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Suspense na Netflix com Aaron Eckhart e Ben Kingsley vai te fazer remoer por dias

Suspense na Netflix com Aaron Eckhart e Ben Kingsley vai te fazer remoer por dias

“Suspeito Zero” começa acompanhando Thomas Mackelway, personagem de Aaron Eckhart, durante uma operação mal conduzida em Dallas. Convencido de que está diante de um assassino perigoso, o agente do FBI ultrapassa limites legais na prisão de Raymond Starkey, interpretado por Harry Lennix. O resultado aparece rápido. Starkey acaba solto, a chefia perde confiança no investigador e Mackelway é enviado para uma divisão menor em Albuquerque. O personagem principal não trabalha apenas contra criminosos. Ele também tenta sobreviver às próprias decisões ruins.

Ao chegar à nova cidade, Mackelway recebe um caso aparentemente simples envolvendo a morte brutal de Harold Speck, um vendedor ambulante encontrado em circunstâncias estranhas. O problema é que outros assassinatos surgem pouco depois, sem relação aparente entre as vítimas. O agente passa a procurar conexões escondidas nos registros das mortes, nos deslocamentos das vítimas e em pequenos detalhes espalhados pelas cenas do crime. Enquanto outros investigadores enxergam coincidências, Mackelway insiste que existe um padrão. Isso aumenta a pressão sobre ele dentro do FBI, especialmente porque sua reputação já saiu bastante arranhada de Dallas.

Desconfiança

Carrie-Anne Moss interpreta Fran Kulok, parceira de Mackelway na divisão de Albuquerque. Fran observa o comportamento do colega com uma mistura de desconfiança e preocupação. Ela conhece o histórico disciplinar dele e percebe que a investigação começa a consumir sua estabilidade emocional. Ainda assim, continua ao lado do agente durante os interrogatórios, visitas a arquivos e cruzamento de informações. A relação entre os dois funciona porque o filme não tenta transformá-los numa dupla cheia de frases espirituosas. Eles parecem dois profissionais cansados tentando manter algum controle dentro de um caso cada vez mais perturbador.

O elemento mais inquietante da trama surge com Benjamin O’Ryan, interpretado por Ben Kingsley. O personagem aparece perto demais das cenas investigadas e demonstra saber detalhes que deveriam permanecer apenas dentro do FBI. Kingsley interpreta O’Ryan de maneira quase hipnótica. Ele fala baixo, mantém um olhar constante e parece carregar informações que nunca revela completamente. Mackelway passa a acreditar que encontrou o responsável pelos assassinatos, mas enfrenta um problema sério. Não consegue reunir provas suficientes para sustentar uma prisão formal.

Obsessão

A partir daí, “Suspeito Zero” deixa parte da estrutura tradicional dos thrillers policiais e mergulha numa atmosfera mais sombria. As dores de cabeça de Mackelway ficam mais intensas, o sono desaparece e o investigador passa noites revisando fotografias, relatórios e mapas espalhados pela sala. Existe uma sensação permanente de desgaste físico. Aaron Eckhart trabalha esse cansaço de maneira eficiente. Seu personagem parece sempre prestes a perder o controle, embora continue perseguindo pistas com obsessão quase autodestrutiva.

O longa também utiliza o horror de forma incomum. Não depende tanto de sustos ou violência gráfica. O medo nasce da ideia de vigilância constante. Benjamin O’Ryan parece surgir sempre alguns passos à frente da investigação, quase antecipando movimentos do FBI. Isso cria uma tensão desconfortável porque Mackelway já não sabe se está investigando um criminoso comum ou alguém ligado a fenômenos que escapam da lógica tradicional. O filme deixa essa dúvida pairando durante boa parte da narrativa, sem entregar explicações mastigadas.

Sensação de claustrofobia

E. Elias Merhige trabalha a direção com uma atmosfera fria e sufocante. Albuquerque aparece cheia de corredores vazios, quartos baratos, estacionamentos desertos e escritórios silenciosos iluminados por lâmpadas cansadas. Tudo parece gasto, antigo e meio doente. Até os ambientes do FBI transmitem pouca segurança. Em alguns momentos, o filme lembra produções policiais dos anos 1990 que apostavam menos em ação grandiosa e mais em investigadores emocionalmente destruídos tentando juntar peças desconexas.

O ritmo pode incomodar quem espera perseguições constantes ou grandes reviravoltas a cada cena. “Suspeito Zero” prefere construir tensão aos poucos, acompanhando o desgaste mental de Mackelway enquanto ele tenta provar suas suspeitas. Existe um interesse muito maior em acompanhar paranoia, culpa e isolamento do que em criar cenas espalhafatosas de perseguição. Isso ajuda o longa a construir personalidade própria, embora também deixe algumas passagens excessivamente lentas.

Elenco de peso

Mesmo assim, o filme sustenta interesse graças ao trabalho do elenco principal. Aaron Eckhart entrega um protagonista vulnerável sem transformar Mackelway num herói carismático tradicional. Carrie-Anne Moss mantém a história ancorada em algum senso de realidade enquanto Ben Kingsley domina boa parte das cenas em que aparece. Basta ele entrar num ambiente para a tensão crescer alguns graus.

“Suspeito Zero” encerra sua investigação deixando parte das perguntas em aberto, mas sem abandonar o fio principal da narrativa. Mackelway continua perseguindo respostas enquanto o caso atravessa seus limites profissionais e invade seu estado psicológico. O investigador termina exausto, cercado por fotografias, relatórios e memórias ruins, ainda tentando decidir se passou tempo demais caçando um assassino ou se esteve diante de algo muito pior desde o começo.



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