“Silverado” chegou aos cinemas quando o faroeste já parecia cansado em Hollywood, mas Lawrence Kasdan decidiu apostar justamente no oposto da melancolia que dominava o gênero naquele período. Em vez de pistoleiros silenciosos e cidades morrendo lentamente, o diretor entrega personagens falantes, briguentos, impulsivos e até engraçados. O Velho Oeste aqui é cheio de poeira, tiros, cavalos desaparecendo no horizonte e homens tentando sobreviver a decisões ruins tomadas por outras pessoas.
A história começa com Emmett (Scott Glenn), um cowboy experiente que acorda cercado por homens armados em uma cabana isolada. Ele consegue matar os três atacantes antes de acabar enterrado naquele lugar esquecido, mas a situação deixa perguntas demais pelo caminho. Dois cavalos fogem, enquanto um terceiro permanece ali, carregando uma marca que pode revelar quem ordenou a emboscada. Emmett pega o animal e segue viagem até Turley disposto a descobrir quem queria vê-lo morto.
Desconhecido no caminho
No meio do caminho, ele encontra Paden (Kevin Kline), desacordado no deserto e abandonado apenas de roupa íntima por antigos parceiros de crime. Paden tem aquele tipo de carisma típico de homem que sempre entra em problemas cinco minutos depois de sorrir para alguém. Kevin Kline interpreta o personagem com ironia leve e um ar permanente de sujeito cansado do próprio azar. Emmett oferece ajuda, os dois dividem os cavalos e a dupla segue para Turley tentando evitar confusão. Evidentemente, não conseguem.
Turley é uma prévia do que o grupo encontrará mais tarde em Silverado. O saloon da cidade é tomado por homens armados, bebidas baratas e um senso de autoridade bastante flexível. É ali que surge Mal (Danny Glover), um cowboy negro que só quer beber alguma coisa e dormir numa cama depois de vários dias cavalgando sem descanso. O dono do estabelecimento e seus seguranças transformam o pedido simples em humilhação pública. Mal perde a paciência e derruba os três numa briga rápida, brutal e até divertida em alguns momentos. Danny Glover dá ao personagem uma mistura interessante de dignidade e irritação contida. Ele parece habituado ao preconceito, mas já perdeu qualquer interesse em aceitar aquilo calado.
Problema à vista
O problema é que o xerife John Langston (John Cleese) prefere preservar a tranquilidade dos homens brancos da cidade. Mesmo sabendo que Mal não começou a briga, ele ordena que o cowboy vá embora imediatamente. Emmett e Paden observam tudo durante uma refeição e percebem que aquela cidade possui uma ideia muito particular de justiça. Kasdan trabalha essas cenas sem discursos exagerados. Basta a forma como os personagens olham para Mal dentro do saloon para entender quem tem permissão para ocupar espaço ali e quem permanece tolerado apenas temporariamente.
A situação piora quando Langston leva Emmett e Paden até a cadeia local para mostrar um homem prestes a ser enforcado. O prisioneiro é Jake (Kevin Costner), irmão mais novo de Emmett. Jake matou um homem em legítima defesa, mas ninguém parece interessado em discutir detalhes legais antes da execução. Kevin Costner interpreta Jake como um sujeito impulsivo, convencido e incapaz de permanecer longe de problemas por mais de algumas horas. Ele fala demais, provoca demais e transforma qualquer conversa em risco potencial.
Hora da ação
Emmett entende que não conseguirá tirar Jake da prisão usando argumentos civilizados. Enquanto isso, Paden reencontra no saloon um antigo conhecido que tenta assassiná-lo ali mesmo. O plano dá errado, o agressor acaba morto e Paden também vai parar na cadeia. Então, “Silverado” acelera de vez. Emmett provoca um incêndio na forca para distrair a população, Jake e Paden enganam um auxiliar do xerife e os três escapam em meio ao caos da cidade. Kasdan filma a sequência com energia contagiante, sem transformar a fuga em algo excessivamente grandioso. Há tensão, tiros e homens correndo desorientados pelas ruas, mas existe também um senso divertido de improviso permanente.
Durante a perseguição, Mal reaparece no alto de uma colina e ajuda os fugitivos disparando contra os homens de Langston. O gesto muda completamente a relação entre os personagens. Eles deixam de ser apenas viajantes ocasionais dividindo estrada e passam a funcionar como um grupo unido por dívidas, sobrevivência e raiva acumulada.
Cidade vigiada
Quando finalmente chegam a Silverado, descobrem que a cidade está sob controle de Cobb (Brian Dennehy), antigo parceiro de Paden e agora um xerife corrupto que administra medo como ferramenta política. Cobb controla comerciantes, pistoleiros e autoridades locais com uma calma quase educada, o que torna o personagem ainda mais perigoso. Brian Dennehy interpreta o xerife como um homem que sorri antes de ameaçar alguém. Ele raramente levanta a voz. Nem precisa.
Kasdan transforma Silverado numa cidade permanentemente observada. Homens armados vigiam ruas, corredores e janelas enquanto os protagonistas tentam encontrar algum espaço seguro para agir. Mal procura salvar a própria família de fazendeiros violentos. Emmett quer encerrar a história iniciada na emboscada do começo do filme. Paden tenta entender até onde Cobb está disposto a ir para manter poder. Jake, por sua vez, continua se metendo em confusão como se estivesse participando de outro filme completamente diferente, mais engraçado e irresponsável.
Um pouco de leveza
Mesmo cercado por tiroteios e perseguições, “Silverado” nunca deixa de lado seu senso de humor. Kevin Kline e Kevin Costner são uma dupla de trapalhões armados em alguns trechos, especialmente quando tentam improvisar planos absurdos para escapar de homens muito mais preparados. Essa leveza impede que o filme fique pesado demais e ajuda Lawrence Kasdan a construir um faroeste movimentado, simpático e cheio de personalidade.
Os personagens percebem que sobreviver naquele Oeste depende menos de heroísmo e mais de encontrar pessoas confiáveis quando a cidade inteira parece comprada por homens violentos. Em “Silverado”, amizade vale mais do que distintivo. E cavalo bom, aparentemente, também.
