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Carolina Drahomiro transforma memória familiar em reflexão sobre trabalho e autonomia feminina

Carolina Drahomiro transforma memória familiar em reflexão sobre trabalho e autonomia feminina

Uma lembrança transmitida de geração em geração tornou-se o eixo de uma investigação artística que articula memória, história social e questões de gênero.


A partir desta quinta (4), às 19h, a artista Carolina Drahomiro apresenta na Torre Malakoff a exposição “Hoje eu subi numa pilha de livros pra estar à sua altura”, projeto contemplado pelo Funcultura e que marca sua estreia em mostras individuais.


O trabalho nasceu de uma fotografia de casamento da década de 1950, conhecida pela artista apenas por meio dos relatos de familiares.


Na imagem, sua avó materna aparece praticamente da mesma altura que o marido graças a um recurso invisível ao enquadramento: uma pilha de livros sob os pés da noiva.


O episódio, preservado pela tradição oral da família, tornou-se ponto de partida para uma pesquisa sobre os caminhos percorridos pelas mulheres em busca de reconhecimento e igualdade.




A artista relaciona essa herança afetiva ao conceito de pós-memória, formulado pela pesquisadora Marianne Hirsch para definir experiências assimiladas por narrativas familiares, mesmo sem terem sido vividas diretamente.


O tema já havia sido explorado por Carolina durante seu mestrado, dedicado a compreender de que maneira essas memórias herdadas atravessam a produção artística contemporânea.


Ao revisitar a história da avó, a artista identificou no gesto de subir sobre os livros uma dimensão simbólica capaz de extrapolar o âmbito privado.


“Passei a vida escutando que minha avó estava sobre livros para ficar à altura do meu avô na foto do casamento. Adulta, percebi que essa imagem carrega um simbolismo que vai muito além da minha história familiar: fala sobre o que mulheres precisam ‘subir’ – em conhecimento, em esforço – para serem vistas como equivalentes”, afirma a artista, em material enviado à imprensa.


A partir dessa leitura, a exposição amplia o debate para a condição histórica do trabalho feminino. Entre as referências teóricas que sustentam o projeto está “Calibã e a Bruxa”, da pensadora italiana Silvia Federici, obra que discute a construção de desigualdades de gênero e a desvalorização econômica de atividades tradicionalmente atribuídas às mulheres, como os cuidados domésticos e familiares.


A mostra também dialoga com a ideia de contramonumento, conceito desenvolvido na arte contemporânea para provocar reflexão crítica sobre a memória coletiva.


Em vez de celebrar figuras heróicas por meio de estruturas grandiosas, a proposta busca ativar questionamentos e estimular a participação do público.


“O antimonumento é um conceito da arte contemporânea pública, em um espaço público, que busca remexer uma memória. Um marco de memória, sem necessariamente ser um objeto edificado, grandioso, sabe? O paralelo que faço com o meu trabalho é que na foto você não consegue ver esse pedestal, a monumentalidade dessa mulher, isso fica num campo subjetivo. Eu quero lembrar esse ato de transgressão da minha avó que foi passando para as suas filhas a ideia de que não dependesse de homem, que tivesse autonomia…”, explica.


Processos e heranças

O percurso criativo teve início com desenhos inspirados na imagem da avó apoiada sobre livros. Posteriormente, Carolina realizou uma fotoperformance em que encena a própria figura entre os arquétipos da noiva e da bruxa, retomando os temas da emancipação feminina e da construção da memória.


Ao longo do desenvolvimento da exposição, novos elementos familiares foram incorporados ao trabalho. Entre eles, estão tecidos e ferramentas utilizados por sua avó paterna, que produzia arranjos florais artesanais e viveu até os 103 anos.


O contato com esses materiais levou a artista a criar obras que dialogam diretamente com os gestos e saberes transmitidos entre gerações.


Outra descoberta surgiu a partir de um conjunto de tecidos herdados por sua mãe. Durante o processo de preparação do linho, Carolina passou a experimentar marcas produzidas pelo calor do ferro, transformando queimaduras, vincos e sobreposições em linguagem visual.


O resultado são trabalhos em que as diferentes intensidades das marcas evocam a forma como lembranças se modificam ao serem transmitidas ao longo do tempo.


No texto crítico que acompanha a exposição, Guilherme Moraes observa:


“Carolina Drahomiro desenvolve desenhos de vocação construtiva por meio do vinco e da queima das fibras naturais desse linho. O calor se torna instrumento de uma grafia não pelo depósito de pigmento sobre o suporte, e sim pela queima, assim como confere à planaridade do pano aspectos escultóricos através do vinco”.


Corpo, desejo e subversão

O conjunto de obras inclui ainda trabalhos da série “Histéricas”, desenvolvida a partir de imagens de vibradores enviadas por mulheres e posteriormente transformadas em retratos pela artista.


A pesquisa surgiu quando Carolina investigou a origem desses objetos, inicialmente utilizados em tratamentos médicos voltados ao diagnóstico de histeria feminina.


“Numa pesquisa despretensiosa eu descobri que o vibrador foi inventado por um homem para tratar a histeria. As mulheres eram levadas pelos seus maridos para essa clínica para serem tratadas com essa ‘ferramenta médica’. Hoje, esse elemento é usado de forma totalmente recreativa, e representa uma autonomia do feminino. Aí percebi que essa série caminhava no sentido da desobediência da ferramenta, da subversão, da transgressão, e estava em diálogo também com as investigações de Hoje eu subi numa pilha de livros pra estar à sua altura”, comenta.


A curadora Beth da Mata destaca a consistência do percurso artístico desenvolvido por Carolina ao longo dos últimos anos.


“Acompanhar essa jornada – esse mergulho na produção artística a partir de uma ideia já tão amadurecida – foi profundamente instigante. Foram muitos encontros online, muitas conversas atravessadas pela vida. Há algo de muito potente nessa convivência entre criação, cuidado e insistência”, afirma.


Segundo ela, a artista vem consolidando sua presença no circuito de artes visuais por meio de exposições e participações em projetos coletivos. “Gosto quando uma artista respeita o tempo de seus próprios processos – e Carol faz isso com rigor e escuta”, conclui.

SERVIÇO

“Hoje eu subi numa pilha de livros pra estar à sua altura”, de Carolina Drahomiro

Abertura: Quinta (4), a partir das 19h

Quando: em cartaz até 16 de agosto de 2026

Onde: Torre Malakoff – Praça do Arsenal da Marinha, s/n, Bairro do Recife – Recife-PE

Visitação: Terças a sextas, das 10h às 17h; Domingos, das 14h às 18h

Entrada gratuita

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