronomia, turismo rural, aventura, cervejarias artesanais e, mais recentemente, vinícolas. No entanto, para a secretária municipal de Turismo, Nina Benedito, o maior desafio da cidade não é criar novos atrativos, mas fazer com que o mercado reconheça a diversidade de experiências que o município já oferece há anos.
À frente da pasta desde o início da atual gestão, Nina conhece o setor como poucos. Antes de assumir a secretaria, acumulou 35 anos de atuação no turismo, trabalhando como guia e acompanhando de perto a evolução da atividade na Região Serrana. Essa experiência prática faz com que sua gestão tenha um olhar técnico e bastante próximo do trade. “É muito fácil trabalhar turismo em Teresópolis. Fácil entre aspas, porque nós temos material para isso. Hoje somos um dos poucos municípios do Estado do Rio de Janeiro que conseguem atuar em praticamente todos os segmentos turísticos. Só não temos turismo náutico porque estamos na serra”, afirma, em tom bem-humorado.
Ocupação elevada confirma bom momento
Segundo a secretária, essa diversidade é justamente o maior patrimônio da cidade. O turismo de aventura, impulsionado pelo Parque Nacional da Serra dos Órgãos e pela tradicional travessia Petrópolis-Teresópolis, já está consolidado há décadas e continua atraindo visitantes de diferentes partes do Brasil e do exterior. Ao mesmo tempo, o turismo rural deixou de ser um segmento complementar para se tornar uma importante fonte de renda para produtores da região, enquanto o enoturismo desponta como uma das grandes apostas para os próximos anos.
Os números reforçam esse momento positivo. Embora o município não tenha um sistema oficial de contagem de visitantes, a Secretaria de Turismo monitora constantemente a ocupação da rede hoteleira, indicador considerado o mais confiável para medir o desempenho da atividade. O acompanhamento é feito diretamente com hotéis, pousadas e albergues, em parceria com a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-RJ), mas também por meio de um levantamento próprio realizado pela equipe da secretaria.
“Nós ligamos um por um para saber como está a ocupação. É um trabalho praticamente artesanal, mas conseguimos acompanhar muito de perto o comportamento do turismo na cidade”, explica.
O resultado desse monitoramento revela um cenário bastante otimista. A taxa média de ocupação permanece acima dos 80% ao longo do ano e, durante o inverno — principal temporada da Serra Fluminense —, chega facilmente entre 92% e 96%, dependendo do período. Para Nina, o desempenho demonstra que Teresópolis já deixou de depender apenas dos finais de semana e dos feriados prolongados para manter uma boa movimentação turística.
Turismo rural transforma a economia local
Grande parte desse crescimento está diretamente ligada ao fortalecimento do turismo rural. Capital estadual da agricultura familiar, Teresópolis viu muitas propriedades abrirem suas portas para receber visitantes, transformando completamente a dinâmica econômica de diversas famílias. O que antes era apenas produção agrícola passou a incorporar degustações, experiências gastronômicas, visitas guiadas e contato direto com o cotidiano do campo.
“Tem histórias que me emocionam. Famílias que viviam apenas do plantio de inhame ou batata-doce hoje recebem tantos visitantes que enfrentam dificuldade para atender à demanda. O turismo mudou a realidade dessas pessoas e levou desenvolvimento para regiões que antes viviam exclusivamente da agricultura”, conta.
Se o turismo rural já representa uma realidade consolidada, o enoturismo aparece como a mais nova aposta da cidade. A produção de vinhos na região começou em 2019 e evoluiu rapidamente. Segundo a secretária, os produtores investiram em estrutura, experiências e qualificação, acompanhando uma tendência nacional de valorização das vinícolas de clima de altitude.
Para apresentar esse potencial ao mercado, a secretaria passou a investir em visitas técnicas voltadas a agentes de viagens, operadores, jornalistas e profissionais do turismo. Uma dessas ações reuniu representantes do receptivo do Aeroporto Internacional do Galeão e operadores do Rio de Janeiro para conhecer as vinícolas de Teresópolis. Poucas semanas depois, um grupo de cerca de 30 turistas dinamarqueses desembarcou na cidade para vivenciar esse roteiro, combinando visitas às vinícolas, ao Parque Nacional da Serra dos Órgãos e a outros atrativos locais.
