O município de Amaraji, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, fica a 94 km do Recife. Da história ligada à cana-de-açúcar, o gosto pelo doce faz parte da cultura local e ganha ainda mais força no período junino.
Afinidade perfeita para a fartura dos pratos típicos à base de açúcar, leite, milho e especiarias. Que o diga Gal Mota, matriarca de uma família tipicamente pernambucana, que mantém viva a tradição dos encontros abastecidos por receitas passadas de geração em geração.
As filhas Sofia e Júlia nasceram no Recife, mas herdaram a tradição que veio da casa de seus avós. Fogueira, música, dança e, claro, comida, sempre fizeram parte das memórias mais íntimas. “Cresci na cozinha com minha mãe e minha avó por perto.
Aprendi desde a descascar o milho a ralar o coco naquele ralador antigo de latão. Tirar a polpa do milho para fazer pamonha, canjica, bolos pé de moleque e Souza Leão.
Tudo preparado em fogão à lenha”, recorda Sofia Mota, que naturalmente se tornou chef de cozinha das mais reconhecidas dentro e fora de Pernambuco.
Se na capital basta um botão para acender o fogão, na casa em Amaraji o preparo manteve ao máximo o processo artesanal. Como se o tempo quisesse congelar para manter as tradições vivas. “Até o café era torrado no pilão, enquanto o milho era preparado no quintal”, reforça Gal.
As receitas surgiam nos mínimos detalhes. “O grão passava pela máquina até sair toda a polpa grossa, que servia de base para a canjica, por exemplo”, conta.
Artesanal
Para se ter uma ideia da mão de obra, a palha da pamonha era cozida até ganhar resistência e, assim, não vazar ou rasgar durante a montagem. Enquanto a espiga de milho era criteriosamente escolhida para servir de molde ao preparo.
Bolo de milho é pedida obrigatória na mesa da família (Foto: Paullo Almeida/Folha de Pernambuco)Uma espécie de copinho amarrado com o fio da própria palha em um trabalho a quatro mãos.
Não à toa, o São João da família tem motivo de sobra para durar o mês inteiro até hoje. “Em Amaraji, a gente mantém a tradição de se reunir em volta da fogueira, comendo milho e queijo do reino. E assim vai passando de geração em geração”, garante a filha mais nova Júlia Mota.
A comida era tanta, que chegava a ser distribuída para os vizinhos. “De tão grandes, eu cabia dentro das panelas”, brinca.
O pé de moleque não falta até hoje. O tradicional bolo à base de amendoim torrado e especiarias foi repaginado por Gal, numa receita de mãe para filha. “Tem todos os ingredientes comuns: cravo, da canela, do café, da castanha… Mas tudo aqui é torrado e pilado.
Além de fazer o próprio melaço. Por fim, o coco vai em cima, formando uma crostinha como uma cocada”, resume Sofia, que desde cedo vem apresentando esse universo à filha Letícia, de 8 anos.
Tamanha dedicação preenche os olhos. Gal, Sofia, Júlia e Letícia ocupam a mesa com entusiasmo, reforçando imaginários do Nordeste que se eternizam através da gastronomia. “São João não é só uma festa, é um sentimento”, concordam.
Dica 1:
Para todo preparo prefira ingredientes sempre frescos, milho bem selecionado, leite de coco natural, macaxeira novinha, massa de mandioca bem lavada.
Dica 2:
Não deixe a tradição desaparecer e capriche na apresentação da mesa para que a festa fique ainda mais bonita repleta de elementos típicos.
