SÃO PAULO – O turismo corporativo brasileiro segue em expansão, mas enfrenta um conjunto crescente de desafios estruturais que colocam em xeque sua sustentabilidade no longo prazo. Questões como a possível adoção da escala 6×1, a dificuldade de atrair e reter talentos e a pressão por redução de custos estão no centro do debate atual do setor, e também na agenda prioritária da Associação Latino-Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas (Alagev), que completa 23 anos neste mês de abril.
Em entrevista ao M&E, nesta terça-feira (28), a diretora executiva Luana Nogueira e a presidente Joyce Macieri detalham como a Alagev tem se posicionado diante desse cenário e quais são os caminhos para fortalecer o mercado.
Escala 6×1 pode pressionar custos e impactar toda a cadeia

Entre os temas mais sensíveis está a discussão sobre a escala 6×1. Embora reconheçam a importância do debate sobre qualidade de vida e jornada de trabalho, as executivas alertam para os impactos econômicos diretos da medida.
“No turismo, a operação não para. A gente depende de atendimento 24 horas, sete dias por semana. Qualquer mudança precisa considerar essa realidade”, afirmou Joyce.
Segundo dados acompanhados pela Alagev, a redução da jornada pode elevar significativamente os custos de operação. Em alguns segmentos do turismo, o impacto na folha pode chegar a cerca de 27%, com reflexo direto nos preços finais.
“Não existe redução de custo nesse cenário. Se eu preciso de mais pessoas para cobrir a operação, essa conta vai chegar ao consumidor”, complementou Luana.
As executivas da Alagev defendem que a discussão avance com mais profundidade e análise técnica, evitando decisões precipitadas em um ano eleitoral.
“Não é uma questão de ser contra ou a favor. É preciso entender o impacto completo — econômico, operacional e social”, pontuou Luana.
O desafio central: atrair e reter talentos
Se a agenda regulatória preocupa, o maior gargalo do setor hoje está na gestão de pessoas. A dificuldade de atrair novos profissionais e, principalmente, de reter talentos qualificados é apontada como um dos principais riscos para o futuro do turismo corporativo, de acordo com a avaliação da Alagev.
Para Luana, existe um desequilíbrio evidente entre o nível de exigência do mercado e a remuneração oferecida.
“O cliente quer um atendimento de excelência, com profissionais bilíngues, disponíveis 24/7, mas não quer pagar um fee que sustente esse nível de serviço”, afirmou.
Esse descompasso tem levado a um fenômeno crescente: a migração de profissionais para modelos mais flexíveis, como o trabalho freelancer, especialmente no segmento de eventos.
“Hoje, muitos profissionais ganham três, quatro vezes mais atuando como autônomos do que dentro de uma empresa. Isso gera evasão e fragiliza a estrutura das operações”, explicou.
Além disso, há uma redução significativa na formação de novos profissionais. Cursos de turismo perderam atratividade ao longo dos anos, diminuindo a base de entrada no setor.
“A gente saiu de um cenário com milhares de estudantes para turmas que não conseguem fechar. Isso cria um efeito direto na disponibilidade de mão de obra qualificada”, disse Luana.
Falta de visibilidade ainda limita o setor
Outro fator que contribui para esse cenário é a baixa visibilidade do turismo corporativo como carreira. Muitas vezes, profissionais chegam ao setor por acaso, sem planejamento ou conhecimento prévio sobre suas possibilidades, alerta a Alagev.
“Muita gente nem sabe que esse mercado existe. E, quando entra, não enxerga claramente um plano de carreira estruturado”, afirmou Joyce.
Para as executivas, é necessário comunicar melhor os benefícios e a relevância estratégica da área, tanto dentro das empresas quanto para novos profissionais.
“A gente também precisa aprender a se vender melhor como setor. Mostrar que existe estratégia, impacto financeiro e papel decisivo nos negócios”, completou a presidente.
Papel da Alagev: educação, conexão e protagonismo
Diante desse cenário, a Alagev tem reposicionado sua atuação para assumir um papel mais ativo na transformação do setor. A entidade aposta em três frentes principais: educação, conexão e advocacy.
O programa Alagev Educa é o principal instrumento nessa estratégia. Reformulado, ele passará a oferecer conteúdos mais dinâmicos, alinhados às novas formas de aprendizado e às demandas urgentes do mercado.
“A gente entendeu que o modelo tradicional não funciona mais. O profissional precisa de conteúdo rápido, aplicável e conectado com a realidade”, explicou Luana.
A iniciativa também incorpora tecnologia, incluindo o uso de inteligência artificial por meio da DEIA, que evolui para se tornar uma ferramenta de apoio prático aos associados.
Outro foco é a escuta ativa do mercado. A entidade tem intensificado o diálogo com associados para entender suas principais dores e transformar essas demandas em conteúdo e ações concretas.
“A gente não quer mais falar sobre o óbvio. Queremos discutir soluções e apoiar decisões estratégicas”, revelou Joyce.
Advocacy e reconhecimento do turismo corporativo
A Alagev também tem ampliado sua atuação institucional, buscando maior reconhecimento do turismo corporativo como motor econômico.
Em 2025, o setor movimentou cerca de R$ 148 bilhões, um dado que reforça sua relevância, mas que ainda não se traduz em protagonismo nas políticas públicas.
“O corporativo é o que sustenta a operação ao longo do ano. O lazer é importante, mas é sazonal. Sem o corporativo, a estrutura não se mantém”, afirmou Joyce.
A entidade tem levado essas pautas a Brasília e participado de iniciativas como o programa “Vai Turismo”, que propõe diretrizes para inclusão do setor nos planos de governo.
“A gente está entregando propostas prontas para que o turismo seja tratado como prioridade econômica”, explicou Luana.
Entre desafios e oportunidades
Apesar dos obstáculos, o cenário também traz oportunidades. A tendência de redução de viagens internacionais, impulsionada por custos elevados e instabilidade global, pode fortalecer o turismo doméstico.
“Muitas empresas estão trazendo eventos e incentivos para dentro do Brasil. Isso movimenta a cadeia e cria novas oportunidades”, avaliou Joyce.
Ainda assim, gargalos como infraestrutura e malha aérea limitada seguem como entraves para um crescimento mais acelerado. Este assunto será tema, inclusive, para uma outra matéria.
“Tem demanda, tem interesse, mas falta capacidade em alguns destinos. Esse é um desafio que precisa ser enfrentado com planejamento”, finalizou Luana.
