Em 13 de agosto de 2004, um homem chamado Bharat Kalicharan Yadav foi levado Sala 7 do Tribunal Distrital de Nagpur, no estado indiano de Maharashtra, para uma audincia de fiana. Ele havia sido preso menos de uma semana antes. Ningum que o conhecia esperava que essa priso tivesse mais consequncias do que as 14 anteriores. Ele era conhecido por todos em Kasturba Nagar simplesmente como Akku Yadav, e por 13 anos a comunidade da favela viveu sob seu terror. Ele entrou naquela manh com a mesma arrogncia de sempre. E no saiu. Alis, saiu carregado morto. |

Em 13 de agosto de 2004, um homem chamado Bharat Kalicharan Yadav foi levado Sala 7 do Tribunal Distrital de Nagpur, no estado indiano de Maharashtra, para uma audincia de fiana. Ele havia sido preso menos de uma semana antes. Ningum que o conhecia esperava que essa priso tivesse mais consequncias do que as 14 anteriores.
Ele era conhecido por todos em Kasturba Nagar simplesmente como Akku Yadav, e por 13 anos a comunidade da favela viveu sob seu terror. Ele entrou naquela manh com a mesma arrogncia de sempre. E no saiu. Alis, saiu, carregado morto.
Em 15 minutos, Akku Yadav foi esfaqueado mais de 70 vezes, teve pimenta em p jogada em seu rosto e enfiada fora em sua boca, e teve o pnis cortado com uma faca de serrinha. Seus assassinos eram, em sua maioria, mulheres, muitas delas foram suas vtimas. Quando a polcia retomou o controle do tribunal e perguntou quem era o responsvel, todas as mulheres presentes levantaram a mo.
Filho de um leiteiro, Akku Yadav nasceu em 1971 em Kasturba Nagar, uma favela densamente povoada no centro de Nagpur. Ele abandonou a escola aps a 7 srie. Segundo relatos de sua prpria comunidade, como escreveu posteriormente a autora Swati Mehta em seu livro Killing Justice: Vigilantism in Nagpur, ele passou de filho de leiteiro a uma ameaa local antes mesmo de ter idade para fazer a barba.
Seu primeiro estupro confirmado ocorreu em 1991, quando ele e sua gangue sequestraram uma mulher perto de um prdio abandonado que usavam como base.
Ela denunciou o crime delegacia de Jaripatka, mas os policiais de l j recebiam propina da quadrilha de extorso de Akku Yadav.
Inicialmente, ignoraram a denncia. Quando um boletim de ocorrncia foi finalmente registrado e Akku Yadav foi preso, o caso nunca chegou a ser julgado.
Aps pagar a fiana, ele invadiu a casa da mulher e a agrediu, assim como seu marido. Ela nunca mais o denunciou. Ao que tudo indica, esse foi o nico estupro pelo qual ele foi formalmente denunciado polcia.
Ao longo dos 13 anos seguintes, Akku Yadav estuprou mais de 40 mulheres e meninas, algumas com apenas 10 anos de idade. Ele assassinou pelo menos trs pessoas. Extorquia dinheiro e bens de diaristas, empregadas domsticas e pequenos comerciantes em toda a favela.
Chegava s casas s 4 da manh, alegava ser policial, invadia a residncia, esfaqueava os maridos, trancava-os nos banheiros e arrastava as mulheres.
Cortou as orelhas de uma mulher para roubar seus brincos e seus dedos quando os anis no saam. Ordenou que sua gangue estuprasse coletivamente uma menina de 12 anos como um aviso para sua famlia.
Akku Yadav manteve-se impune graas a uma combinao de corrupo, intimidao e poltica de castas. Ele subornava policiais com dinheiro e lcool. Avisava-os quando descobria que havia denncias contra ele.
Em um caso documentado, uma mulher que o denunciou foi posteriormente estuprada coletivamente por policiais na delegacia. Uma pesquisa realizada aps o linchamento revelou que 73% dos moradores de Kasturba Nagar afirmaram ter parado de registrar queixas por saberem que nada aconteceria e por temerem represlias.
