Em maio de 1944, a revista Life publicou uma foto de uma jovem chamada Natalie Nickerson sentada a uma escrivaninha, com o queixo apoiado na mo, escrevendo um bilhete de agradecimento. sua frente, havia um crnio humano. Segundo a revista, seu namorado, um marinheiro, o havia enviado da Nova Guin, assinado por ele e 13 amigos, com a inscrio: “Este um bom japons, um morto encontrado na praia da Nova Guin“. A Life publicou a foto como sua Foto da Semana. Os censores americanos a aprovaram sem problemas. |

Dcadas depois, um membro da famlia de Natalie contou ao Snopes que tudo no passava de uma sesso de fotos encenada, que ela no tinha um namorado no Pacfico e que, posteriormente, se arrependeu de ter sido convencida a participar.
Se o crnio era real ou um adereo, permanece um mistrio. Mas o fato dos censores terem permitido a publicao e o pblico, em sua maioria, t-la aceitado, diz tudo sobre o contexto cultural da poca.
A mutilao de militares japoneses inclua a coleta de partes de seus corpos como “lembranas de guerra e trofus de guerra“. Dentes e crnios eram os “trofus” mais comumente coletados, embora outras partes do corpo tambm fossem obtidas.

Tudo comeou em Guadalcanal. A coleta de partes de corpos de soldados japoneses mortos em combate comeou quase assim que as foras americanas entraram em contato com o inimigo. O historiador Simon Harrison, autor do artigo acadmico definitivo sobre o assunto, “Trofus de Crnios da Guerra do Pacfico“, concluiu que a prtica comeou em uma escala to grande que alarmou as autoridades militares desde os primeiros confrontos, particularmente a Batalha de Guadalcanal, no final de 1942.
Dentes e crnios eram os itens mais valorizados, mas os soldados tambm levavam orelhas, narizes, dedos e ossos. Os crnios eram frequentemente preparados fervendo a cabea e, em seguida, raspando-a ou arrastando-a atrs do navio em uma rede para limp-la e poli-la.
Um poeta chamado Winfield Townley Scott, que trabalhava como reprter em um jornal em Rhode Island em 1944, testemunhou um marinheiro exibindo seu trofu de crnio no escritrio e ficou to perturbado que escreveu um poema sobre isso, “O Marinheiro Americano com o Crnio Japons“, descrevendo todo o macabro processo de preparao.
Em setembro de 1942, o Comandante-em-Chefe da Frota do Pacfico j no aguentava mais. Ele emitiu uma ordem formal: nenhuma parte do corpo do inimigo poderia ser usada como lembrana, e qualquer militar flagrado fazendo isso enfrentaria “severas medidas disciplinares”. O Estado-Maior Conjunto teve que emitir a mesma ordem novamente em janeiro de 1944. Nenhuma das duas surtiu muito efeito.

Soldados com seu mascote.
A resposta honesta : ningum sabe ao certo. Mas as evidncias de que era extremamente comum so difceis de contestar. Quando Charles Lindbergh, o famoso aviador que se tornara um cone mundial aps voar sozinho sobre o Atlntico em 1927, passou pela alfndega no Hava em 1944, voltando de sua misso de observao de operaes de combate no Pacfico, o agente alfandegrio perguntou-lhe diretamente se ele carregava ossos.
Charles ficou aparentemente surpreso com a pergunta. O agente explicou que isso havia se tornado rotina, tantos militares haviam sido pegos contrabandeando restos mortais de japoneses para casa que ossos agora eram uma categoria padro na declarao alfandegria.
Em seu dirio de guerra, Charles tambm registrou uma conversa com um oficial da Marinha que lhe contou que mutilar cadveres japoneses, cortando orelhas, narizes e coisas do tipo, era prtica comum.
Em outubro de 1943, o Alto Comando dos EUA ficou alarmado aps uma srie de artigos publicados na imprensa nacional. Um deles relatava um soldado fazendo um colar de contas com dentes japoneses. Outro inclua uma srie de fotos passo a passo de como preparar um crnio, com instrues de cozimento e raspagem. Esses artigos no vazaram nem foram suprimidos; passaram pela censura militar.
O correspondente de guerra americano Edward L. Jones descreveu a situao claramente em um artigo de 1946 para a revista The Atlantic:
– “Fervamos a carne dos crnios inimigos para fazer enfeites de mesa para namoradas, ou esculpamos seus ossos para fazer abridores de cartas.”

