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Wes Anderson está na Netflix com um dos filmes mais lindos, tristes e irresistíveis do cinema moderno

Wes Anderson está na Netflix com um dos filmes mais lindos, tristes e irresistíveis do cinema moderno

Wes Anderson reúne Ralph Fiennes, F. Murray Abraham, Jude Law e Tilda Swinton em “O Grande Hotel Budapeste”, aventura cômica de 2014 situada em Zubrowka, país imaginário da Europa Central. Um escritor jovem se aproxima do velho Moustafa, dono de um hotel já gasto, e ouve a história de Zero, mensageiro que, décadas antes, aprendeu o ofício sob as ordens de Gustave H.

Moustafa tem dinheiro para ocupar qualquer suíte, mas se instala no menor quarto do prédio. A escolha parece pequena demais para um homem que possui o hotel inteiro. Há ali um proprietário rico, um edifício cansado e uma cama modesta dentro de uma construção que já conheceu dias mais ruidosos. O escritor percebe essa diferença antes de conhecer a história, e fica preso ao homem que prefere dormir quase escondido dentro daquilo que comprou.

O Grande Hotel Budapeste ainda conserva portas, chaves, escadas, uniformes e uma ideia severa de serviço. A glória passou, mas a liturgia permanece nos modos, nos cargos, no jeito de circular pelos corredores. Quando Zero chega, o emprego de mensageiro exige mais do que carregar malas ou aparecer quando chamam. Gustave H. o treina para obedecer rápido, calar na hora certa e manter o corpo inteiro dentro de uma disciplina que não aceita descuido.

Gustave em serviço

Gustave fala como se cada frase precisasse chegar engomada ao ouvido dos outros. Fiennes dá ao gerente uma autoridade de recepção, salão e corredor, mas deixa aparecer o ridículo de quem tenta organizar o mundo pela etiqueta. Madame D. tira esse homem da rotina protegida do hotel e aproxima sua elegância de papéis, suspeitas, testemunhas e gente disposta a ferir sem levantar a voz. A cortesia continua de pé, só que agora precisa atravessar portas onde já não manda.

As cores de Anderson não adoçam o perigo. O prédio rosa, os ambientes arrumados e os enquadramentos meticulosos conduzem o olhar por uma Europa que parece feita de confeitaria, embora carregue fronteiras, perseguições e burocracias reconhecíveis. Zubrowka não existe no mapa, mas tem polícia, trem, hierarquia e medo. O país inventado permite que Anderson mexa nas peças sem copiar uma nação real, como se a fábula precisasse de precisão justamente por não dever obediência à geografia.

A referência a “O Mundo de Ontem”, de Stefan Zweig, deixa uma sombra sobre a correria. O livro aparece por trás da comédia como lembrança de um continente que viu desaparecer casas, línguas, costumes e formas de convivência. Anderson troca o lamento direto por caixas narrativas, personagens excêntricos e uma velocidade quase infantil. Mesmo assim, um cumprimento, uma gorjeta, uma refeição servida no tempo certo ou uma chave entregue no balcão parecem restos frágeis de uma ordem já cercada.

“O Grande Hotel Budapeste” avança sem tratar a lembrança como consolo. O escritor escuta, Moustafa recorda, Zero aprende, Gustave improvisa e Madame D. desloca a intriga para longe do conforto do saguão. A comédia insiste nos modos delicados enquanto o lado de fora endurece. O que fica não é a fachada rosada do hotel, mas Moustafa no quarto pequeno, sozinho dentro do prédio que comprou.



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