Entidade explica cuidados que podem evitar problemas antes, durante e após a locação (Reprodução/Freepik)

O caso recente de uma brasileira que não conseguiu retirar um carro previamente reservado e pago no Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, colocou em evidência uma etapa da viagem que pode passar despercebida no planejamento: as condições necessárias para efetivamente retirar o veículo. A partir do episódio, o Mercado & Eventos ouviu a Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (ABLA) para entender quais cuidados devem ser observados pelo viajante antes e durante uma locação, especialmente em deslocamentos internacionais.

No caso relatado ao M&E, a passageira havia contratado o veículo por meio da plataforma Discover Cars, com a Alamo como fornecedora. Ela afirma que teve a retirada recusada após apresentar documentos relacionados à sua chegada à França e questionar as condições exigidas pela locadora. A reportagem procurou as empresas envolvidas, mas não recebeu posicionamento até a data desta publicação.

Para a ABLA, o primeiro cuidado é entender exatamente com quem a reserva está sendo feita. A contratação pode ocorrer diretamente com a locadora ou por meio de uma agência de viagens, broker, site de viagens, OTA ou operadora. Segundo a entidade, não existe necessariamente uma opção melhor ou pior, mas o consumidor precisa identificar quem vendeu a reserva, já que esse será o principal canal para esclarecer questões comerciais relacionadas à contratação.

O contrato começa antes de pegar o carro

A atenção às condições da locação deve começar ainda no momento da reserva. A orientação da ABLA é que o viajante não presuma que uma locação internacional seguirá exatamente as mesmas regras às quais está acostumado no Brasil.

Idade mínima, documentos, caução, cartões aceitos, seguros, franquias, circulação entre países e categorias de veículos podem variar de acordo com o mercado e com a própria locadora. Por isso, a recomendação é consultar os Termos e Condições da empresa responsável pela reserva e confirmar as exigências específicas do país de destino.

O cuidado também vale para o momento da retirada. A reserva inicial pode não contemplar todos os produtos ou serviços oferecidos pela locadora no balcão. Upgrades, proteções adicionais, acessórios e outros serviços podem ser apresentados ao cliente nessa etapa.

Antes de aceitar qualquer item, a ABLA recomenda perguntar se ele é obrigatório, quanto custa, se a cobrança é diária ou pelo período completo e o que está incluído. A entidade também orienta o consumidor a ler o contrato antes de assinar e conferir valores, franquias, proteções, combustível, período da locação e serviços adicionais.

Quem vende a reserva também importa

Em reservas feitas por intermediários, entender a relação entre as empresas é especialmente importante. Segundo a ABLA, a reserva pode ser comercializada por diferentes canais e também pode haver produtos de proteção vendidos por empresas distintas da locadora.

A entidade cita, por exemplo, situações em que uma proteção oferecida por um broker funciona por reembolso. Nesse modelo, em caso de dano, a locadora pode cobrar o cliente conforme o contrato, enquanto o viajante posteriormente solicita o reembolso à empresa responsável pela proteção.

A recomendação, portanto, é verificar não apenas quem fornece o carro, mas também quem efetivamente vendeu cada serviço incluído na reserva.

Seguro do cartão não substitui automaticamente a proteção da locadora

Outro ponto que pode gerar dúvidas é o seguro oferecido por cartões de crédito. A ABLA alerta que esse benefício não necessariamente é aceito da mesma maneira em todos os países ou situações.

A utilização da cobertura pode depender das regras do cartão, do banco emissor, do país, da categoria do veículo e da modalidade de contratação. A associação também destaca que podem existir diferenças entre uma reserva antecipada e uma contratação realizada diretamente no balcão.

Antes da viagem, a orientação é consultar as condições do benefício oferecido pelo cartão e confirmar se ele atende às exigências da locação.

Atenção ao horário e ao aeroporto de retirada

O horário de retirada também merece atenção. Segundo a ABLA, o período de tolerância varia conforme o país, a estação e as condições da reserva. Em alguns mercados, o chamado grace period pode ser de apenas 29 minutos.

Em reservas realizadas em aeroportos, informar corretamente o número do voo é uma boa prática, de acordo com a entidade. A informação permite que a locadora acompanhe a chegada da aeronave e aplique as regras de tolerância previstas para aquele destino. Em caso de atraso ou alteração do voo, a recomendação é avisar a empresa o quanto antes.