Fuzileiros navais americanos com uma coleo de crnios japoneses.
A evidncia mais clara do ps-guerra surgiu em 1984, quando os restos mortais de soldados japoneses mortos nas Ilhas Marianas foram repatriados para o Japo. Cerca de 60% dos corpos enviados para casa estavam sem o crnio. Em 1985, um sacerdote budista japons que realizava ritos funerrios em Iwo Jima desde 1952 relatou que a maioria dos corpos com os quais havia trabalhado ao longo dos anos no tinha o crnio.
Talvez o momento mais surreal de toda essa histria sombria tenha ocorrido em 1944, quando o representante americano Francis E. Walter presenteou o presidente Franklin D. Roosevelt com um abridor de cartas. Ele havia sido esculpido no osso do brao de um soldado japons.
Quando a notcia se tornou pblica no Japo, causou um alvoroo nacional. A histria foi amplamente reproduzida na imprensa japonesa, juntamente com a foto da caveira publicada na revista Life, e foi usada para retratar os americanos como, nas palavras dos reprteres da poca, “desequilibrados, primitivos, racistas e desumanos“.
Roosevelt ordenou que o abridor de cartas fosse devolvido e recebesse um enterro digno. Vale ressaltar que ele no exigiu saber como tal coisa havia parado em sua mesa; ele apenas queria que fosse embora.

Sinal de alerta na linha de frente, utilizando o crnio de um soldado japons em Peleliu, outubro de 1944.
O que diferenciava os japoneses de seus outros inimigos? Os soldados americanos no faziam isso com os soldados alemes ou italianos mortos em combate. Esse contraste gritante e incmodo, e os historiadores no hesitaram em mencion-lo diretamente.
Uma pesquisa realizada em dezembro de 1944 perguntou a soldados americanos se eles estariam dispostos a matar soldados inimigos. Cerca de metade concordou quando a pergunta era sobre soldados japoneses. Menos de 10% concordaram quando a pergunta era sobre alemes.
O historiador Niall Ferguson, especialista em histria alem, considerou esse padro um dos aspectos mais perturbadores de toda a Segunda Guerra Mundial: o fato das tropas aliadas terem tratado os japoneses de maneira muito semelhante forma como a Alemanha nazista tratou os povos eslavos.
A desumanizao foi sistemtica. A mdia americana em tempos de guerra rotineiramente descrevia os japoneses como “vermes amarelos“. Um filme oficial da Marinha dos EUA se referia s tropas japonesas como “ratos vivos e ferozes“. O choque de Pearl Harbor amplificou o racismo preexistente, e a mquina de propaganda o transformou em algo que fazia homens comuns se sentirem vontade para mutilar restos humanos.
A pesquisa de Simon tambm apontou para outro fator cultural: muitos militares americanos vinham de famlias de caadores, onde guardar trofus de animais era normal e at admirado. Combinada com a desumanizao do inimigo, essa mentalidade se traduzia diretamente no campo de batalha. Voc tratava o corpo de um japons morto da mesma forma que trataria um cervo ou um urso.

