Paula Lavigne começou a ligar pessoalmente — ela faz questão de frisar — para vários artistas, tanto do setor audiovisual quanto da música, “um a um”. A ideia era reunir um número considerável de grandes nomes da cultura brasileira para se posicionarem em uma campanha contra as empresas de apostas on-line, as bets.
O resultado das conversas pôde ser visto na última terça-feira (2), quando nomes como os cantores Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Paulinho da Viola, além das atrizes Marieta Severo, Julia Lemmertz, Letícia Sabatella e Cláudia Abreu, apareceram em um vídeo do movimento batizado de “Block no Tigrinho”, que busca mecanismos “pelo fim do bet predatório no Brasil”.
No vídeo — divulgado pelo grupo 342 Artes, que reúne artistas e personalidades da cultura brasileira — aparecem nomes de diversas gerações, como Djavan, Emicida, Malu Galli, Daniel Dantas, Luisa Arraes, Camila Pitanga, Alice Carvalho, Enrique Diaz e Sandra Sá.
Lavigne afirma que é importante que esses artistas, alguns deles com 60 anos de carreira, se posicionem diante de um “cenário que nunca viram antes, com a extrema-direita dominando o Congresso e transformando o Brasil em um lugar cada vez mais problemático”.
— Existe algo poderoso quando grandes nomes da cultura resolvem se posicionar sobre um tema. É natural que, ao ver artistas que construíram sua trajetória ao longo de décadas aderindo a uma campanha como essa, outros artistas, comunicadores e influencers se sintam incentivados a participar também — afirma a atriz, que criou o 342 Artes.
— Houve uma sintonia, porque estamos falando de uma questão urgente e cada vez mais presente na vida das pessoas. Praticamente todo mundo conhecia alguém arruinando a vida com apostas on-line.
A campanha tem como objetivo ampliar a conscientização sobre os prejuízos associados às apostas on-line, sobretudo entre jovens, famílias e pessoas em situação de vulnerabilidade. Dados da Confederação Nacional do Comércio e do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas mostram que 1,8 milhão de brasileiros se endividaram por bets em 2024. Desse total, 1,4 milhão apresenta transtornos associados às apostas.
Shows patrocinados
Paula Lavigne avalia que o país vive um “colapso social e financeiro” e que tanto artistas quanto profissionais da música também se tornaram “reféns” das bets. Ela cita como exemplo o fato de muitos festivais, casas de shows, espetáculos e grandes eventos terem patrocínio de plataformas de apostas.
— Caetano tem shows marcados em festivais que tem patrocínio de bet. Os shows foram fechados há tempos, em um momento em que essa crise não existia. Recentemente, avisei aos promotores dos festivais que faria a campanha e eles não quiseram cancelar. Eu e Caetano podemos viver sem fazer shows patrocinados por bets. Mas isso não me parece justo com outros artistas que não tem condições de fazer essa escolha — diz a esposa do artista baiano.
A mobilização contou ainda com um chamado para influencers. A estratégia teve apoio da especialista em marketing digital Bárbara Bono, responsável pela curadoria dos criadores de conteúdo que participariam da campanha. A participação desse grupo foi considerada importante porque a divulgação das apostas on-line ocorre, muitas vezes, por meio de pessoas que trabalham com influência digital.
— Quem convida para jogar (apostas em bets) também mudou. O influencer está ao alcance da sua mão, fala com milhões, de um jeito íntimo, no meio da vida real dele. Quem comunica empresta a própria voz e, com ela, a confiança de quem está do outro lado da tela, muitas vezes alguém apostando o que era pra ser comida e aluguel — explica ela. — A bet vai existir de qualquer jeito. Mas a gente decide, todo dia, como empresta a própria voz para ela.
Lavigne, claro, afirma esperar mudanças a partir do movimento:
— A primeira mudança é cultural. O objetivo principal da campanha é criar pressão por regulações mais rígidas da publicidade e da atuação das bets através, por exemplo, de propostas como o PL Brasil Contra Bets, que foi protocolado com texto idêntico na Câmara e no Senado. Será que o Congresso vai nos ouvir?
