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Era uma Vez na América e o capitalismo gângster

Era uma Vez na América e o capitalismo gângster

Nada mais parecido com a economia e a política contemporâneas do que os filmes de Hollywood sobre mafiosos e gângsteres. A constatação vem da crítica cultural Catherine Liu, que vem relacionando algumas narrativas cinematográficas ao que ela chama de “capitalismo gângster”. Segundo ela, há um conjunto de filmes representativos que vai de “Scarface” (1932), de Howard Hawks, até “O Irlandês” (2019), de Martin Scorsese.

As narrativas de gângsteres exploram a economia em seu cotidiano, em seu lado micro, funcionando sob regimes violentos de extorsão e coerção. É desses comportamentos e situações criminosas que se alimentam os filmes atuais de golpes financeiros, como “O Lobo de Wall Street” e “A Grande Aposta”. A crise mundial de 2008 forneceu material abundante para as narrativas sobre mercados gangsterizados.

Dos filmes apontados por Liu, “Era uma Vez na América” (1984) ocupa um lugar especial. Obra tardia do diretor italiano Sergio Leone, é uma das últimas grandes narrativas do universo dos mafiosos e gângsteres. Nos anos 1970, houve uma efervescência de filmes, como “O Poderoso Chefão”, que retratavam um período em que o capitalismo passava por transformações profundas e hoje radicalizadas.

O filme de Sergio Leone é um retrato impressionante de uma amizade masculina, baseada nas trajetórias dos personagens Max (feito por James Woods) e Noodles (vivido por Robert De Niro). São dois judeus pobres nas primeiras décadas do século 20, no bairro do Brooklyn, em Nova York. Desde o início, o filme já apresenta uma máfia judaica, afastando-se das representações clássicas italianas.

A abertura é extraordinária. A narrativa parte de uma situação-chave em 1933, quando Noodles vê seus três companheiros de crime mortos a partir de uma situação que ele próprio provocou. Como único sobrevivente, ele carrega a culpa por uma traição e um erro irreversível. Noodles perdeu tudo, inclusive a própria biografia, e foge de Nova York para não ter o mesmo destino dos parceiros.

A sequência inicial é construída por fragmentos, cortes e descontinuidades temporais. Não há linearidade. Mas toda a estrutura do filme já está condensada ali, como se aquela abertura resumisse toda a narrativa, explicada apenas progressivamente. Trata-se do funeral de uma época que deixa para trás qualquer ilusão de mundo.

Máfia pobre

Depois da abertura impactante, há o salto para o ano 1968, quando Noodles retorna a Nova York já idoso, após receber uma carta misteriosa. Sua volta é melancólica e imersa em luto profundo. Ele revisita espaços da juventude, observa fotografias dos antigos companheiros e revive o peso da trajetória pessoal. A interpretação de Robert De Niro impressiona justamente por sustentar esse retorno marcado pela perda.

O filme alterna infância, juventude e velhice, compondo um verdadeiro romance de formação. Mostra a relação entre Noodles, Max e Débora (feita pela então menina Jennifer Connelly e pela jovem Elizabeth McGovern), figura central na narrativa. Estamos diante de um Brooklyn judaico de imigração, pobreza e pequenos golpes. Os meninos aprendem extorsão, relações com a polícia e os mecanismos básicos de ascensão dentro de uma economia de gângsteres.

A máfia pobre no filme está ligada a pequenos negócios, mas também revela como se formam estruturas econômicas mais amplas, envolvendo sindicatos e poder político. É justamente nesse ponto que emerge a noção de “capitalismo gângster”. Um sistema em que negócios e coerção se misturam profundamente.

Sergio Leone trata esse universo na forma de ópera trágica. A trilha de Ennio Morricone potencializa essa dimensão estética. Os diálogos são simples, elípticos, mas carregados de dramatização. As falas articulam questões pessoais e estruturas históricas maiores.

E há também um elemento narrativo decisivo: as portas. Elas funcionam como passagens simbólicas. Cruzar uma porta no filme significa ter uma mudança de destino ou uma revelação. A narrativa se estrutura constantemente a partir dessas transições.

O final de “Era uma Vez na América” explica a abertura e reorganiza o sentido da trajetória de Noodles. É triste, melancólico, mas revela um mundo em que os gângsteres não desapareceram. Eles se transformaram em organizadores da política e dos negócios.

Lançado nos anos 1980, o filme de Sergio Leone dialoga diretamente com a ascensão de um novo modelo econômico daquela década. Foi o período marcado pela violência social, austeridade e profunda desregulação sob Ronald Reagan. Esse ambiente se mostra terreno fértil para o desenvolvimento do “capitalismo gângster”.

Para além de uma narrativa sobre crimes e suas (des)aventuras, “Era uma Vez na América” é uma poderosa alegoria de um mundo em que a lógica mafiosa deixa de ser exceção para se tornar princípio organizador da vida econômica e política contemporânea. Nada mais parecido com as histórias criminosas de Max e Noodles do que as estripulias de certos banqueiros contemporâneos ao redor do mundo.



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