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Baseado em best seller de Richard Matheson, ficção científica com Alice Braga está na Netflix

Baseado em best seller de Richard Matheson, ficção científica com Alice Braga está na Netflix

“Eu Sou a Lenda” começa mostrando uma entrevista de televisão que explica como um vírus desenvolvido em laboratório sofreu mutação e saiu de controle. Pouco tempo depois, Nova York aparece irreconhecível. As avenidas estão tomadas por carros abandonados, a vegetação cresce sobre o asfalto e animais circulam livremente entre prédios vazios. Robert Neville (Will Smith) ocupa esse espaço sozinho há três anos. Cientista militar e ex-pesquisador, ele transformou a própria casa em fortaleza e laboratório enquanto tenta descobrir uma cura para os infectados.

Francis Lawrence não acelera demais as informações. Em vez de despejar explicações técnicas, ele acompanha a rotina de Neville como se observasse um funcionário exausto tentando manter um prédio funcionando depois que todos foram embora. O personagem caça cervos pelas ruas de Manhattan, recolhe alimentos em mercados abandonados, abastece geradores e transmite mensagens diárias pelo rádio. Sempre no mesmo horário, ele pede que sobreviventes compareçam ao píer da South Street. O detalhe angustiante é simples: ninguém responde.

A única companhia constante de Neville é Samantha, sua cadela pastor-alemão. O isolamento pesa mais quando existe silêncio demais, então Will Smith conversa com Sam o tempo inteiro, faz piadas ruins e até discute com manequins espalhados por lojas vazias. Existe algo quase constrangedor nessas cenas, mas no bom sentido. O personagem fala sozinho porque precisa ouvir uma voz humana, ainda que seja a dele mesmo ecoando em corredores desertos.

O perigo aparece à noite

Durante o dia, Neville consegue circular pela cidade com alguma segurança. O problema começa quando escurece. Os infectados, criaturas chamadas de “darkseekers”, permanecem escondidos em edifícios e túneis enquanto o sol está forte. À noite, assumem as ruas com violência absoluta. Neville sabe disso e organiza cada saída com precisão quase militar. Se um experimento demora mais do que deveria ou um carro quebra longe de casa, o risco aumenta drasticamente.

O terror de “Eu Sou a Lenda” transforma pequenas tarefas em situações desesperadoras. Buscar combustível vira operação delicada. Entrar em um prédio escuro significa perder visão e tempo. Até caçar um cervo pode terminar em desastre. Francis Lawrence filma Manhattan como uma cidade gigantesca que lentamente empurra Neville para o limite psicológico. Há espaço sobrando por todos os lados, mas nenhum lugar parece realmente seguro.

Os infectados também deixam de ser apenas monstros correndo e gritando. Aos poucos, Neville percebe comportamentos mais organizados nessas criaturas. Eles observam seus hábitos, identificam armadilhas e passam a cercar áreas específicas da cidade. O personagem percebe isso tarde demais. Pela primeira vez, ele entende que talvez esteja sendo estudado da mesma maneira que estuda os infectados em seu laboratório subterrâneo.

Experimentos e desgaste

A tensão nasce dentro do laboratório montado na casa de Neville. Ele coleta amostras de sangue, captura infectados e realiza testes em ratos e cobaias humanas. O cientista acredita que seu sangue possui imunidade suficiente para reverter os efeitos do vírus. O problema é que os experimentos falham continuamente. Cada tentativa frustrada consome recursos, tempo e equilíbrio emocional.

Will Smith sai carregando praticamente o filme inteiro sozinho e não transforma Neville em herói inalcançável. O personagem erra, perde o controle emocional e demonstra cansaço constante. Há uma cena especialmente forte em que ele entra numa locadora abandonada e conversa com manequins posicionados como clientes comuns. Parece engraçado por alguns segundos. Depois fica triste. O filme entende que solidão prolongada desgasta até os comportamentos mais básicos.

Francis Lawrence também acerta ao usar os espaços vazios da cidade para aumentar tensão sem depender o tempo inteiro de ataques. Uma rua silenciosa pode ser mais desconfortável do que qualquer perseguição. O espectador observa Neville entrando em prédios escuros sabendo que alguma coisa provavelmente está escondida ali, mas o diretor alonga essa espera até o limite suportável.

Quando surgem outros sobreviventes

Então, Anna (Alice Braga) e Ethan (Charlie Tahan) aparecem inesperadamente na vida de Neville, que mantinha uma rotina fechada, baseada apenas em sobrevivência e pesquisa científica. A chegada de outras pessoas quebra essa lógica. Anna acredita que ainda existem comunidades humanas organizadas fora de Nova York e tenta convencer Neville a abandonar a cidade.

Os dois personagens enxergam esperança de maneiras diferentes. Neville aposta todas as suas forças na cura. Anna acredita mais na possibilidade de reconstrução coletiva. Enquanto discutem permanência e fuga, os infectados cercam a região e tornam qualquer decisão mais perigosa.

“Eu Sou a Lenda” mistura ação, terror e drama com habilidade rara para blockbusters daquele período. O filme possui sequências grandes, criaturas digitais agressivas e perseguições intensas, mas encontra seus momentos mais fortes nos pequenos detalhes: o rádio sem resposta, os corredores vazios, a mesa posta para alguém que nunca chega e Samantha esperando Neville voltar para casa antes do anoitecer.

Mesmo quase vinte anos depois do lançamento, o filme ainda dialoga com as pessoas, porque diz uma verdade simples e desconfortável: o silêncio de uma cidade vazia pode assustar mais do que qualquer criatura escondida na escuridão.



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