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Pequeno e devastador: o tipo de filme que dói em silêncio e fica dias na cabeça está na Netflix

Pequeno e devastador: o tipo de filme que dói em silêncio e fica dias na cabeça está na Netflix

A adolescência é uma sucessão de traumas. Como sói acontecer quase sempre, no momento em que parece que estamos dominando a situação, segurando o leme com firmeza diante de um oceano de possibilidades pouco alvissareiras, chega a hora de singrar mares muito mais profundos e revoltosos, dos quais ninguém escapa e que conduzem a um porto a que se desembarca de maneiras diferentes, em pouco tempo ou depois de uma viagem algo sossegada ou muito desafiadora. Entre a infância e a vida adulta, apropriam-se do espírito humano forças que impelem-no a buscar a verdadeira liberdade, até a um custo alto demais. É por essa razão que filmes como “Dìdi” cativam públicos diversos, uma vez que todos já passamos pela vergonha, pela solidão e pela ânsia de sentir-se amado, restando uma nostalgia exótica dos momentos bons e até dos mais difíceis.

Crescer é uma fera

Crescer implica buscar, arriscar, ferir-se nos umbrais deste plano até que chegue o dia em que a experiência tenha força o bastante para impor-se e possa livrar-nos dos tantos outros perigos que não conhecemos. É o que faz Chris Wang, o Dìdi, um garoto taiwanês-americano, apaixonado por uma certa Madi, também de ascendência asiática, de quem tenta aproximar-se num chat do AOL Instant Messenger quando está com seus amigos, uma turma de rapazes não brancos como ele, na primeira das muitas alfinetadas de Sean Wang. O diretor-roteirista dosa crítica social com saborosas referências ao começo dos anos 2000 logo reconhecidas por quem viveu aquele tempo ainda sem o peso das escolhas definitivas e das responsabilidades sufocantes, abusando das cenas em que Dìdi aparece sobre um skate, numa fuga metafórica e real das agruras domésticas em Fremont, Califórnia. Ele percebe o esforço para manter a casa de Chungsing, vivida por Joan Chen, e no fundo tem-lhe pena, porque sabe que a mãe, “asiática demais” também é uma excluída. O afastamento é inevitável, e o retrato da adolescência como uma travessia dolorosa entre o autoengano e a epifania exposto no longa revela-se em todas as suas nuanças na rica composição de Chris Wang, um amálgama cartesiano de doçura, raiva, caos e mansidão. Ao explorar o desencanto com os pais, a erotização precoce (sobretudo dos meninos) e a mentira como código social, “Dìdi” recusa fórmulas e dinamita sem nenhum pejo a própria ideia de maturidade. Ser adulto é estar só — e fingir muito.



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