Mais tarde, um tribunal descobriu que a polcia local de Jaripatka estava, na prtica, em conluio com Akku Yadav. Ele tambm tinha proteo poltica: polticos locais estavam entre aqueles que se beneficiavam de sua rede de contatos e o ajudavam a se proteger de processos judiciais contnuos.
A maioria dos moradores de Kasturba Nagar era dalit, pertencente aos estratos mais baixos do idiota sistema de castas da ndia. Suas queixas tinham pouco peso para os policiais, que viam a favela como um problema alheio.
Ele foi preso 14 vezes no total. Em todas as ocasies, foi libertado sob fiana. Ele retornava a Kasturba Nagar e continuava de onde havia parado. s vezes, ele atacava especificamente quem o havia denunciado. Aps uma priso, foi libertado por bom comportamento. Aps outra, foi solto porque as testemunhas estavam com muito medo de depor.
O assassinato mais significativo de Akku Yadav, em termos do que desencadeou, foi o de Asha Bhagat em 1999. Asha administrava um pequeno negcio de bebidas alcolicas na favela e era uma das poucas pessoas em Kasturba Nagar que no tinha medo dele.
Quando Akku Yadav comeou a extorquir dinheiro de seus clientes e a agredir mulheres de seu crculo social, ela organizou um grupo de homens para atac-lo. Eles o embebedaram e o espancaram. Vaso ruim no quebra. Ele sobreviveu.
Akku Yadav esperou e ento foi at a casa de Asha. Ele cortou sua garganta, suas orelhas e seios, e roubou suas joias. Fez tudo isso na frente de sua filha adolescente, Megha, que ficou to traumatizada que no conseguiu testemunhar contra ele no tribunal.
O caso foi arquivado. Akku Yadav foi libertado. A irm de Asha, Resha Raut, mais tarde se tornou uma das figuras-chave nos eventos de agosto de 2004.
No incio de agosto de 2004, uma mulher chamada Usha Narayane finalmente se manifestou abertamente contra Akku Yadav. Depois que ele e seu bando a ameaaram, a comunidade se organizou e incendiou sua casa.
Akku Yadav procurou a polcia alegando precisar de proteo. Os policiais, talvez calculando que ele estava causando mais problemas do que benefcios, o prenderam. Sua audincia de fiana foi marcada para 13 de agosto.
A notcia de que ele seria libertado novamente se espalhou por Kasturba Nagar. As mulheres no organizaram um protesto formal. Simplesmente comearam a caminhar em direo ao tribunal, individualmente, em duplas e depois em grupos, carregando as ferramentas que tinham mo: facas de cozinha, pedras, pimenta em p. Entre 200 e 400 pessoas se reuniram em frente Sala 7 do Tribunal.
Quando Akku Yadav foi levado para dentro, ele estava escoltado por apenas dois ou trs policiais desarmados. Ele avistou uma mulher na multido que havia estuprado anteriormente e a chamou de prostituta. Ela tirou a sandlia e o agrediu, gritando:
i> – “No podemos viver juntos nesta terra. Ou voc, ou eu.”
A sala virou um salseiro e mulheres avanaram, dominando os policiais. Elas jogaram pimenta em p no rosto de Akku Yadav e nos policiais que tentaram intervir.
Em poucos minutos, ele estava no cho. Ele implorou por sua vida, supostamente chorando:
– “Me perdoem! Eu no farei isso de novo!”
No adiantou nada. Ele foi esfaqueado mais de 70 vezes. Seu corpo foi deixado em uma poa de sangue no cho do tribunal.
Quando a polcia retomou o controle, todas as mulheres na sala levantaram a mo.
– “Prendam todas ns!”, gritaram em unssono. A estratgia foi deliberada e eficaz: a responsabilidade coletiva tornou impossvel apontar indivduos como culpados.
Cinco mulheres, incluindo Usha Narayane e Anjanabai Borkar, me de Asha Bhagat, foram finalmente presas sob acusao de assassinato. Em poucos dias, 400 moradores invadiram o tribunal exigindo sua libertao. Mais de 100 advogados se ofereceram para defender as acusadas gratuitamente. A fiana foi concedida em meio presso pblica.
