MS-21 foi criado para disputar mercado com Airbus e Boeing avança em versão nacionalizada após sanções ocidentais mudarem o projeto
O programa do MS-21 (MC-21, em cirílico), principal aposta da Rússia para retomar ao mercado da aviação comercial, alcançou uma nova etapa em agosto. O primeiro exemplar produzido em configuração de série realizou um voo sem escalas entre Irkutsk, na Sibéria, e o aeroporto de Zhukovsky, nos arredores de Moscou, percorrendo mais de 4.000 quilômetros em 5h50. Foi o voo de maior duração realizado até agora pela versão equipada com sistemas russos e motores PD-14.
O mesmo avião, de número de série MS.0014, havia realizado seu primeiro voo em 3 de agosto, permanecendo 1h23 no ar. Segundo a United Aircraft Corporation (UAC), a campanha avaliou estabilidade, controlabilidade e o funcionamento dos novos sistemas instalados na versão atualizada para conteúdo russo.
Conhecido internacionalmente também como MC-21, em referência à grafia cirílica para МS-21, o bimotor nasceu com uma proposta diferente dos grandes aviões comerciais desenvolvidos anteriormente na União Soviética e na Rússia. A ideia era criar um produto capaz de competir internacionalmente com Airbus A320 e Boeing 737, adotando ampla participação de fornecedores estrangeiros e uma cadeia industrial semelhante à utilizada pelos fabricantes ocidentais.
O projeto original empregava motores Pratt & Whitney PW1400G e sistemas de empresas como Rockwell Collins, Honeywell, Goodrich, Hamilton Sundstrand e Zodiac. Uma das principais inovações estava na asa de material composto, produzida por um processo sem autoclave e destinada a reduzir peso e custos industriais.
A estratégia começou a mudar ainda antes da invasão da Ucrânia. Sanções norte-americanas impostas em 2018 atingiram o fornecimento de matérias-primas da Hexcel e Toray utilizadas nos componentes estruturais de material composto, obrigando a indústria russa a desenvolver alternativas nacionais. A ruptura tornou-se muito mais ampla a partir de 2022, quando as sanções decorrentes da guerra interromperam o acesso a diversos equipamentos ocidentais.
Moscou passou então a redesenhar o programa em torno de uma cadeia de suprimentos nacional. A versão MS-21-310 utiliza os turbofans Aviadvigatel PD-14 e recebeu substitutos russos para dezenas de sistemas, incluindo unidade auxiliar de potência, sistemas ambientais e equipamentos de navegação.
A mudança trouxe consequências. Além de exigir uma nova campanha de certificação, o avião ficou mais pesado que o inicialmente previsto. A própria UAC informa atualmente alcance máximo de 3.830 quilômetros com 175 passageiros, abaixo das metas apresentadas anteriormente. A cabine, por outro lado, permanece entre os principais diferenciais do projeto, com 3,81 metros de largura interna, é mais ampla que as dos A320 e 737. A capacidade máxima chega a 211 passageiros.
Os sucessivos redesenhos também transformaram o cronograma. O primeiro voo ocorreu em maio de 2017 e a entrada em serviço chegou a ser prevista para o final da década passada. Após diversos adiamentos, certificação e primeiras entregas da configuração nacional estão agora previstas para 2027. Assim, o MS-21 avança novamente, mas quase dez anos depois de seu primeiro voo e com características distintas daquelas que orientaram o projeto original.