Muito além da Feirinha do Alto
Apesar dos resultados positivos, Nina acredita que ainda existe um obstáculo importante a ser superado: a imagem de Teresópolis perante o mercado. Para ela, o município continua sendo lembrado quase exclusivamente pela Feirinha do Alto, enquanto inúmeros outros atrativos permanecem pouco conhecidos.
Essa percepção motivou uma das primeiras mudanças implementadas pela secretaria na área de comunicação. Durante muitos anos, a cidade foi promovida institucionalmente pelo apelido “Terê”, uma estratégia que, na prática, dificultava sua identificação pelos turistas que pesquisavam destinos na internet.
“Quando alguém de fora escreve ‘Terê’ no Google, dificilmente chega a Teresópolis. Nosso público é quem vem de fora, por isso precisamos fortalecer o nome da cidade de forma institucional.”
A partir dessa constatação, toda a comunicação oficial passou a utilizar a marca “Vem para Teresópolis”, acompanhada da reformulação do site institucional, das redes sociais e de uma estratégia baseada em conteúdo visual.
Outra frente considerada fundamental é fortalecer o sentimento de pertencimento da própria população. Para Nina, antes de convencer o turista, é preciso que o morador conheça e valorize o destino onde vive. Com esse objetivo, a secretaria passou a organizar visitas técnicas voltadas ao próprio trade local, levando guias de turismo, empresários da hotelaria, donos de restaurantes e outros profissionais para conhecer propriedades rurais, atrativos naturais e empreendimentos turísticos do município.
Regionalização em vez de concorrência
Ao contrário do que muitas cidades imaginam, Nina não enxerga Petrópolis, Nova Friburgo ou os demais municípios da Serra Fluminense como concorrentes. Para ela, os destinos se complementam e fortalecem conjuntamente a região.
“Somos parceiros. Os secretários trocam experiências o tempo todo. O turista pode visitar Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo na mesma viagem. Isso fortalece todos os destinos.”
Preparar a cidade antes de conquistar o mercado internacional
Mesmo acompanhando o aumento do fluxo de estrangeiros para o Estado do Rio de Janeiro, impulsionado especialmente pelo mercado argentino, a secretária acredita que ainda não é o momento de promover Teresópolis de forma intensa no exterior.
Embora o município avalie participar futuramente de feiras como a BTL, em Lisboa, e a FIT, em Buenos Aires, Nina prefere adotar uma postura cautelosa.
“Antes de atrair o turista estrangeiro, precisamos garantir que a cidade esteja preparada para recebê-lo. Ainda temos desafios importantes, como ampliar a formação de guias bilíngues, capacitar profissionais da hotelaria e da gastronomia e qualificar toda a cadeia de atendimento.”
Para isso, a Secretaria de Turismo mantém parcerias com Sebrae, Fecomércio e entidades do setor para ampliar os programas de qualificação profissional, embora reconheça que um dos maiores desafios ainda seja convencer empresários a liberar seus colaboradores para participar dos treinamentos.
O legado que ela quer deixar
Quando questionada sobre o legado que espera construir, Nina não fala em recordes de visitantes nem em novos equipamentos turísticos. Sua principal meta é fortalecer a cultura do turismo dentro da própria cidade.
“Quero que as pessoas tenham orgulho da cidade onde vivem e entendam que o turismo é uma ferramenta de desenvolvimento econômico e social. Quando a população conhece o município, valoriza seus atrativos e percebe o impacto que a atividade gera na economia, ela passa a defender o turismo de forma natural.”
Esse trabalho passa também pela atualização do Plano Diretor de Turismo, defasado há cerca de 25 anos, pela implantação do Plano Municipal de Turismo — que nunca saiu do papel — e pelo fortalecimento do Conselho Municipal de Turismo, hoje reorganizado e atuante.
Para Nina Benedito, consolidar Teresópolis como protagonista do turismo fluminense não depende apenas de divulgar suas belezas naturais. É um processo que envolve planejamento, qualificação, comunicação estratégica e continuidade das políticas públicas. “Ninguém precisa reinventar a roda. Basta fazer o que precisa ser feito e deixar um legado para quem vier depois”, conclui.
