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Bculo, o osso do pnis que a evoluo negou aos homens

Bculo, o osso do pnis que a evoluo negou aos homens

De forma surpreendente, a estrutura do pnis humano bastante excepcional e rara. Enquanto a maioria das espcies de mamferos possui um “osso de suporte” para manter o pnis ereto, conhecido como bculo, uma estrutura ssea localizada ao longo do eixo do pnis que facilita a penetrao eficiente e prolonga o tempo de cpula, o pnis humano no apresenta essa caracterstica. Se voc observar o esqueleto de um chimpanz, de um gorila ou at de um simptico guaxinim, notar este pequeno detalhe anatmico que a evoluo decidiu nos subtrair.

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Bculos de diversos mamferos. O ser humano j teve um, mas desapareceu h milhes de anos devido a monogamia.

Esta surpreendente linhagem extremamente diversificada. De fato, conhecido como “o osso mais diverso de todos“, ele no apenas assume uma grande variedade de formas, mas tambm apresenta tamanhos significativamente distintos: desde ser quase imperceptvel em certas espcies de lmures at atingir dimenses impressionantes, chegando a 65 centmetros em morsas.

Enquanto quase todos os primatas carregam esse “reforo estrutural” para garantir que a engenharia no falhe no momento crtico, o Homo sapiens decidiu apostar tudo na hidrulica.

Biologicamente falando, a ausncia do bculo nos torna uma anomalia. Nossos primos evolutivos usam o osso para facilitar a penetrao e permitir sesses de acasalamento prolongadas, o que, na selva, ajuda a evitar que a fmea escape para o prximo pretendente.

Ns, por outro lado, dependemos exclusivamente do sistema cardiovascular. Provavelmente voc nunca parou para refletir sobre isso: para o homem, uma ereo no apenas um evento romntico; um exame de sade em tempo real.

A cincia chama isso de “sinal honesto”. Como no temos o osso para mascarar a fadiga, uma ereo bem-sucedida diz parceira:

-“Ei, meu corao est batendo bem, minhas artrias esto limpas e meu sistema nervoso est operando em 5G.”

Uma ereo o “check-engine” da biologia. Se o motor falhar, no h osso que salve a ptria. E mu9itas vezes nem um tadalafil salva o dia.

A Teoria de Ado (e a Costela Mal Interpretada)
Aqui a histria fica curiosa quando entra no campo da filologia bblica. Existe uma teoria fascinante, e controversa, defendida por acadmicos como Ziony Zevit, um estudioso americano de literatura bblica e lnguas semticas. Ele argumenta que o mito da “costela” de Ado pode ser um erro de traduo milenar.

No hebraico antigo, a palavra tzela pode significar “costela“, mas tambm “suporte” ou “membro lateral“. Ziony aponta que homens e mulheres tm o mesmo nmero de costelas, o que tornaria a histria da costela faltante biologicamente estranha, mas os homens so os nicos primatas que no tm o bculo.

A teoria sugere que o “osso” removido de Ado para criar Eva teria sido, na verdade, o bculo. Isso explicaria a “rafe“, aquela linha ou cicatriz vertical no perneo e pnis, que o texto bblico descreve como o local onde Deus “fechou a carne“.

Basicamente, perdemos o osso, ganhamos a companhia, e ficamos com a cicatriz do recall divino.

Mas por que a seleo natural nos deixou na mo? A hiptese mais aceita que, ao migrarmos para sistemas de acasalamento mais monogmicos, ou de menor competio direta e frentica, a necessidade de um suporte rgido permanente diminuiu. A evoluo econmica: se voc no usa um osso para lutar contra dez rivais em cinco minutos, ela o remove para economizar clcio.

O resultado? Somos a nica espcie e primata que precisa de “clima”, velas perfumadas e um bom estado psicolgico para que a fsica funcione. O bculo era o modo automtico; a hidrulica humana o modo manual, sensvel e, convenhamos, muito mais dramtico.

Por outro lado, marsupiais, hienas, alguns lagomorfos, como os coelhos, e tambm os equdeos compartilham essa ausncia com os humanos.

Em circunstncias favorveis para a atividade sexual, o sistema nervoso autnomo ativado, levando ao aumento de xido ntrico nas artrias do pnis e nos msculos que o compem. Este aumento de xido ntrico, que atua como um vasodilatador, provoca um fluxo sanguneo mais intenso para os corpos cavernosos do pnis, com um menor efeito no corpo esponjoso.

Simultaneamente, os msculos isquiocavernoso e bulbo-esponjoso comprimem as veias dos corpos cavernosos, restringindo o fluxo de sada e a circulao desse sangue para fora do apndice copulatrio.