O tema se relaciona diretamente ao caso apurado pelo M&E em Paris, no qual a documentação de viagem apresentada pela passageira esteve no centro da discussão sobre a retirada do veículo. A situação reforça a importância de verificar, antes do pagamento, quais documentos são exigidos para retirar o carro e se existem condições específicas para reservas feitas em aeroportos.

O carro precisa ser vistoriado antes de sair

Depois de resolver a parte documental e contratual, outro cuidado fundamental começa antes mesmo de colocar o veículo na estrada: a vistoria. A ABLA recomenda acompanhar o procedimento realizado pela locadora e conferir riscos, amassados, rodas, pneus, vidros, para-choques, interior, combustível e quilometragem. Qualquer marca encontrada deve ser registrada no contrato ou no sistema da empresa.

Também é recomendável fotografar o veículo e, se possível, fazer um vídeo curto mostrando as partes externa e interna. A associação orienta preservar os arquivos originais, mantendo os metadados de data, horário e, quando disponíveis, localização.

Na devolução, o procedimento deve ser repetido. O viajante deve registrar novamente o estado do veículo, a quilometragem e o nível de combustível e, quando possível, obter um comprovante da entrega. Se a devolução ocorrer fora do horário de funcionamento, é importante confirmar previamente onde estacionar, onde deixar as chaves e quando será realizada a vistoria.

Vai cruzar uma fronteira? Consulte a locadora

Para quem pretende circular por mais de um país, a recomendação é não presumir que a retirada do veículo em um país permita automaticamente sua utilização em outro.

Segundo a ABLA, a circulação internacional pode exigir autorização prévia, pagamento de taxas, documentação específica ou até ser restrita para determinadas categorias de veículos. A orientação é informar à locadora, antes da retirada, caso o roteiro inclua passagem por outro país.

A mesma atenção deve ser dada às regras locais de trânsito. Pedágios, zonas de circulação restrita, estacionamento e infrações podem ser tratados de maneiras diferentes em cada destino. A associação alerta ainda que multas podem ser comunicadas à locadora apenas depois do retorno do cliente ao país de origem e, dependendo das regras locais e do contrato, pode haver uma taxa administrativa para o processamento da notificação.

Documentos devem ser guardados depois da viagem

O fim da locação não significa necessariamente o fim das obrigações relacionadas ao contrato. A ABLA recomenda que o viajante não descarte imediatamente voucher, contrato, comprovantes, fotos, vídeos, recibos, e-mails e conversas mantidas com a locadora ou com o intermediário.

Isso porque cobranças relacionadas a pedágios, multas, combustível ou danos podem ser processadas posteriormente. Manter a documentação organizada facilita a contestação ou o esclarecimento de eventuais cobranças.

Checklist antes de colocar o carro na estrada

Para facilitar a preparação do viajante, a associação resumiu os principais cuidados em cinco perguntas que devem ser respondidas antes de sair com o veículo:

  • Sei quem vendeu minha reserva?
  • Sei exatamente o que está incluído no preço?
  • Conferi o contrato e as proteções contratadas?
  • Fotografei e filmei o veículo?
  • Sei como e onde devo devolver o carro?

Segundo a entidade, se todas as respostas forem positivas, o consumidor já reduz consideravelmente a possibilidade de enfrentar problemas durante ou depois da locação.

No caso de viagens internacionais, a recomendação é ampliar ainda mais essa conferência. Documentos, Permissão Internacional para Dirigir (PID), idade mínima, cartões aceitos, caução, seguros, franquias, regras de trânsito, circulação entre países e categorias de veículos podem mudar de um mercado para outro e também entre locadoras.

Empresas ainda não se manifestaram

O caso em Paris reforça a importância de conferir todas as condições da locação antes da viagem, especialmente em contratos internacionais. Saber quem está prestando o serviço, quais documentos serão exigidos e quais são as regras para retirada e devolução do veículo pode evitar problemas durante a viagem. Ao mesmo tempo, essas precauções não afastam a responsabilidade das empresas de apresentar as condições de forma clara nem justificam eventual tratamento inadequado ao consumidor.

No caso relatado ao Mercado & Eventos, as circunstâncias que levaram à recusa do veículo e o atendimento prestado à família ainda estão em apuração. A reportagem procurou a Alamo e a Discover Cars para esclarecer os procedimentos adotados e o episódio ocorrido no balcão e aguarda o posicionamento oficial das empresas.