“Tomb Raider: A Origem”, traz Lara Croft bem diferente daquela figura elegante e praticamente indestrutível que marcou os filmes com Angelina Jolie nos anos 2000. Sob direção de Roar Uthaug, a personagem aparece pedalando pelas ruas de Londres para pagar contas atrasadas enquanto ignora a fortuna deixada pela família. O pai dela, Richard Croft, desapareceu anos antes, mas Lara se recusa a assinar os documentos que confirmariam oficialmente a morte dele. Enquanto tenta viver sem depender do sobrenome poderoso, ela também empurra para longe qualquer possibilidade de luto.
A abertura já desmonta a ideia de heroína perfeita. Lara perde uma luta numa academia, leva socos duros e sai machucada. O filme insiste nisso o tempo inteiro. Ela cai, erra, fica sem ar e toma decisões precipitadas. Em vez daquela aventureira quase sobrenatural, surge uma mulher jovem tentando parecer mais forte do que realmente está. Essa escolha ajuda bastante a aproximar a personagem do público. Quando Lara entra em perigo, existe a sensação de que ela realmente pode perder.
Tudo muda quando ela encontra um esconderijo deixado por Richard Croft dentro da mansão da família. Entre gravações, mapas e pesquisas antigas, Lara descobre que o pai investigava a lenda de Himiko, uma rainha japonesa associada a histórias de morte em massa e destruição. Richard acreditava que organizações perigosas procuravam o túmulo da rainha para usar o poder ligado à lenda. Antes de desaparecer, ele deixou instruções pedindo que todo o material fosse destruído. Lara ignora o pedido e decide seguir as pistas pessoalmente.
A viagem para a ilha
A busca leva Lara até Hong Kong, onde ela conhece Lu Ren, interpretado por Daniel Wu. Dono de um barco velho e cheio de problemas financeiros, ele aceita levá-la até uma ilha próxima ao Japão. O detalhe importante é que o próprio pai de Lu Ren também desapareceu naquela região durante uma expedição anos antes. Existe um sentimento silencioso de frustração entre os dois personagens. Nenhum deles acredita totalmente que encontrará respostas, mas ambos seguem adiante porque permanecer parados parece pior.
A travessia não demora muito para virar desastre. Uma tempestade destrói a embarcação e separa Lara de Lu Ren. Quando desperta na praia da ilha, ela percebe que o local já está dominado por homens armados liderados por Mathias Vogel, personagem de Walton Goggins. Vogel trabalha para uma organização chamada Trinity e passa anos tentando localizar o túmulo de Himiko. O problema é que ele fracassa repetidamente. Sem conseguir deixar a ilha e pressionado pela falta de resultados, Vogel transforma Lara numa peça importante da operação porque acredita que ela possui informações deixadas por Richard Croft.
Walton Goggins interpreta o vilão de maneira curiosa. Vogel não surge apenas como um sujeito cruel armado até os dentes. Existe cansaço naquele homem. Ele vive preso numa ilha hostil, cercado por mercenários irritados e sem qualquer perspectiva de voltar para casa. Em vários momentos, o personagem parece mais um funcionário desesperado tentando entregar um relatório atrasado do que propriamente um gênio do crime. Essa característica dá certo peso humano ao antagonista.
Ruínas, quedas e sobrevivência
A parte mais divertida do longa aparece quando Lara passa a explorar cavernas, rios e construções abandonadas. O filme abraça totalmente o espírito dos videogames. Há cordas improvisadas, armadilhas escondidas, saltos arriscados e corredores estreitos desmoronando enquanto a personagem tenta escapar. Ainda assim, Roar Uthaug procura manter certo limite físico para tudo aquilo. Lara não atravessa obstáculos sem consequências. Ela corta o corpo, desloca ossos e quase desmaia em várias sequências.
Uma cena envolvendo um avião abandonado resume bem essa proposta. Lara precisa atravessar uma estrutura enferrujada suspensa no meio de uma cachoeira enquanto partes metálicas começam a cair. A sequência cria tensão porque a personagem aparenta exaustão o tempo inteiro. Ela não parece uma máquina preparada para qualquer situação. Parece alguém tentando sobreviver por insistência, orgulho e um pouco de teimosia. E Lara Croft tem teimosia suficiente para abastecer metade de Londres.
O longa também acerta ao construir Richard Croft como uma presença constante, mesmo quando o personagem permanece distante da narrativa principal. Dominic West interpreta um pai obcecado por descobertas arqueológicas e incapaz de abandonar a investigação que consumiu sua vida. Para Lara, seguir as pistas deixadas por Richard se transforma quase numa tentativa desesperada de preservar a memória dele. Quanto mais avança pela ilha, mais ela percebe que herdou do pai o impulso de continuar andando mesmo quando tudo sugere parar.
Uma aventura mais humana
Existe uma diferença importante entre “Tomb Raider: A Origem” e muitas adaptações recentes de videogame. O filme não tenta transformar Lara numa figura inalcançável logo de saída. A produção prefere acompanhar o momento em que ela ainda aprende a sobreviver. Alicia Vikander trabalha bem essa fragilidade física da personagem. Sua Lara respira com dificuldade, sente medo e demora para reagir diante do perigo. Isso deixa a aventura mais envolvente porque cada perseguição carrega algum risco real.
Roar Uthaug também mantém ritmo eficiente nas cenas de ação. A câmera acompanha corridas, quedas e perseguições sem afogar tudo em cortes excessivos. O espectador consegue acompanhar onde Lara está, de quem ela foge e o que pode perder se errar o próximo passo. Parece detalhe pequeno, mas faz enorme diferença em filmes desse gênero.
“Tomb Raider: A Origem” não alcança o impacto cultural dos jogos que inspiraram a história, mas consegue devolver humanidade a uma personagem que durante muito tempo parecia existir apenas como fantasia de ação. Quando Lara atravessa os corredores escuros da ilha carregando ferimentos, lama e medo estampado no rosto, o filme finalmente convence o público de que aquela aventureira ainda está sendo construída.
