O centro pulsava. Tangido pela multidão impassível à minha angústia, eu caminhava sem rumo certo, agastado, gastando tempo e sola de sapato, trocando as mãos pelos pés, almejando sumir na paisagem como se fora uma vela de cera que derretesse sob a temperatura causticante. Sentia a alma mastigar o meu corpo. Não sabia o que significava. O tempo devorava-me, endossando uma dor que era parceira dos músculos e das juntas. Se juntasse todos os pensamentos, não dava um que prestasse. Ofertaram-me o panfleto de uma cigana analfabeta de pai e mãe que lia as mãos. Um homem sem futuro pediu-me trocados, mas, apático, acelerei as passadas e troquei de calçada. Seguia sorumbático, olhando fixamente para baixo como se o mundo se resumisse a sapatos, tamancos, sandálias e joanetes. De repente, um muro. E uma frase pichada nele que expurgou o desagradável estado de ânimo: “Você é uma ótima pessoa. Lute”. Arrancou-me um piano dos ombros. Um piano que não tocava. Uma música que não se fazia ouvir. De repente, enlevado, entrei na Lanchonete da Tia Nair, sentei-me e fiz o pedido de sempre. O recinto estava cheio, alegre, colorido e, provavelmente, exalando os aromas deliciosos das iguarias. Fechei os olhos. Inspirei lenta e profundamente a atmosfera local, mas nada senti. Perdera completamente o olfato desde a pandemia pela covid-19. À medida que me refestelava com a gostosura dos quitutes, sentia o alto astral se achegando, inundando o espaço interior como se o meu peito fosse uma esponja. A mudança brusca do humor começou com uma frase altruísta que sobreveio por acaso e que eu tomei como um verso. Não lembrava a última vez que tinha me deparado com versos escritos num muro. E como faziam falta. A anônima frase de autoajuda fez vital diferença, acendendo o dia nos meus olhos. A poesia era um antídoto para o desencanto. Refleti que havia muita coisa estranha acontecendo no planeta, que continha, na parte de baixo, o ânimo das pessoas, como se amarrassem a cadela da tristeza numa âncora. O mundo contemporâneo estava mais conectado, mais veloz e, também, mais vazio. Talvez isso explicasse a crescente onda de depressão e de ansiedade que acometia pessoas de todas as idades, inclusive crianças. Não me sentia depressivo. Passava por um torpe e subitâneo estado de tristeza extemporânea. Supus que acontecesse com todo mundo, até mesmo com as pessoas bem-humoradas, aquele tipo de ser humano que eu tanto invejava, no melhor sentido. Ao menos, em atitude, já fazia tempo que eu me considerava um poeta. Porém, não era um homem ingênuo. Em certa medida, o mundo amassava as pessoas. Da mesma forma que a música, era fato que a poesia não mudaria os destinos do planeta, embora pudesse confundir os canalhas, deixando o cotidiano mais suave, menos insalubre. Finalizo esse relato verídico, deixando uma sugestão para o prefeito, para as nossas entidades culturais e para o povo que vive aqui: bora pichar poesia nos muros da cidade e pintá-los com cores aberrantes. A saúde mental vai agradecer. Se não salva uma vida, salvará, ao menos, um dia, como sucedeu comigo. Viva a vida, desde que bem vivida. E viva a poesia, que é uma prova de resistência.
