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Zuenir Ventura, um mestre em transformar fatos sociais e políticos sempre em boas leituras

Zuenir Ventura, um mestre em transformar fatos sociais e políticos sempre em boas leituras


O ano era 2018. E a 13ª edição do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, em São Paulo, teve como homenageado o jornalista e escritor Zuenir Ventura, e as cinco décadas do fatídico ano de 1968, contado em “1968 O Ano Que Não Terminou”, também foram celebradas.

À época, com 87 anos, o mineiro, que até quis ser padre, mas se tornou um dos nomes mais potentes da comunicação sob o viés político e social, foi aclamado por um auditório tomado por profissionais, estudantes e admiradores de um dos Imortais da Academia Brasileira de Letras, sucessor da cadeira até então ocupada por outro mestre, Ariano Suassuna.

Nesta terça, 22 de setembro de 2026, data que no calendário marca o início da primavera, ficará registrada também como o dia em que Zuenir se foi, aos 95 anos, em sua casa no Rio de Janeiro, cidade que o acolheu em sua trajetória – de trabalho e de vida.




Um transformador

Jornalista que comparava a liberdade ao próprio ar que respirava, Zuenir nunca abriu mão dos (bons) tempos do olho no olho como essência da profissão, ao mesmo tempo em que por vezes, lhe bastava o silêncio para respostas das quais precisava.

Foram mais de seis décadas de trajetória, com a habilidade de transformar fatos em personagens, ora através de reportagens, ora em narrativas levadas a páginas de livros.

Que o diga obras que marcaram sua passagem no jornalismo. Entre outras, “Cidade Partida”, sobre os dias depois da chacina de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, em viés sobre a desigualdade social e a violência urbana, temas que lhe foram motes em outras tantas páginas escritas e “Chico Mendes: Crime e Castigo” com linhas sobre o assassinato do maior ambientalista brasileiro, Chico Mendes, que deu a Zuenir os prêmios Esso e Vladimir Herzog. Já com “1968 O Ano Que Não Terminou”…

Em 1968…

Foi sobre os (muitos) pesares da ditadura militar no Brasil, com um AI 5 que fechou o Congresso e impôs o País à violência e à repressão, mas também foi sobre fazeres artísticos revolucionários e ressoados até os dias atuais (Tropicália, festivais de música e etc), que um dos seus escritos mais fortes, “1968: O Ano Que Não Terminou”, se tornou uma obra literária gigante – lançada em 1988, duas décadas após os dias, meses e anos de chumbo.

O livro, aliás, serviu de inspiração para “Anos Rebeldes (1992)”, minissérie da Globo escrita por Gilberto Braga, que trouxe à tona os tempos de crueldade em roupagem pensada para as novas gerações.


Obra, umas das mais aclamadas de Zuenir, foi lançada em 1988 | Crédito: Divulgação



Em 2008, com “1968: O Que Fizemos de Nós”, que soa como um segundo volume da obra de 1998, Zuenir retoma aos dias daquela década, mas sob uma perspectiva de tempo e impacto como legados que seguiram em lembrança de quem esteve na vivência do que se passou ali.

No mesmo ano do lançamento do livro, ele recebeu da Organização das Nações Unidas (ONU) uma honraria por ter sido um dos cinco jornalistas brasileiros que mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos.

E, a propósito, nas derradeiras páginas sobre o ano que não terminou, Zuenir reforçou o que deve permanecer como atenção infinda a todos nós, para que tenhamos minimamente 1968 cravado na memória,


“(…) se não como exemplo, pelo menos como lição”


Zuenir Carlos Ventura deixa esposa e filhos, também jornalistas, Mauro e Elisa Ventura. O velório acontece hoje (23) na sede da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro.

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