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Festival Lula Côrtes reverencia 50 anos de “Flaviola e O Bando do Sol” nesta sexta (29)

Festival Lula Côrtes reverencia 50 anos de “Flaviola e O Bando do Sol” nesta sexta (29)

O Recife volta a abrir passagem para seus fantasmas elétricos e suas visões lisérgicas nesta sexta (29). No bairro de Santo Antônio, o Brilho Cultural recebe mais uma edição do Festival Lula Côrtes, celebração que transforma memória musical em acontecimento vivo.


A programação deste ano mergulha nos 50 anos de “Flaviola e O Bando do Sol”, disco lançado em 1976 e hoje reconhecido como uma das experiências mais singulares da psicodelia brasileira.


Entre guitarras, violas de dez cordas, poesia beat e sotaques do Nordeste profundo, o festival reúne nomes da cena independente para atualizar o espírito do chamado udigrudi pernambucano, movimento contracultural que, nos anos 1970, decidiu criar música experimental longe das engrenagens do eixo Rio–São Paulo.


A noite terá apresentação da banda pernambucana Anjo Gabriel interpretando integralmente o repertório do álbum “Flaviola e O Bando do Sol”, com as participações de Fernando Catatau, Lua Paiva, Juvenil Silva, Marcelo Cavalcante e DMingus. Quem abre a noite é DJ Vibra, enquanto o encerramento fica por conta de Totonho e Os Cabra.


O encontro propõe uma reconexão entre artistas nordestinos – algo que esteve no centro da criação psicodélica recifense nos anos 1970. Pernambuco, Paraíba e Ceará voltam a dividir o mesmo palco como uma espécie de ponte temporal entre gerações.




Entre ruínas, improvisos e delírios acústicos

Se hoje “Flaviola e O Bando do Sol” é tratado como relíquia da psicodelia brasileira, em 1976 ele parecia mais um segredo espalhado entre poucos iniciados do Recife.


O álbum surgiu quase à margem da indústria musical, criado num cenário em que improviso, amizade e experimentação valiam mais do que orçamento ou planejamento técnico.


Idealizado por Flaviola – nome artístico do recifense Flávio Tadeu Rangel Lira (1952-2021) –, o disco nasceu dentro da mesma comunidade artística que orbitava Lula Côrtes, compartilhando músicos, instrumentos e visões criativas com o lendário “Paêbirú”. Participaram das gravações do álbum, nomes como Paulo Rafael, Robertinho de Recife, Zé da Flauta, Agrício Noya, entre outros.


Não à toa, muitos pesquisadores enxergam o álbum como uma espécie de “irmão-acústico” daquela obra monumental lançada um ano antes.


As sessões de gravação funcionavam quase como encontros comunitários. Não existia a lógica rígida de estúdio tradicional. Os músicos chegavam carregando tricórdio, dulcimers, autoharpas, violas de dez e doze cordas, banjos, flautas, bongôs, maracas e instrumentos pouco usuais no rock brasileiro da época.


O Recife daqueles anos também atravessava um período turbulento. A enchente de 1975 devastou a estrutura da Rozenblit, histórica gravadora pernambucana onde o disco foi produzido.


Equipamentos ficaram comprometidos, matrizes foram destruídas e a fábrica passou a operar em condições precárias. O álbum de Flaviola acabou sendo moldado justamente nesse ambiente pós-catástrofe.


Essa precariedade deixou marcas sonoras profundas. O disco possui uma textura abafada, cheia de chiados, ambiências naturais e pequenas imperfeições que hoje soam quase hipnóticas.


Há relatos de efeitos criados artesanalmente diante dos microfones – incluindo, por exemplo, sons produzidos com celofane amassado — numa época em que a falta de tecnologia obrigava os músicos a inventarem soluções na raça e na imaginação.


O resultado foi um trabalho que parece gravado entre o transe e a urgência. Pouco polido, quase ritualístico, o álbum mistura folk psicodélico, referências nordestinas, poesia surrealista e espiritualidade cósmica sem soar parecido com qualquer outro disco brasileiro da época.


