Letônia avalia o A-29 Super Tucano para defesa aérea e interceptação de drones em meio ao aumento das incursões no espaço aéreo do país
A Força Aérea da Letônia avalia a aquisição de aeronaves de combate leve com capacidade para interceptar drones, e o A-29 Super Tucano, da Embraer, está entre as plataformas consideradas.
A informação foi divulgada pelo coronel Viesturs Masulis, comandante da força aérea letã, durante a Global Air and Space Chiefs’ Conference, realizada em Londres em julho.
A avaliação ocorre em meio ao aumento das incursões de drones no espaço aéreo letão, principalmente relacionadas à guerra na Ucrânia. O país não possui atualmente aeronaves de combate de asa fixa armadas e depende da missão de policiamento aéreo da OTAN para a proteção do espaço aéreo dos Estados bálticos.
Nova capacidade de combate
Segundo Masulis, o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas Nacionais da Letônia determinou a identificação das soluções mais adequadas para uma eventual capacidade de combate e treinamento. Fabricantes já foram procurados, e o governo aguarda estimativas de custos e prazos de entrega antes de elaborar uma análise detalhada e definir possíveis medidas.
“A aquisição dessas aeronaves é uma opção real, mas qualquer solução de aviação exige financiamento substancial”, disse o coronel Viesturs Masulis.
A iniciativa faz parte de um programa mais amplo de reforço da defesa aérea. O governo letão comprometeu mais de 1 bilhão de euros para essa finalidade, incluindo 200 milhões de euros adicionais por ano entre 2023 e 2027. O montante, porém, contempla a defesa aérea como um todo e não foi destinado especificamente à compra de aeronaves.
Plataforma de defesa contra drones
O comandante da força aérea letã disse ainda que recomendaria ao sucessor, coronel Edmunds Svenčs, considerar a aeronave principalmente como um meio de defesa aérea contra alvos de baixa velocidade e drones. A plataforma também poderia apoiar operações das Forças Terrestres da Letônia.
A possibilidade de empregar o A-29 Super Tucano nesse tipo de missão está relacionada ao seu perfil de voo, autonomia e capacidade de integração de sensores e armamentos. A aeronave pode permanecer em patrulha por mais de seis horas, dispõe de sensores eletro-ópticos e infravermelhos e possui metralhadoras .50 incorporadas à estrutura.
O A-29 também pode empregar munições guiadas de precisão, armamentos ar-ar e operar a partir de pistas curtas ou não preparadas. Essas características permitem seu emprego em missões de patrulha, ataque leve, treinamento e vigilância armada.
A configuração voltada especificamente à interceptação de drones, contudo, ainda não foi demonstrada operacionalmente contra aeronaves não tripuladas do tipo Shahed ou Geran.
Integração de inteligência artificial
Em março, a Embraer anunciou uma parceria com a norte-americana Valkyrie Aero para integrar o sistema de inteligência artificial Gunslinger aos sensores e sistemas de armas do A-29.
A proposta é utilizar a tecnologia para apoiar a detecção, o acompanhamento e o engajamento de ameaças não tripuladas, empregando metralhadoras, foguetes guiados e outros efetores.
O conceito está relacionado ao desafio econômico imposto pelo emprego de drones de ataque de baixo custo. A utilização de caças supersônicos ou de mísseis superfície-ar contra alvos desse tipo pode gerar uma relação de custo desfavorável, especialmente em cenários com elevada quantidade de incursões.
Opções para países da OTAN
A Embraer apresentou em 2023 o A-29N, configuração do Super Tucano desenvolvida para atender requisitos de interoperabilidade da OTAN, incluindo sistemas de aviônicos e comunicações compatíveis com os padrões da aliança.
Portugal assinou em dezembro de 2024 um contrato de 200 milhões de euros para doze A-29N e recebeu as primeiras cinco aeronaves em 2025, tornando-se o primeiro operador da versão.
A Polônia também avaliou o modelo. Em janeiro, uma delegação liderada pelo major-general Ireneusz Nowak visitou instalações da Embraer no Brasil para conhecer a aeronave e suas capacidades.
Aviação de combate própria
A eventual aquisição do A-29 representaria o início de uma capacidade nacional de aviação de combate de asa fixa na Letônia. O país atualmente não opera aeronaves armadas desse tipo.
A proteção aérea dos três Estados bálticos — Letônia, Lituânia e Estônia — é complementada por destacamentos aliados da OTAN no âmbito da missão Baltic Air Policing.
Em 8 de junho, caças da aliança derrubaram um drone sobre território letão depois que alertas de ameaça aérea foram emitidos para municípios do leste do país.
A criação de uma capacidade própria com aeronaves de combate leve exigiria investimentos adicionais em formação de pilotos, infraestrutura de bases, armamentos, manutenção, logística e sustentação operacional.
Incursões de drones
A Letônia registrou novas incursões de drones em 2026. Durante a madrugada de 7 de maio, dois drones entraram no espaço aéreo do país provenientes da Rússia e caíram na região de Latgale, no leste. Um deles atingiu uma instalação de armazenamento de petróleo em Rēzekne.
O episódio provocou uma crise política em Riga e levou à saída do então ministro da Defesa, Andris Sprūds.
Em março, outro objeto entrou no espaço aéreo letão vindo da Rússia e caiu nas proximidades de Krāslava. Em 20 de maio, Letônia e Lituânia emitiram simultaneamente alertas de perigo aéreo relacionados a uma nova ameaça de drone.
Autoridades letãs têm atribuído, em geral, esses episódios a drones que saíram de sua trajetória ou sofreram interferência de guerra eletrônica, e não necessariamente a ações deliberadas.
Ao mesmo tempo, os governos bálticos e a Polônia ampliaram medidas de proteção de infraestruturas críticas, incluindo usinas de energia, barragens e instalações de gás. Na Letônia, as medidas incluem a barragem do rio Daugava, próxima a Riga, e o armazenamento subterrâneo de gás de Inčukalns.
