São Miguel do Gostoso é um refúgio de paz (e sabores) no litoral potiguar que você precisa conhecer (Ana Azevedo/M&E)

No mapa do Rio Grande do Norte, São Miguel do Gostoso é, para muitos, apenas um ponto no extremo. Entre o badalo de Natal e o movimento de Pipa, o destino mostra-se como uma oportunidade de praticar o luxo do slow travel e deixar o caos do mundo online de lado. O município, a cerca de 100 km da capital potiguar, é um convite urgente para desacelerar e conectar-se consigo mesmo, com o outro e com a natureza.

A “Capital do Vento”, como é conhecida por conta da prática constante de kitesurf e windsurf, transpira uma atmosfera rústica que, paradoxalmente, é a sua maior sofisticação. Aqui, o vento que impulsiona as velas dos esportistas é o mesmo que dita o compasso da vida local: uma cadência própria, onde cada detalhe — da imensidão das praias desertas à hospitalidade genuína de quem vive à beira-mar — é um lembrete de que o tempo, quando bem desfrutado, é o bem mais precioso que se pode adquirir em uma viagem.

Distância entre o Aeroporto de Natal e São Miguel do Gostoso (Reprodução Google Maps)
São Miguel do Gostoso está localizado a cerca de 100 quilômetros do Aeroporto Internacional de Natal (Google Maps)

E é claro que a receita para uma experiência memorável está no planejamento e na qualidade dos serviços escolhidos. Faço aqui uma ressalva à Luck Receptivo — em especial ao guia Sena e ao motorista Douglas —, que me conduziram desde o aeroporto com presteza, empatia, bom astral e um profundo profissionalismo. Afinal, visitar um destino pela primeira vez e contar com a expertise de quem conhece cada curva do caminho torna tudo mais proveitoso.

É “Gostoso” como o tempo para

São Miguel Do Gostoso (Ana Azevedo/M&E)
A “Porta da Felicidade” marca a passagem da pousada Mi Secreto para a praia em São Miguel do Gostoso (Ana Azevedo/M&E)

Não é preciso muito tempo em São Miguel do Gostoso para se apaixonar. Comigo aconteceu nos primeiros minutos, assim que pisei na Pousada Mi Secreto, na Praia da Ponta do Santo Cristo. O estabelecimento nasceu do sonho da médica espanhola Dra. Mercedes Lasso e, ao contrário da frieza dos hotéis convencionais, traz uma sensação genuína de acolhimento; é como chegar à casa de um parente ou de um amigo muito querido.

Cheguei para contemplar o pôr do sol e fui recebida com um brunch em um lounge na areia. Entre petiscos, drinks e bons papos, tive a certeza de que este não é um destino para um “bate e volta”; afinal, é “Gostoso” como ali o tempo para, para que você possa, enfim, viver sem culpa e sem compromisso.

São Miguel do gostoso
Fogueiras à beira-mar integram a atmosfera tranquila que marca o destino potiguar (Ana Azevedo/M&E)

Ao conhecer a Pousada Mi Secreto, veio a primeira surpresa: sua estrutura. São 22 suítes, incluindo opções com piscina privativa, spa, jacuzzi, bar molhado, piscina compartilhada e o “porta da felicidade”, que leva à praia, já que o hotel boutique é pé na areia. Há ainda o restaurante Mar y Brasa, com menu assinado pelo chef italiano Lorenzo Mancini, que une a cozinha mediterrânea aos sabores autênticos do Nordeste brasileiro.

A experiência gastronômica é um capítulo à parte. No menu, a Croqueta de Sol, o Arancini de alho-poró ou as Bruschettas de camarão são escolhas perfeitas para compartilhar. Na hora do prato principal, os favoritos são o Peixe Branco com crosta de queijo coalho e o Mi Secreto Burger.

Agora, se busca uma experiência completa, peça o Escalope de Mignon de Sol: a carne chega com mousseline de macaxeira, jerimum caramelizado e farofa de limão. O equilíbrio entre o salgado da carne e o adocicado do jerimum é o que torna o prato inesquecível. Para fechar, um prato de afeto: o Sorvete Caseiro de Maracujá com Chocolate é obrigatório. Feito com polpa fresca, açúcar orgânico e raspas de chocolate, é uma receita afetiva da própria Dra. Mercedes, criada originalmente para seus filhos.

A Gastronomia como fio condutor em São Miguel do Gostoso

São Miguel Do Gostoso (Ana Azevedo/M&E)
Parrachos do Rio do Fogo estão entre os principais atrativos acessíveis a partir de São Miguel do Gostoso (Ana Azevedo/M&E)

É importante dizer que, em São Miguel do Gostoso, a gastronomia é o fio condutor da viagem. Antes de chegar à mesa, porém, é preciso voltar ao mar e entender que o município, que foi uma pequena vila de pescadores, cresceu e hoje encontra na atividade turística uma de suas principais forças econômicas. Não por acaso, um dos atrativos mais procurados são as piscinas naturais formadas em meio ao Atlântico.

O passeio para os Parrachos de Rio do Fogo começa na Praia de Perobas, a aproximadamente 45 quilômetros da Pousada Mi Secreto. Em cerca de 20 minutos de lancha, a paisagem muda completamente. A ausência do turismo de massa reforça a sensação de exclusividade. O local conta com um barco de apoio que oferece bebidas, prolongando o conforto sob o sol forte do Rio Grande do Norte, mas é na água cristalina, com tonalidades vibrantes e uma diversidade de peixes coloridos, que está o verdadeiro encanto do lugar.

