China testa conceito de aeronave de fuselagem integrada com 85 metros de envergadura, Mach 0,8 e modelo em escala avaliado em túnel de vento transônico
A China realizou recentemente, ensaios em túnel de vento de um protótipo de avIão comercial para transportar mais de 800 passageiros. O projeto é inspirado no conceito de asa-voadora e tem 85 metros de envergadura, 43 metros de comprimento e capacidade para voos de longa distância.
Desenvolvido pelo Centro de Investigação e Desenvolvimento Aerodinâmico da China (Cardc), o projeto prevê uma configuração capaz de atingir velocidade de cruzeiro de Mach 0,80 (aproximadamente 987 km/h) segundo informações divulgadas na última segunda-feira (17), pelo jornal South China Morning Post e citadas pela agência espanhola EFE.
O conceito chinês está inserido em uma linha de desenvolvimento também explorada pela americana JetZero, que trabalha no modelo Z4, projetado para transportar aproximadamente 250 passageiros. A proposta estudada pelo Cardc, entretanto, apresenta dimensões significativamente superiores.
Todavia, ao ter 85 metros de envergadura o avião extrapolaria o limite do Code F existente para aviões comerciais. O Code F é a categoria mais elevada prevista pelo código de referência de aeródromos da ICAO para aeronaves de grande envergadura. Nessa classificação estão aviões com asas entre 65 metros e menos de 80 metros de ponta a ponta.
O enquadramento é usado no planejamento da infraestrutura aeroportuária, incluindo dimensões e separações de pistas de táxi, posições de estacionamento e outras áreas de circulação, e não estabelece um limite específico para o comprimento da aeronave. Um avião acima desse limite ficaria restrito a poucos aeroportos do mundo, inclusive não podendo operar em nenhum atual na China.
Blended Wing Body
A arquitetura planejada segue uma linha de estudos desenvolvida há décadas, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa, para avaliar a viabilidade de grandes aeronaves com configuração de asa integrada, ou blended wing body (BWB), uma evolução do conceito de asa voadora aplicada ao transporte.
Os trabalhos modernos remontam a pesquisas conduzidas pela McDonnell Douglas em conjunto com a NASA a partir do fim dos anos 1980, posteriormente incorporadas pela Boeing e aprofundadas nos demonstradores X-48B e X-48C, desenvolvidos com participação da NASA e do laboratório de pesquisas da Força Aérea dos Estados Unidos.
Mais recentemente, a força aérea dos Estados Unidos (USAF) retomou o conceito em maior escala ao selecionar a JetZero para desenvolver um demonstrador BWB destinado a explorar aplicações de transporte e reabastecimento, enquanto a Airbus conduziu na Europa o programa MAVERIC, cujo demonstrador em escala voou pela primeira vez em 2019 para estudar uma arquitetura semelhante voltada à aviação comercial.
A configuração busca reduzir a resistência aerodinâmica e ampliar a eficiência do conjunto. Em projetos desse tipo, a integração entre fuselagem e asa altera a distribuição de sustentação e pode permitir uma relação mais favorável entre desempenho aerodinâmico, consumo energético e capacidade de transporte.
Túnel transônico
Os pesquisadores chineses utilizaram um modelo em escala 1:52, com aproximadamente oitenta centímetros de comprimento e 1,6 metro de envergadura. Os ensaios foram realizados em um túnel de vento transônico do Cardc, em velocidades entre Mach 0,4 e Mach 0,8.
Os testes avaliaram características como comportamento aerodinâmico, estabilidade e deformação estrutural. Segundo a imprensa internacional, o modelo apresentou uma relação máxima entre sustentação e resistência aerodinâmica de aproximadamente vinte em velocidades inferiores a Mach 0,7.
A relação sustentação-resistência é um dos principais indicadores utilizados na avaliação da eficiência aerodinâmica de uma aeronave. Quanto maior o índice, menor tende a ser a resistência para determinada condição de sustentação, embora o resultado dependa da configuração, do regime de voo e das condições operacionais.
Possíveis aplicações
Segundo os pesquisadores, a configuração de asa-voadora poderá proporcionar ganhos de eficiência aerodinâmica e consumo energético. O projeto, porém, permanece em fase de desenvolvimento e não existe, até o momento, uma aeronave em escala real baseada no conceito.
A tecnologia também está sendo considerada para aplicações de transporte de carga. De acordo com informações da imprensa chinesa, existem estudos para um avião com capacidade para transportar até 120 toneladas e alcance estimada em aproximadamente 6.500 quilômetros.
Esse projeto também permanece em estágio conceitual, sem indicação de entrada em produção ou de cronograma para construção de um protótipo em tamanho real.
Participação do Cardc
O Centro de Investigação e Desenvolvimento Aerodinâmico da China participa de diferentes programas aeronáuticos desenvolvidos no país. Entre eles estão o C919, avião comercial de corredor único produzido pela Comac, e o Y-20, aeronave de transporte militar.
A China também desenvolve o C929, avião comercial de fuselagem larga e longo curso concebido para transportar cerca de 280 passageiros, disputando o mercado do Airbus A350 e Boeing 787.
Por enquanto, os resultados apresentados pelo Cardc correspondem a ensaios experimentais em modelo reduzido, sem confirmação de planos para aplicação em uma aeronave comercial de grande porte.
* Colaborou Edmundo Ubiratan
