A luta pela sobrevivência impele-nos a assumir uma postura mais agressiva diante dos outros e esse personagem não demora a ser incorporado a nossa natureza, com a providencial ajuda das várias dificuldades que se agigantam nos cenários extremos em que a vida, caprichosa, transforma-se num palco tétrico onde se chega para matar ou para morrer. Indivíduos são esbulhados de seu arbítrio e de sua sensibilidade e se convertem num prolongamento da consciência coletiva, não pensam mais pela própria cabeça e veem-se obrigados a se submeter aos expedientes mais vergonhosos, não por covardia, mas por não terem respaldo nenhum. Só se pode entender “Terra de Ninguém” à luz das grandes narrativas distópicas que foram deixando claras a força e a relevância das ideias que defendiam ao longo do século 20, inspiração cada vez mais óbvia para filmes e outras manifestações artísticas que também ousam emular essa urgência de se tratar de assuntos que passam desapercebidos para gente demasiado entretida com suas miudezas. Robert Edwards presta um tributo sutil aos alertas confessadamente hiperbólicos do George Orwell (1903-1950) de “1984” (1949), lembrança constante e a cada dia mais próxima quanto aos expedientes de que os poderosos de turno se valem para ludibriar cidadãos inermes, que tentam manter-se a salvo da fúria das instituições, mas terminam aceitando a restrição de suas pequenas liberdades, sem que entendam por quê.
À espera do messias
Consegue-se tolerar a atmosfera de ruína que de nós mesmos exala até o ponto em que esse oceano de trevas se atém a ferver apenas dentro de nossas profundezas. Uma vez que suas águas principiam a arrebentar na praia da vida em sociedade, frequentada por toda sorte de indivíduos, aqueles que nos querem bem, dispensam-nos seus conselhos com a melhor das expectativas, desejando que recobremos a alegria capaz de revolver o lodo e dele só tirar pérolas, e os que apostam que não tarda o nosso último suspiro, prenunciado pelo estertor de nossas queixas. A aspiração de muitos no país inventado por Edwards é um bife, grande e suculento, realidade apocalíptica capturada com admirável esperteza por Thorne, um dramaturgo que passa a líder guerrilheiro e comanda o Cidadãos pela Justiça e Democracia, uma agremiação que tenta destituir Maximiliano 2º, também conhecido como Júnior, o autoproclamado presidente vitalício. Acrescentando uma dose de estratégia à bravura, ele invade o palácio e mata o déspota e sua consorte, e então aquela terra, um amálgama da Alemanha de Hitler, uma monarquia islâmica e um feudo qualquer perdido na América Central, passa a ter dono.
Tragédia e farsa
O que deveria recender a glória passa a tresandar um cheiro nauseabundo. Magnanimamente, apenas pelo bem da nação, Thorne encarna o salvador buscado pelo povo, uma excrescência que só Joe, o zé-ninguém, vê. No velho regime, Joe era o carcereiro de Thorne, virara seu cúmplice no assassinato do tirano, e é obrigado a reconhecer que criou um monstro. Edwards mira a perversão política que tomou corpo no Irã ou em Cuba, onde autocratas foram depostos para que outros liberticidas tomassem o poder, naquela ciranda mórbida e patética descrita por Marx. Donald Sutherland (1935-2024) e Ralph Fiennes dão a Thorne e Joe a justa medida de cinismo e desalento, e esta talvez seja a quadra da História em que a humanidade mais se assemelhe à horda de lunáticos que não têm na vida sonho qualquer além de, como os romanos no poema do alexandrino Konstantinos Kaváfis (1863-1933), escrito em 1904, esperar pelo fim. “Terra de Ninguém” é um filme necessário como nunca.
