Encarcerado nos castelos de neurose que não para de erigir, o homem jamais renuncia a suas obsessões, em muitas circunstâncias o seu único tesouro e o alento singular que lhe resta ao cabo de toda uma vida de desengano, sonhos gorados e temores renitentes, que refugiam-se-lhe nos meandros mais intrincados da alma, raramente se dão por vencidos e retornam todas as vezes em que farejam uma qualquer inconstância da alma. Todos querem ter a vida o mais normal possível, e uma vez que chega-se a esse viridário, em que as ilusões restam devidamente sepultadas, sobrepõem-se dificuldades as mais insólitas, e as dúvidas que vão surgindo fazem um estrago. Em “A Caixa Azul”, o argentino Martín Hodara propõe uma discussão madura a respeito da solidão que nasce de uma experiência perturbadora e é agravada pela tecnologia. Não estamos a salvo de nenhuma delas.
Caixinha de surpresas
Todos somos obrigados a cruzar o isolamento de mil desertos com o cansaço de nossos pés, enfrentando demônios que nutrimos com zelo. Isso é o que tenta fazer Pablo, herdeiro de uma fortuna, mas angustiado, triste, cercado por um turbilhão de paranoia e medos, a vítima perfeita da fonte de ódios inaplacáveis que se escondem nas brumas gélidas e cinzentas dos algoritmos. Na primeira cena, Hodara e o corroteirista Cesar Sodero transmitem ao espectador uma ideia do que pensam sobre o ciberespaço e da natureza das relações que se constroem nele, um reino de aparências falsas, perigo que ameaça a todos. Lara está em casa nesse universo e demonstra um talento especial para chegar a homens ricos e vulneráveis, como o predador capaz de farejar sua presa a vários quilômetros de distância. Naturalmente, a narrativa move-se em torno da intersecção entre essas duas figuras opostas, unidas pela tal caixa azul do título, em cenas mais insinuantes do que conclusivas e que desafiam a imaginação de quem assiste, com Luisana Lopilato e Gustavo Bassani levando diálogos tão contundentes quanto plenos de sofisticação, como sói acontecer no cinema argentino.
