Há uma ideia boa, quase irresistível, no centro de “Te Peguei!”: tratar uma brincadeira infantil como se fosse uma operação de guerra. Adultos atravessam escritórios, casamentos, corredores e relações pessoais para preservar uma tradição que, vista de fora, parece ridícula. Vista por eles, é assunto sério. O filme de Jeff Tomsic percebe rápido a força dessa contradição. O pega-pega não aparece como lembrança nostálgica nem como detalhe engraçadinho de infância. É código de conduta, ritual de grupo, vício competitivo e, sobretudo, uma forma torta de amizade. O problema é que a mesma premissa que rende as melhores cenas também limita o alcance da comédia. Depois de certo ponto, “Te Peguei!” corre bastante, mas sai pouco do lugar.
A trama acompanha um grupo de amigos que, desde a escola, mantém uma partida anual de pega-pega. Durante um mês, qualquer um pode ser alvo. Trabalho, casamento, viagens e compromissos adultos viram obstáculos no caminho da brincadeira. Ninguém quer terminar o jogo como “o pego”. No ano retratado pelo filme, a disputa ganha um alvo especial: Jerry, vivido por Jeremy Renner, está prestes a se casar e nunca foi derrotado. Para os amigos, a cerimônia parece a chance perfeita de quebrar sua invencibilidade. Para ele, é apenas mais um tabuleiro onde pode provar que continua fora de alcance.
O filme funciona melhor quando aceita o ridículo dessa lógica sem tentar suavizá-lo. A graça não está apenas em ver homens adultos brincando de pega-pega, mas na solenidade com que eles encaram o jogo. O roteiro encontra seu motor nesse descompasso: sujeitos com empregos, casamentos, contas e reputações passam a se comportar como estrategistas por causa de uma brincadeira de escola. A piada é simples, mas ganha corpo quando vira movimento. “Te Peguei!” entende que sua comédia depende menos de grandes tiradas e mais do tempo certo da queda, da fuga, da emboscada e da reação.
A graça da perseguição
As melhores sequências são aquelas em que o pega-pega deixa de ser apenas uma situação engraçada e passa a funcionar como cena de ação em miniatura. A câmera acompanha desvios, saltos, fugas e pancadas com uma energia que aproxima o filme de uma paródia de thriller. A câmera lenta usada para mostrar a percepção quase sobre-humana de Jerry é um dos recursos mais eficientes. Ele calcula objetos, distâncias e movimentos como se estivesse em combate. O exagero faz sentido. Para aquele grupo, o jogo nunca foi pequeno; para o filme, também não poderia parecer.
Jeremy Renner se encaixa bem nessa função de obstáculo quase lendário. Jerry não é exatamente o personagem mais complexo, mas é o mais bem aproveitado como construção cômica. Sua invencibilidade dá forma ao delírio coletivo dos outros. Ao redor dele, Ed Helms ocupa o eixo mais sentimental, como o amigo que parece acreditar com mais fervor na importância daquele ritual. Jake Johnson, Jon Hamm e Hannibal Buress completam o grupo com variações de humor que alternam ansiedade, cinismo e secura. O elenco ajuda a manter o filme em movimento mesmo quando a piada não cresce. Há presença, ritmo e alguma química de grupo, ainda que nem todos recebam material à altura.
O ponto mais interessante de “Te Peguei!” talvez esteja na maneira como a infância continua assombrando a vida adulta. Não como trauma, mas como hábito. A brincadeira anual é o elo entre homens que talvez não soubessem sustentar a amizade por outros meios. Eles não falam muito sobre afeto, medo, distância ou envelhecimento. Correm. Atacam. Planejam. Derrubam uns aos outros. A imaturidade, nesse contexto, vira linguagem emocional. É uma forma de dizer “ainda estamos aqui” sem precisar formular a frase. O filme percebe isso, mas não aprofunda tanto quanto poderia. Prefere voltar logo à próxima perseguição, e nem sempre está errado. Essa escolha, porém, cobra seu preço.
Quando o jogo cansa
A partir da metade, “Te Peguei!” começa a sentir o peso da própria engrenagem. Cada tentativa de capturar Jerry precisa ser mais inesperada, mais exagerada ou mais física que a anterior. Algumas funcionam bem. Outras apenas repetem a mesma lógica com outro cenário. A premissa, tão forte para resumir o filme em uma frase, não sustenta sozinha uma progressão dramática mais rica. Falta uma mudança de chave que tire a disputa da pergunta central, Jerry será finalmente pego?, e coloque o grupo diante de algo menos previsível.
Esse limite aparece também no tratamento das personagens femininas. Isla Fisher injeta energia em uma figura que participa do caos com intensidade própria, mas o filme, de modo geral, organiza seu universo em torno da aventura masculina. As mulheres reagem, observam, toleram, interrompem ou ajudam a impulsionar o jogo dos homens. Há momentos engraçados nessa dinâmica, mas pouco desenvolvimento. Em uma comédia que tenta falar de amizade adulta, essa redução deixa o mundo narrativo mais estreito. O filme até reconhece o absurdo dos personagens, mas raramente desmonta de fato o privilégio que eles têm de transformar tudo ao redor em extensão da brincadeira.
Outro ponto instável é a tentativa de equilibrar humor físico, grosseria e sentimento. A ação cômica é a zona mais confortável de “Te Peguei!”. Quando o filme aposta no corpo em movimento, encontra seu melhor ritmo. Já o sentimentalismo entra com menos naturalidade. A vontade de dar peso emocional à tradição do grupo é compreensível, mas o resultado às vezes parece calculado demais. Não soa falso, exatamente, mas também não alcança a espontaneidade das perseguições. O próprio absurdo da brincadeira já dizia bastante sobre aqueles homens. Ao tentar explicar demais o apego deles ao jogo, o filme perde parte da graça seca que tinha nas melhores cenas.
Ainda assim, “Te Peguei!” está longe de ser uma comédia sem vida. Há prazer em ver uma bobagem tratada com tanta dedicação visual. O filme sabe que a graça está no contraste entre a banalidade do pega-pega e a escala épica que os personagens atribuem a ele. Tomsic conduz as sequências com bom senso de velocidade, e o elenco compreende o tom sem tentar sofisticar artificialmente o material. A comédia é mais simpática quando assume sua vocação para o exagero físico e menos convincente quando quer transformar a brincadeira em grande declaração sobre amizade, maturidade e passagem do tempo.
O saldo é irregular, mas não descartável. “Te Peguei!” diverte em momentos específicos, tem uma premissa fácil de comprar e oferece cenas de comédia corporal melhor resolvidas do que a média. Também se repete, simplifica algumas relações e deixa a sensação de que a história real por trás da ideia talvez fosse mais curiosa do que a ficção construída a partir dela. É um filme ágil, barulhento e ocasionalmente esperto, mas preso ao próprio jogo. Quando corre, encontra graça. Quando para para se explicar, mostra que tinha menos fôlego do que prometia.
