O relacionamento entre pais e filhos é terreno fértil para histórias as mais confusas. Há algum tempo, o tal mal-estar da civilização instalou-se também junto às famílias, antes basicamente refúgio e hoje espaço de desacordo e atrito. Demandas do mundo pós-moderno infiltram-se nos lares, substituindo o diálogo pela cobrança e o afeto pela competição. As neuroses do dia a dia são apenas o reflexo de uma imaturidade patológica, que tolhe qualquer chance de amor. Não há nenhuma tragédia irremediável em “Minha Estranha Família”, um relato sobre a tolstoiana infelicidade entre aqueles que partilham do mesmo sangue e a natureza singular dessa relação, estereotipada e tão repleta de idiossincrasias, mas Lisa Jespersen capta os silêncios e os arroubos de seus personagens de modo a sublinhar as carências e a instabilidade emocional que os definem, trazendo à luz sua porção sombria, de mágoas que vão aflorando de pouco em pouco.
De perto ninguém é normal
Há circunstâncias que mais parecem uma forte tormenta de dimensões sobrenaturais que cede como que por encanto ao cabo de horas e horas de terror, quando alguma solução começa a se desenhar no horizonte. Exercitando uma confiança que beira a loucura, deixamo-nos guiar por esses sinais, convictos de que os dias de busca e de dúvida estão em seus estertores e, então virá não o final feliz dos contos de fadas, mas um recomeço. Irina já foi Laura, agora é quem sempre deveria ter sido, prescindindo de opiniões em contrário. Destemida, ela emplacou na carreira literária e cortou os cabelos, e os dois eventos provocam o incômodo da mãe, Jane, amável, mas bronca. A narrativa move-se em torno da viagem de Irina à Dinamarca rural, onde ela foi criada, para o casamento do irmão, Jannik, e Jespersen e a corroteirista Sara Isabella Jønsson Vedde dissecam os conflitos que surgem dessa volta, começando por uma desavença entre a hóspede e Catrine, a noiva. Os lances protagonizados por Irina e Jane, vivida por Bodil Jørgensen com a justa medida de doçura e aparvalhamento, são os melhores, mas Rosalinde Mynster é hábil em costurar as várias subtramas e os diversos tipos, levados por atores como Adam Ild Rohweder e Anne Sofie Wanstrup, tecnicamente irretocáveis e atentos às sutilezas desse exame, nórdico e nada frio, das nossas humanas imperfeições.
O relacionamento entre pais e filhos é terreno fértil para histórias as mais confusas. Há algum tempo, o tal mal-estar da civilização
