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27 anos depois, esta comédia romântica no Prime Video continua sendo uma das histórias de amor mais amadas do cinema

27 anos depois, esta comédia romântica no Prime Video continua sendo uma das histórias de amor mais amadas do cinema

“Um Lugar Chamado Notting Hill”, dirigido por Roger Michell, começa com William Thacker, vivido por Hugh Grant, trabalhando em uma livraria de viagens em Notting Hill. Anna Scott, estrela americana interpretada por Julia Roberts, entra como cliente. O encontro poderia ficar no balcão, entre livros e atendimento. Não fica. William cruza outra vez com Anna na rua, derrama suco de laranja em sua roupa e oferece sua casa para que ela se troque. A comédia romântica parte desse acidente. William quer se aproximar de Anna, mas a fama dela aumenta o peso de cada gesto, de cada saída e de cada porta aberta.

Visto 27 anos depois, o filme já não depende da surpresa. A livraria, a porta azul, o suco derramado e o contraste entre a rotina de William e a exposição de Anna já fazem parte da memória de quem cresceu vendo comédias românticas dos anos 1990. O que permanece é uma sequência de ações simples. Anna entra numa loja. William atravessa uma rua. Os dois tentam preservar uma visita. Ele improvisa uma entrevista. Fotógrafos chegam à porta de casa. O romance avança por deslocamentos pequenos, mas cada deslocamento cobra alguma coisa.

A comédia do improviso

A livraria tira Anna do ambiente que costuma protegê-la. Não há assessores, tapete de imprensa ou equipe ao redor. Há prateleiras, clientes, um funcionário e William tentando manter a rotina da loja. Ele controla pouco. Tem a livraria, o apartamento dividido com Spike e os amigos que aparecem ao longo da história. Quando Anna aceita ir à casa dele depois do acidente com o suco, o espaço privado parece resolver o constrangimento. Resolve só por alguns minutos.

No Ritz, a diferença entre os dois passa pelo embaraço. William vai ao hotel para encontrar Anna e acaba agindo como jornalista. A saída é se apresentar como alguém ligado à revista “Horse & Hound”. A mentira precisa continuar. Ele faz perguntas, encara outros atores, ocupa uma função que não sabe exercer. A piada não fica isolada, porque cada resposta pode expor William diante de Anna e de pessoas que pertencem àquele ambiente.

O falso repórter deixa claro um limite prático. Para chegar a Anna no hotel, William precisa aceitar uma regra que não é dele. Não está mais na Portobello Road. Está entre entrevistas, compromissos e respostas preparadas. Anna sabe circular ali. William tenta não ser descoberto. A graça vem desse esforço torto, não de uma tirada.

Hugh Grant faz William hesitar antes de avançar. Ele pede licença, recua, improvisa, tenta ocupar pouco espaço. Essa postura pesa quando o personagem precisa responder rápido. Julia Roberts mantém Anna entre duas posições. Ela pode estar sentada na sala de William ou à mesa com os amigos dele, mas nunca chega sem a agenda, a imprensa e a vida profissional que podem interromper a cena. Rhys Ifans, como Spike, impede que o apartamento vire refúgio organizado demais. A casa que deveria proteger Anna também tem descuido, invasão e falta de filtro.

A casa, a rua e os fotógrafos

O jantar de aniversário tira Anna do hotel e das entrevistas. Ela se senta com pessoas que não fazem parte de sua rotina profissional. Max, Bella, Bernie, Honey e os outros amigos de William não a tratam apenas como estrela de cinema. Fazem perguntas, dividem constrangimentos, comentam fracassos. William vê Anna dentro de seu círculo doméstico. Anna vê William cercado por gente que o conhece antes dela.

A distância entre os dois aparece nos lugares que eles conseguem ocupar. A livraria permite o primeiro contato. A rua provoca o acidente. A casa cria uma pausa. O Ritz exige disfarce. O jantar testa a convivência. A porta azul separa a sala da calçada até o momento em que fotógrafos se juntam do lado de fora. Depois disso, a visita deixa de ser só uma visita. Anna paga um preço público. William perde parte do anonimato.

O lugar do título pesa mais hoje. Notting Hill não aparece apenas como endereço bonito para uma história de amor. É o bairro que organiza os encontros, as caminhadas e a casa de William. A Londres mostrada é selecionada, pouco diversa, limpa demais em certos pontos. Esse limite ficou mais visível com o tempo, porque o cenário não é neutro. Ele dá nome ao filme e sustenta a ideia de uma rotina disponível para a entrada de uma estrela.

Há excessos. Algumas canções sublinham emoções que a cena já entregou por ação. O vaivém entre aproximação e recuo poderia ser mais curto. Nem todo retorno tem o mesmo peso. William primeiro atende Anna. Depois a leva para casa. Depois entra no mundo dela com uma mentira boba. Depois a apresenta aos amigos. Depois encara fotógrafos diante da porta. É repetição, mas não exatamente a mesma situação.

O que fica é uma questão de acesso. Quem pode entrar. Quem precisa sair. Quem será visto. Quem consegue preservar uma conversa sem que ela vire assunto público. “Um Lugar Chamado Notting Hill” atravessa 27 anos porque organiza o romance em espaços reconhecíveis e obstáculos imediatos. Para William e Anna, até uma casa comum deixa de ser comum quando alguém aponta câmeras para a porta.



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