A Rússia anunciou que incluirá países europeus que receberem caças Rafale nucleares franceses em sua lista de alvos prioritários
O governo da Rússia anunciou que passará a considerar como alvos prioritários, em caso de conflito de grande escala, os países europeus que receberem desdobramentos de caças Rafale B franceses, da Dassault, com capacidade nuclear.
A declaração foi feita ontem (23), por Alexander Grushko, vice-ministro das Relações Exteriores russo, e representa a resposta mais direta de Moscou até agora à doutrina de “dissuasão avançada” proposta pelo presidente francês Emmanuel Macron.
A reação ocorre três dias após Macron e o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, anunciarem em Gdansk que Varsóvia passará a integrar o grupo de capitais europeias que discutem exercícios conjuntos e possíveis futuras operações com aeronaves francesas aptas ao emprego nuclear.
Polônia no debate
Durante encontro em Gdansk, na última segunda-feira (20), França e Polônia disseram que a agenda bilateral incluirá troca de informações e exercícios militares conjuntos relacionados à chamada “forward deterrence”, conceito apresentado por Macron no início de março, durante discurso em Île Longue, principal base da dissuasão nuclear francesa.
Segundo o presidente francês, os próximos meses deverão avançar para “progressos concretos”, especialmente no componente nuclear da iniciativa.
Tusk disse que a presença do Rafale transportando armas nucleares sobre o território polonês não é o seu sonho, mas uma resposta ao atual cenário estratégico europeu. Segundo ele, a Polônia está se unindo ao grupo de países que entendem a necessidade de soberania europeia em defesa.
Como funciona a doutrina
A proposta francesa prevê o desdobramento temporário das Forças Aéreas Estratégicas (FAS) e de seus caças Rafale B com capacidade nuclear em bases de países aliados, sem a instalação permanente dessas aeronaves nem a adoção de um modelo de compartilhamento nuclear semelhante ao mecanismo atualmente utilizado pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) com a Força Aérea dos Estados Unidos.
A Força Aérea e Espacial Francesa vem testando esse modelo nos últimos anos por meio do conceito Morane, atualmente chamado de French Agile Combat Employment (FRA-ACE), com destacamentos de curta duração para Polônia, Romênia e Suécia.
Essas operações utilizam pequenos destacamentos, entre trinta e oitenta militares, mas a ampliação desse conceito para o componente estratégico exige requisitos mais rigorosos de segurança, comunicações protegidas e procedimentos específicos dos países anfitriões, principalmente quando associados ao míssil de cruzeiro nuclear Asmpa-R.
Lista de países
A inclusão da Polônia amplia a lista já apresentada por Macron em Île Longue, que contemplava anteriormente Reino Unido, Alemanha, Países Baixos, Bélgica, Grécia, Suécia e Dinamarca.
Paris mantém discussões ativas com esses oito parceiros sobre eventuais condições de hospedagem operacional.
A Dinamarca já firmou um acordo estratégico de dissuasão nuclear com a França, em complemento aos mecanismos existentes da OTAN. No dia seguinte ao discurso de Île Longue, a Noruega também declarou disposição para discutir adesão.
Já Suécia e Finlândia informaram que não pretendem receber armas nucleares em tempos de paz, o que limita a proposta a exercícios militares e dispersão em períodos de crise, sem presença permanente.
Reação nos países bálticos
O presidente da Lituânia, Gitanas Nausėda, e o presidente da Letônia, Edgars Rinkēvičs, também se manifestaram publicamente sobre a proposta após conversas diplomáticas com Paris.
Nausėda disse que qualquer medida aliada que complique os cálculos nucleares russos na Europa é positiva, mas ressaltou que a iniciativa francesa deve complementar, e não substituir, os atuais mecanismos nucleares da OTAN.
No último dia 14 de abril, dois caças Rafale B franceses da missão Baltic Air Policing, estacionados em Šiauliai, na Lituânia, voaram até a Base Aérea de Lielvārde, na Letônia. As aeronaves pertencem à 4ª Ala de Caça da Base Aérea 113 de Saint-Dizier, sede das Forças Aéreas Estratégicas francesas.
A recepção contou com a presença de Evika Siliņa, primeira-ministra letã, além de autoridades da Defesa e Relações Exteriores.
Atualização de lista de alvos
Alexander Grushko classificou os planos franceses como parte de um “aumento descontrolado” do potencial nuclear da OTAN e afirmou que as forças nucleares francesas passaram a atuar como componente integral da aliança.
Ele também acrescentou que a postura francesa enfraquece, e não fortalece, a segurança dos países envolvidos, argumentando que Paris não oferece “garantias de segurança inabaláveis” aos potenciais anfitriões.
Fim do New Start
O episódio ocorre em um ambiente mais deteriorado de controle de armas nucleares. O tratado New Start Treaty expirou no início de fevereiro, encerrando o último limite bilateral sobre ogivas estratégicas implantadas entre Estados Unidos e Rússia.
Segundo Grushko, qualquer futuro diálogo nuclear precisará considerar as capacidades combinadas da OTAN, incluindo os arsenais francês e britânico, além das forças estratégicas norte-americanas.
Conferência da ONU
As declarações antecedem a 11ª Conferência de Revisão das Partes do Tratado de Não Proliferação Nuclear, que irá começar na próxima segunda-feira (27), na sede das Organização das Nações Unidas, em Nova York.
O encontro, realizado a cada cinco anos, é o principal fórum multilateral para avaliação de avanços em não proliferação, desarmamento nuclear e uso pacífico da energia nuclear.
Enquanto a OTAN pressiona Rússia e China por maior transparência em seus arsenais, Moscou sustenta que a ampliação das capacidades nucleares francesas e britânicas representa uma violação das obrigações assumidas pelas potências nucleares reconhecidas pelo tratado.
