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O diretor de Vidas à Deriva surpreende na Netflix com um filme íntimo, elegante, cheio de silêncio e solidão

O diretor de Vidas à Deriva surpreende na Netflix com um filme íntimo, elegante, cheio de silêncio e solidão

Talvez a imagem que melhor defina um relacionamento seja a de um barco singelo, resoluto no propósito de não virar no oceano de prazeres, lamentações e mágoas, que sempre pode tornar-se, de uma hora para a outra, ou um lago cinzento de melancolia e frieza, ou um golfo, no qual o ódio fica a entrar e sair, provocando seus estragos por um ano, uma década, uma vida. Ninguém ama sem sofrer e ninguém ama encastelado em seu próprio mundo: pode-se, no máximo, se ansiar pelo amor de que se crê digno a partir da alheação que só o mais humano dos sentimentos propicia (e por mais amor que se ganhe, os caprichos da sorte são incertos e até cruéis). Baltasar Kormákur dá um tempo das circunstâncias extremas que logo fogem ao controle, desdobradas em “Vidas à Deriva” (2018) e “A Fera” (2022) — e às quais decidiu voltar no já aclamado “O Jogo do Predador” (2026) — e em “Touch” busca a leveza para contar a história de um encontro e muitos desencontros, protagonizados por um homem e uma mulher cujas estradas só poderiam mesmo se cruzar sob uma vontade superior. Mas nem tudo é gozo nesse paraíso.

Tempo rei

Durante o curto intervalo entre nascer e morrer, perseguimos respostas para questões as mais complexas, as mais incômodas, sabendo que não iremos encontrá-las ou, pior, pensando tê-las encontrado, até que, muito tempo depois, reconhecemos que havíamos nos precipitado. Aos oitenta anos, Kristófer defronta-se com essa tragicômica verdade, mas ninguém pode dizer que suas desventuras tenham sido em vão. Suas disposição e saúde já não são mais as mesmas, porém ele está lúcido e sereno o bastante para saber que é hora de fazer um esforço e resolver um imbróglio da juventude, aproveitando os anos que ainda lhe restam. Kormákur e o corroteirista Ólafur Jóhann Ólafsson mencionam a pandemia de covid-19 como o cenário ideal para a epifania desse homem inquieto, um tanto angustiado, e retrocede seis décadas para apresentar o Kristófer sonhador que abandona a faculdade de economia para trabalhar como lavador de pratos num restaurante japonês. O diretor move o enredo juntando os dois eixos do protagonista, e o filme equilibra-se entre a solidez de Egill Ólafsson e o despojamento de Palmi Kormákur. Palmi, um dos quatro filhos de Kormákur, acha no personagem o tal toque que leva ao comovente desfecho.



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