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colaboração como motor da eficiência operacional

colaboração como motor da eficiência operacional

Quando se fala em sustentabilidade econômica das companhias aéreas, a eficiência operacional é um dos pilares mais importantes. Em um setor marcado por margens historicamente estreitas, forte exposição a fatores externos e intensa concorrência global, buscar otimização não é apenas uma questão de boa gestão, mas uma estratégia de sobrevivência. Pequenos ganhos percentuais em combustível, tempo de solo ou disponibilidade da frota podem representar economias de milhões de dólares ao ano.

Tradicionalmente, essa eficiência era vista como responsabilidade quase exclusiva das equipes internas das companhias aéreas – centros de controle, planejamento, manutenção e operações de solo. Os sistemas das aeronaves eram projetados com uma hipótese de troca mínima de informações entre terra e ar. Atualmente, porém, essa lógica mudou. Na aviação contemporânea, a eficiência máxima depende da colaboração entre quem projeta a tecnologia e quem a utiliza no dia a dia, com uma troca de informações cada vez mais intensa.

Além dos avanços na tecnologia aeronáutica, mudanças operacionais em todo o sistema de aviação podem reduzir o consumo de combustível e as emissões em cerca de 10%. Esses ganhos de eficiência abrangem todo o ecossistema – incluindo retrofit e manutenção de aeronaves, operações de frota e aeroportuárias, gestão de voos e tráfego, e modernização do controle de tráfego aéreo. A transformação é impulsionada não apenas por melhorias nas próprias aeronaves, mas também pela digitalização que conecta fabricantes, operadores e Provedores de Serviços de Navegação Aérea (PSNAs) — papel que no Brasil este serviço é assumido pela Força Aérea Brasileira através do DECEA ( Departamento de Controle do Espaço Aéreo).

No Brasil, essa discussão ganha ainda mais relevância. O combustível de aviação pode representar até 45% dos custos operacionais de uma companhia aérea, dependendo da região do mundo, tornando qualquer oscilação de preço um impacto direto sobre a rentabilidade. Em um ambiente de volatilidade no custo energético, estratégias isoladas de economia perdem força. É nesse cenário que a parceria entre os diversos stakeholders da aviação se torna indispensável.

Ferramentas digitais integradas ao ambiente operacional, como os Electronic Flight Bags (EFBs), ajudam a transformar dados em decisões mais eficientes. Aplicações de software desenvolvidas para este tipo de dispositivo no cockpit permitem analisar o comportamento real da aeronave em tempo real, identificando oportunidades de economia de combustível e apoiando trajetórias mais eficientes. Quando aplicadas de forma consistente, essas tecnologias contribuem para reduzir consumo, aumentar a previsibilidade e melhorar o desempenho da frota.

Essa inteligência compartilhada ganha ainda mais força quando desenvolvida a partir das particularidades de cada mercado. A consolidação de centros de pesquisa locais, como o Boeing Global Technology Brazil (BGT-Brazil), mostra como a inovação com uma perspectiva regional pode gerar impacto concreto. O centro já desenvolveu mais de 25 patentes, sendo metade delas voltadas especificamente à eficiência operacional.

Um exemplo prático dessa colaboração é o projeto de pesquisa desenvolvido recentemente pela Boeing, em parceria com empresas aéreas, para a otimização de perfis verticais de voo em uma solução para EFB. Trata-se de um caso emblemático de inovação aplicada: um desafio operacional local encontra a capacidade analítica e tecnológica da fabricante, resultando em trajetórias mais eficientes, menor consumo de combustível e menor emissão de gases de efeito estufa.

Essa trajetória de transformação digital também ajuda a desconstruir a percepção de que eficiência e segurança caminham em direções opostas. Na aviação moderna, sistemas de monitoramento e gestão proativa se alimentam da mesma base que gera economia: dados padronizados, processos monitorados e tomada de decisão orientada por informação. Um voo mais eficiente é, por definição, um voo mais previsível e mais seguro.

A mesma lógica se aplica à manutenção e à gestão de ativos. Aeronaves são investimentos de alto valor que só cumprem plenamente seu papel econômico quando estão voando. Quando permanecem em solo por períodos excessivos, a rentabilidade é corroída por custos fixos como leasing, seguros e depreciação. Por isso, maximizar as horas diárias de utilização da frota – que em companhias de baixo custo frequentemente superam 12 horas por dia – é uma prioridade estratégica.

Para sustentar esse nível de produtividade, o fluxo de dados entre aeronave e fabricante precisa ser contínuo. Com sensores embarcados que transmitem diagnósticos em tempo real diretamente aos centros de controle, a manutenção preditiva pode antecipar falhas antes que se transformem em eventos que possam eventualmente retirar as aeronaves da operação (Aircraft on Ground, AoG). O resultado é uma operação mais resiliente, com impactos positivos diretos na pontualidade, na regularidade e na experiência do passageiro.

Olhar para o horizonte da aviação comercial significa compreender que a transformação digital – impulsionada por Big Data, Inteligência Artificial, Machine Learning e Digital Twin – não opera isoladamente. Ela exige uma estrutura de governança em que fabricante e companhia aérea atuem como parceiros de longo prazo. Ao transformar bilhões de registros de dados operacionais em decisões preditivas e trajetórias otimizadas, essa aliança não apenas protege as finanças do setor, mas também estabelece novos padrões de produtividade, segurança e sustentabilidade para a aviação moderna.

*José Alexandre Fregnani, Technical Manager, Digital Engineering, Boeing Global Technology (Brazil)
*Ítalo Romani, Associated Tech-Fellow, Boeing Global Technology (Brazil)
*Simone Souza, Sustainability Strategy & Policy Leader – Latin America and Caribbean





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