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A breve histria &%@! dos palavres: de onde diabos eles vm?

A breve histria &%@! dos palavres: de onde diabos eles vm?

No negue: s vezes, xingar simplesmente d uma sensao boa. E est cada vez mais claro que soltar um palavro de vez em quando tambm pode ser bom para a sade, pelo menos, segundo a cinciaaumentar a tolerncia dor, promover resilincia emocional e sinalizar caractersticas positivas como fluncia verbal e honestidade. Alm disso, proferir obscenidades tem o potencial de impactar tanto o corpo quanto a mente, proporcionando alvio do estresse e at mesmo uma leve melhora no desempenho fsico.

A breve hist

Dada a sua presena constante na sociedade, pode parecer que os palavres simplesmente surgiram do nada. Mas, afinal, de onde vem a linguagem obscena? Da Roma Antiga ao Renascimento e at os dias de hoje, a histria dos palavres tem muito a nos ensinar sobre como os tabus, a linguagem e a cultura evoluem, e pode nos dar uma ideia do futuro dos palavres.

Em termos simples, palavres so linguagem tabu: palavras especficas que certas pessoas consideram inaceitveis em contextos especficos dentro de uma determinada cultura.

– “As palavras que vm para preencher esse papel tm origem em certos aspectos da experincia humana”“, diz Benjamin Bergen, linguista e cientista cognitivo da Universidade da Califrnia, em San Diego, no livro “What the F: What Swearing Reveals About Our Language, Our Brains, and Ourselves“.

Historicamente, a linguagem tabu tende a girar em torno da religio; nas tradies judaico-crists e muulmanas, a profanidade surge quando palavras selecionadas para funes especficas so despojadas de sua inteno e usadas fora de contextos religiosos. Em latim, a palavra “profanus” se traduz como “fora do templo“, significando palavras que profanam preceitos sagrados.)

Alm da religio, a linguagem obscena tambm pode estar relacionada a sexo e atos sexuais, bem como a funes corporais. Nesta ltima categoria, encontramos palavras que descrevem vmito, urina e, claro, fezes.

Em certas culturas, a morte e a doena podem at mesmo servir de munio para palavres. Em holands, por exemplo, uma longa lista de palavres deriva dos nomes de doenas, como o extremamente ofensivo Kankerlijer, que se traduz literalmente como “pessoa que sofre de cncer“.

Por fim, h os insultos racistas, entre as formas mais ofensivas de palavres, de acordo com diversos estudos que classificam o nvel de ofensividade dos palavres. Esses termos depreciativos se referem a membros de grupos percebidos como definidos por sua raa, gnero, etnia e orientao sexual, entre outros.

A histria dos palavres repleta de reviravoltas fascinantes. Mas, talvez surpreendentemente, a obscenidade em latim compartilha algumas semelhanas marcantes com os palavres de hoje, ambos derivados de tabus relacionados a sexo e excrementos. As normas sexuais e culturais da Roma antiga, no entanto, eram marcadamente diferentes das nossas, dando origem a algumas obscenidades nicas.

Uma das principais preocupaes dos romanos era: “O que significa ser um homem?” Eles tinham vrias palavras diferentes para homem, e o melhor tipo de homem que voc poderia ser era um vir, e da que vem a palavra “virtuoso”.

Na Roma antiga era socialmente aceitvel que um romano virtuoso tivesse relaes sexuais com pessoas de qualquer gnero, por exemplo, desde que ele fosse o participante ativo. Sendo assim, uma das maneiras mais certeiras de difamar um romano era usar uma linguagem que o colocasse em uma posio sexual passiva. Enquanto isso, se uma mulher fosse ativa durante o sexo, isso era considerado tabu pela sociedade.

Na Idade Mdia, nossas normas culturais eram bastante diferentes das da Antiguidade; agora, a religio era uma fora ainda mais dominante na sociedade. Assim, juramentos religiosos -promessas perante Deus de que suas palavras so verdadeiras e que voc far o que diz- feitos falsamente tornaram-se a forma predominante de profanao.

Estudos, como os do linguista Steven Pinker, indicam que os primeiros “palavres” eram blasfmias. Evocar o nome de Deus em vo ou citar coisas sagradas de forma profana era considerado muito pior do que referncias sexuais.

A preocupao cultural na Idade Mdia era como e quando se usava o nome de Deus. Ento, se voc estivesse, digamos, jogando na Idade Mdia e perdesse, poderia exclamar:

– “Pelos ossos de Deus!”

Em particular, juramentos sobre partes do corpo de Deus -outros exemplos incluem “pelas feridas de Deus” ou “pelo sangue de Cristo“- eram as frases mais obscenas que se podia proferir. Esses juramentos eram considerados to chocantes porque as pessoas acreditavam que diz-los era como dilacerar o corpo de Cristo no cu, numa perverso da Eucaristia aqui na Terra.

Ao longo dos sculos, porm, o poder perverso dos juramentos religiosos comeou a diminuir. Esse declnio teve incio durante a Reforma Protestante do sculo XVI, com a religio tradicional desempenhando um papel menos central na vida das pessoas.

