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Francis Ford Coppola dirige dois gênios do cinema, Gary Oldman e Anthony Hopkins, em terror na Netflix

Francis Ford Coppola dirige dois gênios do cinema, Gary Oldman e Anthony Hopkins, em terror na Netflix

“Drácula de Bram Stoker” começa como uma história de negócios. Jonathan Harker (Keanu Reeves) é um jovem advogado inglês enviado até a Transilvânia para concluir a compra de imóveis em Londres para um cliente misterioso. Ele chega ao castelo carregando contratos, documentos e uma educação impecável, mas percebe que entrou num lugar onde educação nenhuma tem utilidade. O anfitrião, Drácula (Gary Oldman), aparece velho, silencioso e interessado demais na vida pessoal do visitante. Jonathan tenta manter a formalidade enquanto observa portas trancadas, corredores vazios e empregados que simplesmente não existem. Quanto mais tempo passa dentro daquele castelo, mais entende que não foi convidado para trabalhar. Foi capturado.

Francis Ford Coppola transforma o castelo num organismo vivo. As paredes parecem observar Jonathan o tempo inteiro. As sombras se mexem antes dos personagens. Os corredores nunca terminam. O diretor exagera em fumaça, figurinos, maquiagem e iluminação vermelha, mas esse excesso funciona porque acompanha o estado emocional da história. Tudo ali parece carregado de febre, desejo e morte. É um filme que troca discrição por teatralidade sem pedir desculpas por isso.

Amor perdido

A situação muda quando Drácula encontra uma fotografia de Mina Murray (Winona Ryder), noiva de Jonathan. O conde acredita enxergar nela a reencarnação de um amor perdido séculos antes. A partir desse momento, Jonathan deixa de ser apenas um prisioneiro. Ele vira ponte para a entrada do vampiro na Inglaterra. Enquanto tenta escapar do castelo, Drácula atravessa o oceano escondido entre caixas de terra trazidas da Transilvânia. Coppola filma essa viagem como se estivesse narrando uma epidemia silenciosa chegando a Londres. Ratos aparecem pelas ruas, navios chegam destruídos e a cidade começa a ganhar um clima de pesadelo permanente.

Quando Drácula finalmente assume outra identidade em Londres, o filme muda de atmosfera. A ameaça deixa de viver escondida em castelos e passa a circular entre teatros, jardins e salões elegantes. Mina sente curiosidade por aquele homem estranho e sofisticado sem compreender exatamente quem ele é. Ao mesmo tempo, Lucy Westenra (Sadie Frost), sua amiga mais próxima, começa a sofrer ataques noturnos que ninguém consegue explicar. Lucy perde força, desmaia constantemente e apresenta sinais de anemia severa. Os médicos tentam encontrar uma solução racional enquanto o vampiro continua visitando o quarto dela durante a madrugada.

Tormento espiritual

Os homens entram e saem do quarto de Lucy oferecendo transfusões de sangue como quem organiza um plantão improvisado de hospital. Arthur Holmwood (Cary Elwes), Dr. Seward (Richard E. Grant) e Quincey Morris (Billy Campbell) disputam espaço ao redor da cama enquanto tentam salvar uma mulher que já parece presa entre dois mundos. Anthony Hopkins surge como Van Helsing e muda completamente o ritmo do filme. O personagem entra falando demais, invadindo espaços, fazendo piadas estranhas e tratando vampiros como um problema prático. Hopkins interpreta Van Helsing quase como um professor excêntrico que perdeu a paciência com gente incrédula.

O mais interessante é que Coppola nunca reduz Drácula a um simples monstro. Gary Oldman interpreta o conde como alguém consumido pela solidão. Ele é cruel, manipulador e violento, mas também carrega um cansaço antigo que atravessa séculos. Quando se aproxima de Mina, o filme ganha um tom melancólico inesperado. Winona Ryder entende bem esse movimento. Mina começa fascinada pela figura misteriosa que aparece em sua vida, mas aos poucos percebe que está sendo arrastada para uma relação marcada por obsessão e perda de identidade. O romance entre os dois cria uma tensão desconfortável porque mistura paixão genuína com manipulação emocional.

Keanu Reeves talvez seja o ponto mais irregular do elenco. Seu sotaque britânico parece lutar pela sobrevivência em várias cenas, principalmente no começo do filme. Ainda assim, Jonathan cabe dentro da narrativa porque representa o homem comum tentando recuperar controle sobre uma situação impossível. Depois de escapar do castelo, ele retorna traumatizado, debilitado e incapaz de compreender totalmente o que viveu. Enquanto isso, Mina se afasta emocionalmente dele, atraída por Drácula de uma maneira que assusta até ela mesma.

Identidade

Coppola trabalha muito mais com sensação de decadência física do que com sustos. Sangue, suor, feridas, tosses e corpos enfraquecidos aparecem o tempo inteiro. Existe uma atmosfera quase doentia em cada ambiente. Londres vai ficando sufocante conforme Drácula se aproxima de Mina. As casas parecem menores. Os quartos ficam escuros. As velas substituem a luz natural. Tudo transmite a impressão de que a cidade inteira está adoecendo junto com os personagens.

O filme continua impressionante. Coppola preferiu efeitos práticos, projeções antigas, figurinos exagerados e truques artesanais em vez de apostar numa aparência tecnológica. Isso dá ao longa um aspecto fantasioso muito particular, como se estivéssemos folheando um livro antigo ilustrado por alguém obcecado por morte e romance. Os figurinos usados por Gary Oldman mudam constantemente e ajudam a mostrar as diferentes versões do personagem: o velho isolado no castelo, o aristocrata elegante em Londres e a criatura monstruosa escondida sob camadas de desejo e violência.

“Drácula de Bram Stoker” sabe que histórias de vampiro raramente sobrevivem apenas pelo medo. Francis Ford Coppola transforma o conde num homem incapaz de aceitar a passagem do tempo. Jonathan tenta recuperar sua noiva. Van Helsing tenta impedir novas mortes. Mina procura compreender os próprios sentimentos enquanto observa sua vida sair do controle. E Drácula segue atravessando corredores, quartos e cidades atrás de um amor que talvez exista apenas na memória dele.



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