Para Rodrigo Sant’Anna, o humor segue sendo mais um instrumento de leitura do próprio tempo do que uma ferramenta de dar leveza às coisas. Ao refletir sobre a nova temporada de “Tô de Graça”, o ator defende que a comédia sempre ocupou um lugar de provocação, capaz de tensionar temas sociais e dialogar com o que está em evidência.
Nessa linha de pensamento, ele destaca que as redes sociais, o fenômeno do cancelamento e a velocidade com que a fama se constrói hoje são matérias-primas naturais para a narrativa contemporânea da série do Multishow.
“Eu enxergo o humor como um canhão. Acho que desde sempre, desde o início dos tempos, ou desde Shakespeare, o humor era o lugar que era usado para, de alguma maneira, alfinetar ou trazer uma questão em voga”, aponta.
Com a casa renovada e vivendo como uma influencer da comunidade, Maria da Graça Xuxa A Meneguel, ou Graça para os íntimos, está preparada para mais confusões na companhia dos filhos. Agora, a protagonista interpretada por Rodrigo está em uma nova fase de vida e carreira, depois de participar de um reality show.
“É como se esse projeto estivesse sendo feito pela primeira vez, só que com a maturidade de tudo que a gente já adquiriu nessas sete temporadas anteriores. Para mim a sensação é de um novo filho que eu estou parindo. É a alegria de um novo filho. Filho é a coisa mais importante que tem, né?”, valoriza.
A rejeição da Graça no “BBB” é um ponto central da temporada, levando-a a buscar outros caminhos para esticar os minutos de fama. Como você enxerga o papel do humor em discutir temas como fama, cancelamento e relevância nas redes sociais?
Eu enxergo o humor como um canhão, na verdade, discussão para todos os temas, né? Não só rede social, eu acho que desde sempre, desde o início dos tempos, ou desde Shakespeare, o humor era o lugar que era usado para, de alguma maneira, alfinetar ou trazer uma questão em voga.
Eu acho que a gente tem de se adequar aos assuntos do momento. E no momento, o que mais se fala são redes sociais, a prática do cancelamento nessas redes sociais, a fama que essas redes sociais conseguem catapultar de uma maneira, numa velocidade que outrora somente a tevê fez. Então, hoje em dia, trazer essa temática para dentro das narrativas faz toda a diferença para você ser atual.
Após oito temporadas, qual é a fórmula para manter a série viva e como o improviso contribui para esse frescor?
Acho que a gente ainda consegue rir da gente mesmo, desses personagens, e isso é o que mantém a série viva. Um projeto como esse vive dessa liberdade, o improviso é permitido até para quem vem fazer participações. Quando a gente começa gravando com plateia, vale tudo.
A participação da Xuxa Meneghel era um desejo antigo seu. O que representou transformar essa referência da infância em parte do universo da série?
Você imagina que a Xuxa é o nome da personagem, é o nome que inspirou a personagem, né? Eu faço a Maria da Graça Xuxa A Meneghel, só tem esse artigo que diferencia o nome da Xuxa verdadeira (risos). Então tem um carinho imenso pelo que a Xuxa representou para mim ao longo da minha infância.
Eu acho que tem um paralelo que se faz, né? De mim, na minha infância, viver numa comunidade, de ver a Xuxa e me inspirar ou ouvir aquela música “Lua de Cristal” e fazer daquilo para mim um hino, para que eu um algum dia conseguisse virar uma chave. Então, conseguir hoje fazer uma personagem com ela dentro de uma comunidade é muito para mim, é muito forte.
Além de dar vida à Graça em cena, você também atua como roteirista de “Tô de Graça”. De que forma essa dupla função influencia o humor e a identidade da série?
Eu acho que faz toda a diferença eu estar envolvido no roteiro, né? Porque eu acho que eu ter vivido numa comunidade por 18 anos, até a minha idade adulta, me traz uma chancela de saber que assuntos, que narrativas, de que maneira contar aquelas histórias. Isso é um ponto.
O segundo ponto é ter ali a métrica da piada mesmo, de como fazer disso uma piada. E eu acho que, como está na minha embocadura, os roteiristas estarem ali comigo já há um tempo e eu estar envolvido fortalece a maneira como já vem a piada mais pronta desde o roteiro.
Você tem vivido anos profissionais bastantes intensos. Como tem sido essa seleção de projetos ao longo dos últimos tempos?
Eu vivo cada dia um novo dia, né? A sensação de que não tem jogo ganho. Não dá para relaxar. É “qual é a próxima?”, “Qual é o próximo personagem?”, “Qual é o próximo projeto?”, “Qual é a nova ideia?”, “Qual é o novo texto?”, “Como eu me desafio novamente?”. Eu nunca consigo pensar na minha carreira olhando para trás, sempre olhando pra frente. Talvez seja a frase que defina para mim.
O projeto que eu tenho muita vontade de realizar é um projeto fazendo vários personagens, de vários personagens contracenando comigo, contracenando com outras pessoas. Esse eu acho que é o meu projeto dos sonhos hoje.
“Tô de Graça” – De segunda a sexta, às 22h30, no Multishow.