Com o fim do passeio vem a fome — de comida e de novidades. Em terra firme, no restaurante e ponto de apoio “Tuná“, acontece a parada para o almoço. Além de diversas opções, há uma descoberta regional: a Ginga com Tapioca. O prato é composto de tapioca recheada com pequenos peixes fritos no dendê, consumidos por inteiro.

Mais do que uma iguaria, é patrimônio imaterial do Rio Grande do Norte e carrega uma história de resiliência: sua origem remonta aos pescadores que transformaram peixes de pequeno porte — muitas vezes rejeitados pelo mercado — em alimento criativo para suas famílias.

O cardápio destaca ainda a Tábua do Mar, o Baião de Dois, a Salada Tropical e o Filé Perobas. O diferencial, porém, não está apenas nos ingredientes de alta qualidade, mas na experiência de ter seu churrasco finalizado à mesa, enquanto aprecia o mar e sente a areia nos pés. Para coroar, não deixe de provar a limonada de coco.

Memórias com alma

São Miguel Do Gostoso (Ana Azevedo/M&E)
Geladeira da década de 1960, ainda em funcionamento, chama a atenção dos visitantes na Urca do Tubarão, em São Miguel do Gostoso (Ana Azevedo/M&E)

Se busca um motivo especial para visitar o destino, anote: a 13ª edição da Mostra de Cinema de Gostoso será realizada entre 20 e 24 de novembro. O evento transforma a Praia do Maceió em uma sala de exibição gratuita ao ar livre. É um momento perfeito para celebrar com os locais e encontrar viajantes de todo o mundo.

Além de cenários naturais, o destino pulsa arte e história. Ao visitar a Urca do Tubarão, em São José de Touros, você encontrará um verdadeiro túnel do tempo. O poeta Edson Nobre conta causos e apresenta sua coleção de objetos históricos — que vai de discos de vinil a relíquias tecnológicas — em um ambiente rústico de pau a pique. O complexo integra hospedagem, restaurante e até uma capela feita artesanalmente.

A economia criativa também valoriza a autenticidade local. Na Casa Reduto, por exemplo, há de tudo, desde vestimentas até itens de decoração. Curiosamente, fui a primeira cliente de uma artista local que, insegura com sua arte, produziu justamente os itens que comprei para minha casa própria. É nesses encontros, que não figuram em folhetos promocionais, que a viagem ganha significado profundo.

A experiência em São Miguel do Gostoso não fica completa sem explorar a Rua da Xêpa, o coração da vida noturna. Entre música ao vivo, boutiques e o clima acolhedor de cidade do interior, é comum reencontrarmos viajantes que cruzaram nosso caminho ao longo dos dias.

São Miguel Do Gostoso (Ana Azevedo/M&E)
Ostra trufada integra o menu degustação servido pelo restaurante Sampei (Ana Azevedo/M&E)

Bem pertinho, na Rua Cavalo Marinho, encontra-se o Sampei. Este restaurante é uma referência gastronômica local, especializado em frutos do mar e conhecido pelo seu cooking show, que proporciona ao visitante uma verdadeira imersão sobre o que será consumido. No menu, os destaques ficam por conta das Ostras Trufadas, do Tataki de Atum e do Trio do Mar. Já nas sobremesas, as estrelas são a Panacota de Café e o “Falso Coco”.

Outra opção que vale a pena é o restaurante La Pepita, que foca na gastronomia italiana. Além dos pratos clássicos, vale explorar destaques como a Bruschetta em todas as suas versões, a Pasta alla Siciliana e a Parmigiana feira com beringela.

Por incrível que pareça, São Miguel do Gostoso não leva esse nome por conta da gastronomia. A história por trás fala sobre a união de dois elementos da memória local: o padroeiro da cidade, São Miguel Arcanjo, e o apelido de um morador pioneiro da região, um homem conhecido como ‘Gostoso’, famoso por sua alegria e hospitalidade. No entanto, estar no destino traz um sentimento constante que o valida: “como é Gostoso estar aqui”.

Arco-íris no mar

São Miguel Do Gostoso (Ana Azevedo/M&E)
Arco-íris colore o entardecer em São Miguel do Gostoso, no litoral norte do Rio Grande do Norte (Ana Azevedo/M&E)

Não há forma mais especial de encerrar um dia de passeio em São Miguel do Gostoso do que observando o pôr do sol, mas é possível elevar essa experiência. O trajeto até a Praia de Tourinhos, feito em uma jardineira 4×4, já prepara os sentidos: a luz da tarde ressalta a vivacidade das cores do destino e, com um pouco de sorte, você pode ser presenteado com um arco-íris que surge do mar em direção à costa.

O ápice dessa imersão acontece quando chegamos à Praia de Tourinhos. O pôr do sol ali é, por mérito próprio, um dos espetáculos mais bonitos do país. Em vez de apenas observar o horizonte da areia, a dica é entrar no mar. Sentir a temperatura morna da água enquanto o céu se transforma — com o arco-íris vibrando ao fundo — será um dos momentos mais memoráveis da viagem. Nessa hora, você não está apenas visitando o lugar; você faz parte dele e é transformado por ele, sem pressa, no ritmo da natureza.

* O M&E viajou a convite da Empresa Potiguar de Promoção Turística S/A (Emprotur) e Latam, com proteção da GTA.