O público recifense terá a oportunidade de vivenciar uma proposta pouco convencional nas artes cênicas entre os dias 19 e 21 de junho.
Em cartaz no Teatro Hermilo Borba Filho, no Recife Antigo, o Festival de Teatro Cego reúne três montagens concebidas para serem apresentadas em completa ausência de luz, convidando os espectadores a experimentar a narrativa por meio de estímulos sonoros, táteis e olfativos.
Idealizadas e dirigidas pelo dramaturgo Paulo Palado, as peças “Acorda, Amor!”, “O Grande Viúvo” e “Clarear” compõem a programação da iniciativa, que encerra sua circulação nacional na capital pernambucana.
Antes de chegar ao Recife, o projeto passou pelo Rio de Janeiro (RJ), Aracaju (SE) e Vitória (ES), realizando sessões gratuitas nas três cidades.
A proposta rompe com a lógica tradicional do teatro ao retirar a visão do centro da experiência. Em vez de cenários visíveis e recursos visuais, a construção dos ambientes acontece na imaginação da plateia, a partir de vozes, trilhas sonoras, aromas e diferentes sensações distribuídas pelo espaço.
Os elementos cênicos surgem gradualmente na percepção individual de cada espectador, que passa a ocupar uma posição imersiva dentro da narrativa.
O elenco reúne artistas cegos, com baixa visão e também atores videntes. Segundo Palado, o formato amplia as possibilidades expressivas da interpretação e cria oportunidades para profissionais com deficiência visual, além de estimular reflexões sobre inclusão e acessibilidade.
“Fazer uma peça no escuro nos permite trabalhar com códigos muito profundos, possibilita ao ator outras formas de se expressar, e abre um campo de trabalho para pessoas que não enxergam. Além disso, o teatro torna-se campo para acessibilidade, onde o público pode exercitar a empatia e se sentir no lugar de quem não enxerga”, afirma.
A experiência tem despertado reações marcantes por onde passou. Entre os espectadores está o ator Paulo Betti, que assistiu a uma das apresentações no Rio de Janeiro.
“É uma experiência inacreditável e absolutamente diferente. Eu nunca vi uma peça tão interessante quanto essa”, declarou após a sessão. Já em Aracaju, o espectador cego Cleiton Lima definiu a iniciativa como “uma sensação maravilhosa, totalmente diferente dos teatros tradicionais”.
Para garantir a realização das sessões com segurança, o ambiente permanece sob monitoramento constante por meio de câmeras infravermelhas.
O espaço também conta com sistema de iluminação de emergência acionado imediatamente em situações necessárias.
Antes do início de cada espetáculo, a equipe orienta os participantes sobre os procedimentos de segurança e o funcionamento da experiência.
Festival de Teatro Cego
Desenvolvido desde 2012 pela Companhia Teatro Cego, o formato já deu origem a diversos espetáculos, entre eles “Um Outro Olhar”, “O Reino de Lindsor”, “A Festa da Inclusão” e “Another Sight”.
Ao longo de mais de uma década, as produções circularam por diferentes cidades brasileiras e também por palcos internacionais.
O reconhecimento internacional ganhou força em 2025, quando a companhia integrou a programação do Fringe Festival, em Edimburgo, na Escócia.
Na ocasião, o grupo representou o Brasil e recebeu indicações nas categorias de Melhor Espetáculo de Neurodiversidade e Melhor Experiência em Espetáculo. A participação também repercutiu em importantes veículos da imprensa britânica.
Realizado pela R. Gamboa Arte & Cultura, o Festival de Teatro Cego conta com patrocínio da TAG, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Sinopses das peças:
“Acorda, Amor”(classificação etária: 14 anos) – O espetáculo une a música de Chico Buarque ao Teatro Cego, com trilha sonora executada ao vivo pela banda Social Samba Fino, também completamente no escuro. As músicas costuram a trama e ajudam a contar a história de quatro jovens que lutam contra o governo militar nos anos 70. Enquanto tentam driblar os militares, Paulo, Lucas e Cesar lutam pelo amor de Natasha.
“O Grande Viúvo”(classificação etária: 12 anos) – A peça é inspirada no conto homônimo, extraído do livro “A Vida Como Ela É”, de Nelson Rodrigues e conta a história de Jair, um viúvo que, após ter perdido sua amada esposa Dalila, informa à família que também quer morrer e ser enterrado junto à falecida. A situação só é resolvida quando uma mentira é inventada pela família, para dissuadir o viúvo da ideia da morte. Durante o espetáculo, um trio de musicistas executa uma trilha musical ao vivo.
“Clarear” (classificação etária: 10 anos) – O Espetáculo conta a história de uma diarista e sua patroa que passam, ao mesmo tempo, por um tratamento de câncer. As duas encontram-se em momentos diferentes da doença, com a diarista praticamente curada e a patroa iniciando a quimioterapia. A relação dessas duas mulheres mostra as diferentes posturas e dificuldades que pessoas de classes sociais distantes têm diante desse desafio, ao mesmo tempo em que a compreensão das condições de cada uma delas faz nascer uma amizade que se tornará a principal ferramenta de suas lutas. A trama fala sobre generosidade, empatia, amor, medo, superação, respeito e autoestima.
SERVIÇO
I Festival de Teatro Cego
Quando: Sexta (19) a domingo (21)
19/06 (sexta) – às 17h e às 19h (duas sessões de “Clarear”)
20/06 (sábado) – 17h e às 20h (duas sessões de “Acorda, Amor!”)
21/06 (domingo) – 16h e às 19h (duas sessões de “O Grande Viúvo”)
Onde: Teatro Hermilo Borba Filho – Cais do Apolo, 142, Bairro do Recife – Recife-PE
Entrada gratuita – com distribuição dos ingressos uma hora antes de cada sessão (sujeito a lotação)
Informações: (81) 3355-3321