As mulheres no demonstraram arrependimento. Elas descreveram o que fizeram explicitamente como justia social e uma forma de luta pela liberdade. O lder sindical V. Chandra declarou publicamente que o assassinato era justificado.
O caso tornou-se um ponto crucial na ndia para debates sobre justia com as prprias mos, violncia de gnero, castas e os limites de um sistema judicirio que havia falhado miseravelmente com uma comunidade por mais de uma dcada.
O julgamento por homicdio comeou formalmente em agosto de 2012, oito anos aps o crime. Vinte e uma pessoas foram acusadas, incluindo 14 homens e 7 mulheres. Trs morreram durante o processo.
A investigao foi catica: provas forenses cruciais nunca foram devidamente analisadas, os policiais que elaboraram os relatrios originais se contradisseram durante o interrogatrio, e o tribunal reconheceu que a polcia local no apenas falhou em proteger as vtimas, como em alguns casos auxiliou ativamente Akku Yadav.
Em novembro de 2014, o Tribunal Distrital e de Sesses de Nagpur absolveu todos os 18 rus sobreviventes, sob o argumento de que no havia provas conclusivas para comprovar a culpa individual. O veredicto foi proferido na mesma sala de tribunal onde Akku Yadav havia sido assassinado uma dcada antes.
Ningum jamais foi punido. A srie documental da Netflix, “Predador Indiano: Assassinato em um Tribunal“), lanada em 2022, levou a histria a um pblico global.
Resha Raut, irm de Asha Bhagat, aparece na srie. Assim como Vilas Bhande, outro acusado que havia sido diretamente ameaado por Akku Yadav nas semanas anteriores sua morte.
A srie retrata o assassinato no como uma descida ilegalidade, mas como o que acontece quando uma comunidade no tem outra opo. difcil discordar dessa concluso.
Mais recentemente, em 2021, um filme de suspense policial intitulado “200 Halla Ho“, com o ator Amol Palekar, foi baseado em Akku Yadav. Nele retratam que um sobrinho de Akku, chamado Mukri Chhotelal Yadav, jurou vingana pelo seu linchamento.
Na noite de 4 de dezembro de 2013, Mukri foi esfaqueado at a morte aos 30 anos por dois adolescentes de 15 e 17 anos. Mukri teria feito investidas sexuais contra a av de um dos adolescentes e a ameaado com uma faca.
A av, que tinha cerca de 50 anos, foi assediada e ameaada pelo jovem. Ela contou aos adolescentes sobre o ocorrido, e estes o advertiram, mas ele continuou a vitimizar a av. Mukri, assim como Akku, tambm tinha antecedentes criminais.
A imprensa local de forma recorrente diz que o “mal foi cortado pela raiz”. Ningum foi preso.
A violncia contra a mulher na ndia um problema galopante. A esposa indiana a empregada domstica perfeita, envolta em homenagem famlia. Se ela deixar de cumprir seus deveres conjugais, certamente ser corrigida por meio de abuso fsico ou verbal.
A sociedade indiana considera o dever legtimo da esposa produzir um herdeiro homem. Essas mulheres no apenas no tm o direito de planejar sua prpria gravidez, mas tambm perdem o controle sobre sua interrupo, se for uma menina.
Os ndices de violncia domstica so alarmantes no pas, porque as mulheres so tratadas como marcadores da honra familiar e governadas pelas normas do biradiri.
O espao domstico permanece oculto aos olhos curiosos da lei. A violncia domstica muitas vezes passa despercebida, no relatada ou est aberta reconciliao mtua.
Na maioria das vezes, as mulheres optam por no denunciar a violncia por medo de retaliao contra os filhos. Ou ento, no relatam simplesmente para proteger o marido, o ganha-po da famlia, a fim de salvaguardar a famlia contra qualquer perda de renda.
E, pior, sempre que as mulheres resolvem prestar queixa, so acusadas de levianas, de fazer reclamaes falsas ou de serem loucas. Como norma social, a violncia aceitvel como mecanismo corretivo contra mulheres que erram.
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