Os crnios-trofu no desapareceram com o fim da guerra. Foram para casa em sacos de lona, ficavam expostos em lareiras, eram passados de gerao em gerao nas famlias e, ocasionalmente, apareciam nos lugares mais inusitados imaginveis. Em diversas ocasies, a polcia, ao investigar casos de homicdio, precisou recorrer a peritos forenses aps descobrir o que se revelou serem antigos trofus de guerra japoneses, e no evidncias de um crime recente.
Os esforos de repatriao prosseguiram por dcadas. O Japo e os Estados Unidos at hoje cooperam na repatriao de restos mortais, embora o processo seja lento e complicado pelo fato de muitas famlias que receberam crnios ou no saberem o que possuem ou no desejarem se apresentar.
Alguns ossos foram entregues discretamente s autoridades locais. Em 2010, o governo dos EUA aprovou a Lei de Proteo de Tmulos de Guerra, que endureceu as restries ao comrcio e posse de restos mortais humanos obtidos como trofus de guerra.
A verso oficial sempre foi de que se tratava de um comportamento bizarro de uma pequena minoria. Os nmeros das Ilhas Marianas sugerem o contrrio. Quando 60% dos corpos devolvidos esto sem cabea, no se trata de algumas mas podres. Trata-se de uma falha poltica em larga escala, disfarada sob a linguagem de transgresses individuais.
A Guerra do Pacfico foi brutal de maneiras que o teatro de operaes europeu simplesmente no foi, e alguns historiadores argumentam que a mutilao precisa ser compreendida no contexto das aes de ambos os lados. As foras japonesas cometeram atrocidades documentadas por toda a sia e contra prisioneiros de guerra aliados. Raiva, vingana e o efeito brutalizante de meses em uma zona de combate na selva contriburam para isso.
Mas a escala torna essa explicao difcil de sustentar como uma defesa completa. Quando 60% dos corpos repatriados esto sem crnio, no estamos falando de falhas isoladas sob presso. Estamos falando de algo que foi tolerado, permitido e, em alguns casos, celebrado.
Ossos eram esculpidos para fazer abridores de cartas e enviados a congressistas. Crnios apareciam em redaes de jornais. Soldados faziam colares de contas com dentes. Os militares proibiram a prtica duas vezes e quase nunca a processaram.
No se trata de alguns soldados perdendo sua bssola moral na nvoa da guerra. Trata-se de uma sociedade que decidiu que um determinado inimigo no era totalmente humano, e cujas instituies concordaram silenciosamente com isso.
Todos sabemos que a histria de uma guerra contada pelos vencedores. Foi assim que a coleta de crnios e partes de corpos de soldados japoneses por tropas americanas na Guerra do Pacfico foi ocultada do pblico da poca pelo governo dos EUA para proteger a imagem heroica dos Aliados.
A intensa propaganda de guerra racista e a brutalidade dos combates levaram tropas americanas a tratar os combatentes japoneses de forma desumanizadora. A prtica nojenta de envio de crnios e dentes como “souvenires” para os EUA foi uma descarada violao Conveno de Genebra e passa bem longe do herosmo.
O racismo contra japoneses nos EUA no comeou na Segunda Guerra, lgico, mas a guerra foi um catalisador brutal. O conflito militar intensificou e transformou um preconceito que j existia desde o final do sculo XIX, marcado por leis de segregao e medo cultural.
Desde a dcada de 1880, imigrantes asiticos enfrentavam forte rejeio. Em 1900, o movimento anti-japons cresceu na Costa Oeste, resultando em leis que proibiam esses imigrantes de possuir terras e de obter a cidadania americana.
Havia forte segregao social e econmica muito antes do conflito global, mas o ataque base militar no Hava alimentou o sentimento antijapons. A histeria de guerra levou o governo a confinar mais de 110 mil nipo-americanos em campos de internamento nos EUA, violando seus direitos civis.
Campanhas de desumanizao foram usadas para gerar animosidade pblica, retratando o povo japons como racialmente inferior. O mais irnico desta
histria toda que a 442 Equipe de Combate Regimental, um regimento formado integralmente por niseisfoi (e ) a unidade militar mais condecorada da histria> dos Estados Unidos.
Se no fosse o bastante, h muitos afro-americanos que demonstram racismo, xenofobia ou preconceito contra japoneses e outras populaes asiticas.
O MDig precisa de sua ajuda.
Por favor, apie o MDig com o valor que voc puder e isso leva apenas um minuto. Obrigado!
Meios de fazer a sua contribuio:
- Faa um doao pelo Paypal clicando no seguinte link: Apoiar o MDig.
- Seja nosso patro no Patreon clicando no seguinte link: Patreon do MDig.
- Pix MDig: 461.396.566-72 ou luisaocs@gmail.com