Durante o Renascimento, os palavres comearam a se assemelhar mais aos palavres modernos. Termos que eram simplesmente diretos ou descritivos durante a Idade Mdia, como “cu“, que antes podia ser encontrado em tratados mdicos que descreviam anatomia, comearam a se tornar os novos palavres.

A maioria dos palavres j existia na Idade Mdia, s que no eram palavres propriamente ditos. Esses palavres, frequentemente de natureza sexual ou escatolgica, atingiram o auge de sua ofensividade durante a era vitoriana. Foi nessa poca que os palavres praticamente desapareceram da imprensa e da fala, dando lugar a eufemismos polidos.

O desejo social de evitar tudo o que fosse considerado grosseiro ou explcito era to forte que at mesmo palavras hoje banais como “bumbum” e “peito” eram vistas como tabu.

Mas, em conversas privadas, havia todos esses indcios de que, por volta de 1860, as pessoas usavam palavres basicamente da mesma forma que usam hoje.

Por volta do incio do sculo XX, no entanto, os palavres tornaram-se muito mais pblicos. Durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, os correspondentes de guerra tentaram relatar fielmente o que os soldados faziam e diziam, das trincheiras aos submarinos, incluindo toda a linguagem chula que usavam. Como resultado, os palavres comearam a aparecer em jornais e livros.

Hoje em dia, os insultos esto substituindo cada vez mais outras formas de palavres como as palavras mais chocantes e ofensivas da lngua portuguesa. E embora pesquisas sugiram que a maior parte dos palavres seja inofensiva, mesmo quando usada perto de crianas, os insultos so uma exceo notvel a essa regra, tanto para os indivduos difamados quanto para os observadores.

medida que os insultos se tornam mais comuns, Bergen observa que difcil dizer se eles algum dia perdero sua inteno de ferir e se tornaro intensificadores na linguagem, como outras formas de palavres.

Como vimos, a histria dos palavres uma mistura de tabus religiosos, comportamentos sexuais e transformaes lingusticas ao longo dos sculos.

No Brasil, eles so frequentemente usados como intensificadores de emoes (raiva, surpresa, alegria) e, em muitos casos, banalizados no dia a dia.

Muitos palavres em portugus vm do latim vulgar. Curiosamente, palavras consideradas horrveis hoje tinham origens inofensivas ou utilitrias.

Estudos mostram que palavres so armazenados em partes do crebro ligadas emoo (sistema lmbico), no apenas na rea da linguagem. Isso explica por que os soltamos involuntariamente em momentos de dor ou descontrole emocional.

Embora varie por regio, o uso de palavres baseados em termos sexuais ou anal muito comum. Os mais usados no Brasil so “porra” e “caralho“.

Porra“, talvez o mais onipresente, usado como vrgula por muitos, serve para raiva, surpresa, entusiasmo ou simplesmente para enfatizar uma frase.

J o “caralho usado para expressar extrema surpresa, raiva, dor ou at mesmo para indicar grande quantidade (“frio pra caralho“).

O “foda-se” ou “foda“” extremamente polissmico, podendo ser algo muito ruim (“foda, viu?) ou muito bom (“muito foda“).

o “Vai tomar no cu” a forma mais comum do brasileiro insultar ou expressar raiva intensa, seguido pelo clssico e forte “filho da puta“.

J a transformao da palavra “viado” uma das coisas mais curiosas na lingustica do brasileiro. Supostamente a palavra no existia antes dos anos 20. Embora a origem exata seja difcil de definir, a teoria mais aceita aponta para uma associao com o comportamento do animal “veado”, popularizada no incio do sculo XX.

A associao teria surgido no incio dos anos 20, no Rio de Janeiro. Segundo relatos, um comissrio de polcia fracassou em prender homossexuais na regio central e, ao explicar a falha, teria dito que os alvos fugiam correndo, assustados, esguios, como veados.

Essa comparao entre o perfil do animal (lpido, magro) e a delicadeza associada a homens homossexuais na poca popularizou o termo.

Embora tenha nascido como um insulto homofbico, o termo “viado” tem sido, ao longo das ltimas dcadas, ressignificado

Muitos homens gays adotaram tanto “viado” como “bicha” como forma de camaradagem, resistncia e orgulho, transformando uma ferramenta de opresso em um termo de pertencimento e intimidade.

Atualmente sem tornou uma gria amplamente utilizada no Brasil como sinnimo de “cara“, “amigo” ou “truta“, perdendo a conotao homofbica em certos contextos de amizade. Se voc presenciar dois jovens conversando 15 minutos vai notar que um chama o outro de “viado” umas dez vezes.

A verdade que no Brasil, o palavro usado com tanta naturalidade em alguns contextos que perde a carga ofensiva, funcionando mais como gria ou marcador de intensidade, especialmente entre amigos.

Palavres podem se suavizar com o tempo no fenmeno da lingustica conhecida com “esteira de eufemismos“,n que ocorre quando uma palavra neutra acaba sendo apropriada como insulto pela sociedade, e ento uma nova surge para tentar recuperar a dignidade da referncia em questo, criando formas alternativas para evitar o palavro original.

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