Violões contemplativos substituem o peso elétrico típico do rock setentista, enquanto flautas e percussões populares atravessam as faixas como se o Sertão encontrasse uma comuna hippie inglesa.


As letras também escapavam do convencional. Flaviola incorporava imagens lisérgicas, regionalismo poético e ecos literários improváveis, dialogando até com autores como Federico García Lorca (“Canção de Outono”) e Vladimir Maiakovski (“Balalaika”).


Na época do lançamento, quase ninguém percebeu a dimensão daquela experiência sonora. A prensagem foi pequena, a circulação limitada e o acabamento simples do LP o afastou do mercado comercial. Durante anos, o disco virou peça quase mitológica entre colecionadores.


A redescoberta internacional veio apenas décadas depois, quando pesquisadores estrangeiros começaram a investigar a psicodelia nordestina dos anos 1970.


Reedições lançadas fora do Brasil transformaram “Flaviola & O Bando do Sol” em item cult no circuito mundial de vinil raro, objeto de devoção entre colecionadores e pesquisadores de música psicodélica.


Curiosamente, aquele trabalho lançado em meio à precariedade acabaria sobrevivendo justamente por causa de suas imperfeições. Hoje, o álbum passou a ocupar listas de obras fundamentais da música psicodélica latino-americana. O que antes parecia defeito virou identidade estética.



O retorno tardio de Flaviola

Curiosamente, “Flaviola & O Bando do Sol” foi o único álbum lançado por Flaviola nos anos 1970. Depois disso, o artista passou décadas sem registrar um novo disco de inéditas. O silêncio fonográfico durou mais de 40 anos.


Somente em 2020 ele retornou com “Ex-Tudo”, trabalho que marcou sua reaproximação com o mercado musical e apresentou o artista a novas gerações. O álbum contou com produção de DMingus (um dos convidados da noite a se apresentar com a banda Anjo Gabriel).


Cinco anos antes, em 2015, Flaviola havia reapresentado integralmente o disco histórico no festival Abril Pro Rock, transformando o show numa espécie de reencontro simbólico entre passado e presente da psicodelia pernambucana.


Flaviola morreu em 2021, vítima da covid-19, mas, o disco permaneceu vivo. “Flaviola & O Bando do Sol” ainda parece estranho, misterioso e inacabado, como toda grande obra que se recusa a envelhecer.


Recife psicodélico, ontem e agora

O Festival Lula Côrtes – que hoje promove essa reapresentação de “Flaviola e O Bando do Sol” para públicos mais jovens – também funciona como ocupação simbólica do centro do Recife. Há uma espécie de retorno histórico nisso: foi justamente na região central que discos fundamentais da psicodelia pernambucana ganharam vida nos anos 1970.


A própria trajetória de Lula Côrtes atravessa essa geografia afetiva da cidade. Poeta, músico, pintor e agitador cultural, ele se tornou um dos grandes articuladores da fusão entre ritmos nordestinos, experimentalismo e contracultura hippie. No dia 9 de maio deste ano, o artista completaria 75 anos.


Sob direção de Nemo Côrtes – filho de Lula – e articulação da Rede Lula Córtex, o festival tenta manter essa herança em movimento, olhando para o passado sem transformar memória em peça de museu. A proposta é fazer circular novas conexões criativas dentro da cena independente contemporânea.


Além dos shows, o evento também mantém parceria com a Cozinha Solidária Santa Luzia, ligada ao MTST, recebendo doações de alimentos do público.


SERVIÇO

Festival Lula Côrtes – homenagem aos 50 anos de “Flaviola e O Bando do Sol”

Quando: Sexta (29), a partir das 21h

Onde: Brilho Cultural – Rua Ulhôa Cintra, 122, Santo Antônio – Recife-PE

Ingressos: a partir de R$ 65, à venda no Shotgun

Instagram:@lulacortesoficial


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