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Comédia levinha e delicada, na Netflix, mostra a doçura da nostalgia, tradição e memória familiar

Comédia levinha e delicada, na Netflix, mostra a doçura da nostalgia, tradição e memória familiar

“Nonnas” começa observando Joe Scaravella, personagem de Vince Vaughn, caminhando por Staten Island ainda anestesiado pela morte recente da mãe. Ele trabalha como mecânico da MTA, leva uma vida repetitiva e passa os dias lembrando da infância no Brooklyn dos anos 1970, quando a cozinha da família permanecia cheia de parentes, vizinhos e panelas fumegantes aos domingos. A direção de Stephen Chbosky aproxima essas recordações de algo muito físico. Joe lembra do barulho dos pratos, da toalha sobre a mesa, da fumaça do molho e até das discussões familiares. O problema é que ele já não consegue repetir aquele sabor dentro do próprio apartamento.

A ausência da mãe Maria atravessa cada cena sem precisar transformar o personagem num homem deprimido em excesso. Joe apenas parece cansado. Vince Vaughn abandona o sarcasmo acelerado que costuma marcar seus papéis e interpreta alguém travado emocionalmente, incapaz de decidir o que fazer com o dinheiro do seguro de vida deixado pela família. Bruno, vivido por Joe Manganiello, percebe que o amigo está se isolando e insiste para que ele use o dinheiro em algo que devolva algum prazer à rotina. Durante um jantar simples, Bruno praticamente empurra Joe para fora daquela espécie de suspensão emocional.

Pouco depois, Joe visita uma feira aberta de Staten Island onde costumava fazer compras com a mãe e a avó. O lugar funciona quase como um reencontro involuntário com o passado. Ali ele encontra Olivia, personagem de Linda Cardellini, antiga paixão da adolescência, além de Antonella, vizinha italiana mais velha que conhece praticamente todo mundo do mercado. O roteiro não perde tempo tentando sofisticar demais a premissa. Joe vê um restaurante abandonado, entra no imóvel e decide comprar o espaço. A ideia surge impulsiva, quase absurda: abrir a Enoteca Maria, restaurante batizado em homenagem à mãe, onde a cozinha seria comandada por nonnas reais.

Uma cozinha cheia de guerra

A contratação das cozinheiras gera alguns dos momentos mais engraçados do longa. Antonella, interpretada por Brenda Vaccaro, chega impondo regras rígidas sobre massas e molhos. Roberta, vivida por Lorraine Bracco, reage imediatamente às críticas, principalmente quando percebe diferenças regionais entre os pratos sicilianos e bolonheses. Gia, personagem de Susan Sarandon, surge carregando cigarro, ironias e comentários pouco delicados sobre praticamente qualquer assunto. Teresa, interpretada por Talia Shire, completa o grupo de mulheres que transformam a cozinha num campo de batalha culinário.

As discussões mostram que comida também envolve ego, tradição e memória familiar. Cada receita defendida pelas personagens parece carregar décadas de orgulho acumulado. Há uma sequência particularmente divertida em que as nonnas discutem sobre ingredientes enquanto Joe tenta controlar custos, atrasos e pequenos acidentes domésticos dentro da cozinha recém-reformada. Ele tenta administrar o restaurante, mas passa boa parte do tempo apenas impedindo que alguém abandone o projeto no meio do expediente.

Stephen Chbosky mostra essas cenas sem exagerar na caricatura sentimental. Gia convida as outras mulheres para uma sessão improvisada em seu salão de beleza, e a partir dali o grupo começa a criar algum tipo de intimidade. As conversas saem das receitas e chegam aos casamentos fracassados, maridos ausentes, perdas familiares e filhos distantes. O humor continua presente, especialmente porque as personagens falam como pessoas reais: interrompem umas às outras, mudam de assunto e reclamam do joelho enquanto comentam desilusões amorosas.

O restaurante começa a afundar

Quando a cozinha finalmente parece organizada, surge um incêndio provocado durante o preparo de um prato tradicional feito por Roberta. O acidente acontece justamente antes da inspeção sanitária. O fiscal reprova o restaurante e avisa que uma nova avaliação pode levar quase um ano. Joe perde dinheiro, prazo e paciência em poucos minutos. Bruno, que ajudou na reforma do imóvel inteiro, tenta amenizar a situação, mas acaba brigando com o amigo depois de semanas de pressão financeira.

“Nonnas” cresce bastante nesses momentos porque deixa a nostalgia um pouco de lado e passa a mostrar problemas mais concretos. O restaurante permanece vazio durante a inauguração graças a uma tempestade violenta e também pela má vontade de comerciantes locais, que enxergam o novo negócio como ameaça. Joe tenta atrair um crítico gastronômico de Manhattan, mas recebe desprezo educado. Restaurantes sofisticados recebem atenção. Um salão pequeno comandado por avós italianas em Staten Island parece irrelevante para aquele circuito gastronômico.

Existe uma melancolia discreta na maneira como Joe continua insistindo. Ele limpa mesas vazias, reorganiza cadeiras e observa panelas fervendo sem clientes suficientes para ocupar o salão. Vince Vaughn segura muito bem essas cenas menores. O personagem nunca faz discursos emocionados. Ele apenas continua trabalhando enquanto percebe que talvez tenha apostado todo o dinheiro da família numa ideia romântica demais.

Quando a comida finalmente encontra alguém

Depois de semanas acumulando prejuízo, Joe decide encerrar as atividades e organiza um último jantar para amigos, colegas de trabalho e conhecidos da vizinhança. Curiosamente, é nesse momento que o restaurante parece mais vivo. Sem a pressão da abertura oficial ou das críticas gastronômicas, as nonnas cozinham com liberdade e o ambiente ganha calor humano verdadeiro. As conversas ficam mais espontâneas, as piadas circulam naturalmente e Joe finalmente cria coragem para abrir um envelope deixado pela mãe antes de morrer.

Dentro dele estão as receitas familiares que Joe passou o filme inteiro tentando reproduzir sozinho, incluindo o famoso molho de domingo que sempre escapava de suas tentativas. O filme analisa pequenos gestos, como Joe relendo instruções manchadas ou experimentando o molho em silêncio dentro da cozinha vazia.

Dias depois, um artigo positivo publicado por um crítico infiltrado naquele jantar muda completamente o destino da Enoteca Maria. Os clientes começam a aparecer, Bruno consegue recuperar o carro vendido durante a crise financeira e Joe finalmente percebe que o restaurante deixou de ser apenas um memorial para a mãe. As mesas passam a funcionar como ponto de encontro para pessoas igualmente saudosas de alguma casa perdida pelo caminho.



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