Como consequncia da abertura da porta de entrada de sangue e do fechamento das portas de sada, os corpos cavernosos se enchem de fluido, tornam-se esponjosos devido ao aumento progressivo da presso arterial (que pode chegar a vrias centenas de mm Hg) e o pnis fica ereto.

Quando a atividade parassimptica diminui e os msculos relaxam, o sangue drenado pelas veias mencionadas acima e o pnis volta ao estado flcido.
Fica claro, portanto, que o tempo e a estimulao so necessrios para que o pnis fique ereto.

No entanto, no caso de certos problemas de sade, tanto fsicos (principalmente cardiovasculares) quanto psicolgicos, esse sistema deixa de funcionar adequadamente, impossibilitando a relao sexual.

No fim das contas, a falta do bculo o que nos torna humanos: dependemos menos da estrutura rgida e muito mais da circulao, da emoo e, ocasionalmente, da farmcia mais prxima. A evoluo nos tirou o osso, mas nos deu o simbolismo. E, claro, uma desculpa biolgica para quando o corao no est totalmente no negcio.

Mas nem tudo est perdido quando a fisiologia masculina falha. O problema da disfuno ertil, segundo diversos estudos, atinge entre 40% a 50% da populao masculina. As causas variam bastante, podendo ser fsicas, psicolgicas, hormonais e at relacionadas com o estilo de vida.

A boa notcia que h soluo para a disfuno ertil. Os principais medicamentos melhoram a ereo entre 74% e 86% dos casos. Ademais quando combinados com terapia sexual, podem gerar resultados melhores, visto que 70% dos casos envolvem questes emocionais, como medo de falhar, excesso de preocupao e ansiedade.

Muita coisa mudou desde 1996, quando o remdio pioneiro do laboratrio Pfizer para disfuno ertil foi patenteado nos Estados Unidos. Vinte anos e bilhes de comprimidos depois, o Viagra um marco na histria da medicina. Mas no s. Ao prolongar a vida sexual de uns, e turbinar a de outros, ele e seus concorrentes tiveram um impacto social e cultural tremendo.

Mas engana-se muito quem acha que o sildenafil o resultado de milhes investidos em medicamentos a para a disfuno ertil. Ele um exemplo clssico de serendipidade. O sildenafil foi inicialmente pesquisado como um tratamento para problemas nas artrias do corao (angina), mas demonstrou efeitos notveis na ereo.

Um outro dos mitos mais persistentes da internet (e da mesa do bar), contada como “verdade inconveniente” sobre as prioridades da humanidade, que a humanidade investiu mais em pesquisa de medicamentos para disfuno ertil do que do cncer?

Voc provavelmente j viu uma verso dessa frase atribuda ao Dr. Drauzio Varella, ou a um suposto ganhador do Prmio Nobel de Medicina. O texto costuma dizer:

– “Investe-se cinco vezes mais em Viagra e silicone do que na cura do Alzheimer e do cncer, ento teremos velhas peitudas e velhos de pintos duros, mas que no se lembram para que servem.”

um boato clssico. Drauzio Varella nunca disse isso e, inclusive, j desmentiu a autoria diversas vezes.A frase o que chamamos de “crtica de almanaque“, que soa profunda e revoltante, o que a torna o combustvel perfeito para compartilhamentos em massa.

Se olharmos para os balanos das grandes farmacuticas e para o financiamento pblico (como o do INCA no Brasil ou do NIH nos EUA), a oncologia a campe absoluta de investimento.

O setor de oncologia recebe bilhes de dlares anualmente. Em 2025, os maiores oramentos de pesquisa do mundo (como os de Merck, Roche e AstraZeneca) foram quase inteiramente focados em terapias genticas, imunoterapia e tratamentos contra o cncer.

O investimento em bculos artificiais (medicamentos como o sildenafil) foi massivo nos anos 90, quando a classe dos inibidores de PDE5 foi descoberta. Hoje, porm, a pesquisa nessa rea uma frao minscula comparada ao cncer ou s doenas neurodegenerativas. A maior parte desses remdios j genrica, o que significa que o lucro fcil da exclusividade acabou.

A sensao de que “s se pesquisa isso” vem do marketing, no do laboratrio. Medicamentos para disfuno ertil so produtos de “estilo de vida” com publicidade massiva. Voc v comerciais de remdios para virilidade no intervalo do futebol; mas no v comerciais de anticorpos monoclonais para carcinoma de clulas escamosas.

muito mais fcil “consertar” um sistema hidrulico (o bculo) do que reprogramar o sistema imunolgico para atacar um tumor ou impedir o colapso de neurnios.

No fim das contas, a engenharia humana continua focada em salvar vidas. Mas, como a publicidade de tratamentos oncolgicos no costuma usar modelos bundudas e sorridentes em iates de sugar daddies ao pr do sol, a gente acaba achando que a cincia est mais preocupada com a “performance” do que com a “sobrevivncia” da espcie humana.

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