Nordeste Magazine
Entretenimento

Virundum, ou por que nossos crebros insistem em cantar errado?

Virundum, ou por que nossos crebros insistem em cantar errado?

i>♪♫ Fazer amor de madrugada, em cima da cama, embaixo da escada, comendo a patroa, depois a empregada! ♫♪ Quem nunca cantou”Pintura ntima“, da banda Kid Abelha, errado, que atire o primeiro instrumento. Este foi um dos maiores exerccios de criatividade involuntria da humanidade. Na lingustica, chamamos isso de virundum, que designa uma percepo imprecisa de uma frase ou conjunto de palavras, que trocado por uma homofonia. mais comumente aplicada a um verso de um poema ou uma letra de cano.

Virundum, ou por que nossos c

O fenmeno universal, mas recebe diferentes nomes em cada contexto lingustico e cultural: nos pases anglfonos como mondegreen e soramimi, no Japo, mas este termo tem um significado mais estendido para explicar um verso escrito em um idioma diferente.

Segundo a psicologia cognitiva (dissonncia), as pessoas so mais propensas a escutar o que esperam ouvir do que as coisas que no fazem parte de suas experincias cotidianas; fenmeno conhecido como “vis de confirmao”.

Ou seja, se a letra de uma cano usa palavras ou frases com as quais o ouvinte no est familiarizado, elas podem ser mal interpretadas como usando termos mais familiares.

Isso explica o motivo pelo qual ouvintes confundem “cadeira hereditria” com “cadeira ela de praia” na msica “Xibom Bombom“: a primeira de baixa frequncia e complexidade sinttica, enquanto a segunda mais simples e cotidiana.

A verdade que o crebro humano odeia o vcuo. Diante de uma letra de MPB excessivamente rebuscada ou de um verso de rock regado a ecos e distores, nossa mente no admite o silncio semntico.

Ela opera como um estagirio de redao desesperado: se no entende o que foi dito, ela inventa algo que soe vagamente plausvel, ou, no mnimo, engraado.

O processo de Canonizao do Erro Auditivo segue trs etapas fundamentais. A primeira a “audio criativa” e tudo comea com o compositor. Ele decide usar uma palavra como “idlico” ou “inexorvel“. O ouvinte, que est apenas tentando lavar a loua ou dirigir no trnsito, processa aquilo atravs de um filtro de sobrevivncia.

assim que o “amarelo deserto” do Djavan vira um “amarelo de um certo” e a “cor de carmim” do Ritchie se transforma, inexplicavelmente, em um “abajur cor de carne“. O crebro no quer poesia; ele quer substantivos concretos.

Isso ocorre quando a poesia ruim ou duvidosa. Por exemplo, “♪♫ Amar um deserto e seus temores. Vida que vai na sela dessas dores” ♫♪. Como assim Djavan? Por que amar igual a um deserto medroso? Isso no faz o mnimo sentido, sobretudo porque para ter uma expresso potica consoante com a realidade bastaria trocar “temores” por “terrores“. Para piorar ainda mais as coisas, Djavan consegue rimar “eu te amo” com “eu oceano“.

A segunda etapa a da “fase da consagrao”: uma vez que voc ouviu a verso errada, ocorre uma espcie de solda neural. A letra original, aquela que o artista levou meses para burilar, torna-se irrelevante.

O erro sacramentado pelo hbito. Cantamos com convico. Gritamos o erro no karaok. Se algum tenta nos corrigir com o encarte do CD (ou do Google) em mos, reagimos com a indignao de um inquisidor:

– “A letra oficial est errada; a minha verso faz muito mais sentido histrico!”

A ltima etapa a do “confronto com a realidade”. O momento da descoberta sempre traumtico. Descobrir que o Renato Russo no vai ter um filho chamado “Walter Gomes dos Santos” seno um “com nome de santo” como descobrir que um Papai Noel de shopping , na verdade, o seu tiozo do pav. Perde-se a magia. A letra real costuma ser muito mais sem graa do que a fanfic auditiva que criamos.

No fim das contas, o “virundum“, batizado em honra ao nosso Hino Nacional e seu “Ouviram do Ipiranga” que ningum entende de primeira, a prova de que a msica no pertence ao compositor, mas ao ouvido de quem a deforma.

Se a letra original rebuscada (ou burra) demais, o povo exerce seu direito democrtico de substitu-la por algo que envolva comida, lugares geogrficos ou absurdos biolgicos.

No Brasil, muitos virunduns se tornaram populares justamente por misturarem criatividade, absurdo e proximidade fontica com expresses do cotidiano: “♪♫ Tocando B.B. King sem parar♫♪” virou “♪♫ Trocando de biquni sem parar ♫♪“; “♪♫ Entrei de gaiato no navio ♫♪” se tornou “♪♫ Entrei de caiaque no navio ♫♪“; “♪♫ Mas voc que mal passado e que no v que o novo sempre vem… ♫♪” virou “♪♫ Mas voc que ama o passado e que no v que o novo sempre vem… ♫♪“; entre outros.

Sigamos cantando errado, pois o erro, quando compartilhado por uma nao, deixa de ser gafe e vira folclore.

O MDig precisa de sua ajuda.

Por favor, apie o MDig com o valor que voc puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!

Meios de fazer a sua contribuio:

  1. Faa um doao pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
  2. Seja nosso patro no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
  3. Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com





Fonte

Veja também

‘Não Inviabilize’, de Déia Freitas, é o único podcast brasileiro entre os mais ouvidos no Spotify

Redação

Depois de ser engavetado pela Warner, ‘Coiote vs. Acme’ finalmente ver a luz do dia

Redação

Governo de Sergipe abre edital para bares e restaurantes no Arraiá do Povo 2026

Redação

Leave a Comment

* By using this form you agree with the storage and handling of your data by this website.