Quem nunca ouviu alguém reclamar de terapia? “Não resolve nada” ou até mesmo “só piorei”. É comum esquecerem que terapia não é consolo: ela leva a uma jornada interna que nem todos estão dispostos a acessar. Para quem se permite entrar nesse processo, porém, um livro pode ser aliviante. Faz sentir menos só no meio do turbilhão, no cenário de guerra interna em que um paciente, por vezes, entra quando se coloca em análise.
Na semana em que se comemora o Dia do Psicólogo, em 27 de agosto, a escritora pernambucana Laís Araruna de Aquino, finalista do Prêmio Jabuti 2025 com “Nós que nos amávamos tanto”, lança seu novo livro, “As sessões”, no próximo domingo (30). O lançamento será às 11h, na Livraria do Jardim, no bairro da Boa Vista, no Recife, e contará com uma conversa da autora com os escritores Bernardo Brayner e Thiago Abercio.
A obra é um romance epistolar construído como uma longa carta entre os personagens: L. e Z., sendo esta sua ex-terapeuta. O livro parte de uma situação mínima: L. decide não voltar ao consultório e escreve para manter Z. distante de seus pensamentos – e a si mesma longe do consultório da terapeuta.
A partir daí, o que parecia uma tentativa de encerramento se transforma em uma investigação vertiginosa da própria personagem. “É, a cabeça da personagem muitas vezes funciona como um tribunal”, explica Laís.
Estar em uma sessão de análise também é se perder. E, nesse sentido, a experiência da personagem se aproxima do próprio ato de escrever: sentar, começar e simplesmente se deixar levar pela linguagem. É como quando a analista dá nome às dores nas costas e à voz rouca da personagem, transformando aquilo que parecia disperso em matéria de pensamento.
O ato de escrever
A personagem se embrenha na escrita da carta de forma visceral, com idas e vindas, quase como quem prolonga aquilo que deveria interromper. A escrita escolta o leitor por um lugar de (des)razão, estranhamento, incômodo e objeção.
“Escrever é uma forma de não voltar. Mas também de não partir”, sintetiza Laís.
A narrativa conduz como da mesma forma que um toboágua: faz o leitor deslizar e querer saber mais sobre a analisada que, neste caso, também se autoanalisa – e reclama da terapeuta. Sem necessariamente prometer respostas, o texto abduz o leitor e o faz acompanhar até onde, afinal, vai chegar o pensamento dessa mulher.
Primeiras linhas
Laís, dona de pilhas e pilhas de cadernos engavetados, escreve pelo simples fato de precisar escrever. Por vezes, no cotidiano e no corre-corre do dia a dia engole aquilo que poderia se transformar em uma escrita mais demorada ou em um grande tema.
“Você começa a se voltar para o próprio processo da escrita. As engrenagens vão para a frente do texto”, reflete Laís.
O romance começou a ser escrito em um desses cadernos, com caneta e papel. Em aproximadamente 36 dias surgiu a primeira versão, embora o texto tenha passado posteriormente por inúmeras revisões.
Sem uma trama planejada, a escrita foi adquirindo autonomia até que a situação inicial, L., Z. e os personagens que surgiam ao redor delas se mostrassem capazes de sustentar uma trama.
Deitar no divã
A princípio, o livro pode parecer um manifesto contra a terapia. Afinal, a tentativa de L. é justamente não voltar ao consultório. Por outra via, Laís deixa claro que a terapia é “essencial”.
“Eu já teria pirado se eu não tivesse entrado na terapia”, conta, rindo.
Para ela, apesar do desafio de se colocar diante dos próprios traumas, a terapia também pode ser uma experiência profundamente bonita. Na terapia, porém, existe a possibilidade de organizar o que antes parecia disperso. “Você pode botar as coisas numa certa ordem”, diz a autora.
Nunca só
O livro é cheio de referências e navega entre nomes como Franz Kafka, Natalia Ginzburg e André Gorz. A própria Laís parece carregar esse repertório na conversa: a cada pergunta, novas referências aparecem, e a entrevista acaba se transformando quase em uma aula. A quantidade de referências na verdade levantou um questionamento diretamente para ela. “As sessões” é um livro autobiográfico?
“Pois é, eu não vou negar isso. Tem um jogo aí. Eu não disse que o personagem é Laís, mas é, né? A gente escreve com todo mundo que a gente leu”, responde.
Para ela a ficção não precisa reproduzir a vida de quem escreve, mas inevitavelmente parte dela. “A ficção mistura, desloca, transforma e reorganiza a experiência até que ela adquira autonomia em relação àquilo que lhe deu origem.” Em “As sessões”, o que importa, portanto, não é tanto o que aconteceu, mas o que a escrita e o pensamento fazem com aquilo que foi vivido.
O livro poderá ser comprado diretamente pelo site da editora Papéis Selvagens. A previsão é de que, em breve, também esteja disponível na Amazon pelo valor de R$ 65.
Sobre a autora
Laís Araruna de Aquino começou sua trajetória literária pela poesia. Seus dois primeiros livros são “Juventude” e “Nós só compreendemos muito depois”. O primeiro recebeu o Prêmio Maraã de Poesia de 2017, enquanto o sgeuinte foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2022.
O terceiro livro, “Nós que nos amávamos tanto”, é uma obra de contos, embora também possa ser lido como um romance, pela presença da mesma personagem nas diferentes histórias e pela unidade que as atravessa. A obra foi finalista do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Conto.
SERVIÇO
Lançamento de “As sessões”, de Laís Araruna de Aquino
Quando: domingo (30), às 11h
Onde: Livraria do Jardim — Avenida Manoel Borba, 292, Boa Vista, Recife
Informações: @livrariadojardim
