O primeiro romance de João Câmara, “Rondó da Lagoa dos Irerês” (Editora Topbooks), é oriundo de memórias pessoais do artista plástico e escritor de 82 anos. Nessa obra, o autor amplia essas lembranças em uma narrativa que discute tempo, sociedade e arte.
Pintor, desenhista, gravurista, professor, crítico e escritor, João Câmara é uma referência na arte brasileira contemporânea. Na literatura, o artista paraibano radicado em Olinda, estreou com a trilogia de contos – “Lidando com o passado e outros lugares” (2022), “A caminho de Querétaro” (2024) e “Retábulos, predela” (2025).
O lançamento de “Rondó da Lagoa dos Irerês” aconteceu na capital pernambucana, na última quarta-feira (2), no Shopping Recife, com a presença de João Câmara e do romancista Sidney Rocha – quem assina a apresentação da obra. Este, acerca do novo trabalho, diz que o escritor “recusa clímax e soluções morais”. Ao longo das 512 páginas, o autor se debruça em reflexões sobre memória, envelhecimento, arte, identidade e desaparecimento.
São em obras como “Rondó da Lagoa dos Irerês” que o leitor se depara com uma das diferentes formas de refletir a velhice. Pessoas sexagenárias, septuagenárias, octogenárias – como é o caso de Câmara, estão sendo colocadas no cerne de narrativas para reflexões importantes sobre o envelhecimento na sociedade.
No cinema, por exemplo, o filme pernambucano, “O Último Azul”, dirigido por Gabriel Mascaro e estrelado por Denise Weinberg, aborda o envelhecimento em um futuro distópico no Brasil. A obra propõe uma ótica de recomeço em contraponto às performances de uma pessoa debilitada, fragilizada e em fim de vida.
Em “Rondó da Lagoa dos Irerês”, João Câmara cria uma cidade fictícia, chamada de Neves, habitada por pessoas contraditórias, carregadas por questões íntimas e brasileiras, em um espaço humano.
O lugar é localizado à margem de uma lagoa de águas opacas, isolado e fora do centro das atenções, refletindo nas personagens do livro. Padres fatigados, ex-professoras, atores esquecidos, negociantes e intelectuais acumulando com expectativa de que as coisas não desaparecem.
O primeiro romance de Câmara provoca perguntas sem necessariamente apresentar uma resposta simples. Inclusive, Sidney Rocha descreve a leitura como uma “sensação de ter atravessado um campo de forças”.
“Rondó da Lagoa dos Irerês” tem um subtítulo, “5h24 – 11h25”, uma referência à divisão do texto, sendo cada minuto uma espécie de abertura de capítulo. Câmara foge de horários exatos a fim de evitar uma cronologia enganosa ao leitor, mas atravessa a narrativa por meio de uma passagem do tempo.
Além de toda a densidade textual, o artista plástico e Franz Arbenz Irigoyen criaram mais de 40 ilustrações e vinhetas digitais para o livro. As artes plásticas permeiam a vida de João Câmara desde o curso livre da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que ele fez aos 16 anos. Com uma vida dedicada à arte, desde a década de 1960, João tem feito exposições coletivas e individuais no Brasil e mundo afora, tendo obras em museus brasileiros e estrangeiros e em coleções públicas e particulares.
Nesse novo livro, João Câmara evita uma narrativa utópica. O desejo do autor reside numa reflexão mais profunda. Uma das possibilidades é que mesmo consciente e com vasto repertório cultural, o saber não blinda o avanço do tempo, muito menos as ausências deixadas por ele.
SERVIÇO
“Rondó da Lagoa dos Irerês”
De João Câmara
Preço do livro: R$ 119,90
Informações: (81) 3464-6464
