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Alice Wu transforma solidão e amadurecimento em uma das histórias de amor mais bonitas da Netflix

Alice Wu transforma solidão e amadurecimento em uma das histórias de amor mais bonitas da Netflix

Alice Wu dirige “Você Nem Imagina”, produção da Netflix lançada em 2020, com Leah Lewis, Daniel Diemer e Alexxis Lemire no centro de uma história de adolescência em Squahamish. Ellie Chu mora com o pai, escreve trabalhos para colegas da escola e aceita redigir uma carta de amor para Paul Mansky, que tenta se aproximar de Aster Flores sem saber que a menina encarregada da carta também olha para ela.

A casa de Ellie parece guardar mais silêncio do que conversa. O pai, imigrante chinês, vive recolhido numa solidão que a filha aprendeu a acompanhar sem transformar em assunto. Na escola, a inteligência dela virou serviço pago, quase um bico clandestino, feito para colegas que compram palavras como quem compra uma tarefa pronta. Paul chega com uma encomenda diferente, mais constrangedora, porque não pede uma redação qualquer, mas uma voz capaz de alcançar Aster.

A carta muda de dono

O rapaz poderia ser apenas o desajeitado simpático que empurra a trama, mas Daniel Diemer o mantém preso a uma franqueza meio bruta, às vezes cômica, às vezes incômoda. Paul não entende Ellie de imediato, não entende Aster, não entende sequer o alcance da carta que pediu. Aos poucos, passa a observar a garota que escreve por ele com uma atenção que não estava prevista no acordo. Ellie continua escrevendo, mas cada frase destinada a Aster se afasta um pouco de Paul e se aproxima de um desejo que ela vinha acomodando em silêncio.

Aster entra primeiro como imagem escolar, a moça bonita que parece pertencer ao lugar mais visível da cidade. O namoro com Trig Carson reforça essa posição, assim como a expectativa de família, igreja e amigos em torno dela. Alexxis Lemire não trata Aster como troféu nem como enigma decorativo. A personagem escuta, desconfia, repara nas diferenças entre o rapaz que assina as cartas e a sensibilidade que chega por escrito.

A despedida não escolhe casal

Quando Ellie e Aster se aproximam, a mentira deixa de ser apenas truque de comédia romântica. Há uma usurpação ali, mas há também uma comunicação que só se torna possível porque alguém está escondido atrás de outro nome. Ellie não se descobre homossexual por causa de Aster, e isso evita o caminho mais fácil. O que se desloca nela é a disposição de continuar renunciando a uma vivência mais inteira de si mesma enquanto participa, com as próprias palavras, da tentativa de conquista de outra pessoa.

Alice Wu trabalha com materiais conhecidos do gênero sem fingir que eles são novos. Há cartas, equívocos, aproximações clandestinas, ciúme, humilhação, expectativa de beijo e uma triangulação que poderia terminar num arranjo sentimental confortável. Paul se apaixona por Ellie, Ellie ama Aster, Aster se deixa tocar por algo que talvez não tenha coragem de sustentar. A despedida na plataforma ferroviária não resolve esse nó, mas escolhe uma imagem precisa: Ellie parte para uma vida fora daquele perímetro, Aster permanece diante das próprias dúvidas, e Paul é quem a leva até o trem.



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