Em vez de passar o dia inteiro discutindo nas redes sociais quem “mito” ou “pai dos pobres” e desmanchando amizades de dcadas, seria muito mais produtivo e desopilador do fgado lembrar as histrias absurdas da poltica brasileira. Em tempos de polarizao, olhar para o retrovisor da nossa histria descobrir que a poltica brasileira sempre foi um roteiro escrito por um comediante que perdeu a mo no caf (ou na cachaa). So episdio to surreais que a gente demora a dar crdito de que estes episdios realmente aconteceram. |

Comecemos com Cacareco, a candidata de peso. Em 1959, os paulistanos estavam “poooraqui!” com a falta de feijo e o preo da carne. Qual foi a soluo?
Um jornalista do O Estado de S. Paulo no teve melhor ideia do que lanar a candidatura de Cacareco, uma rinoceronte de cinco anos emprestada pelo zoolgico do Rio para a inaugurao do zoolgico de SP.
O resultado? Ela recebeu cerca de 100 mil votos para vereadora, e durante alguns anos manteve o ttulo de candidata mais votada da cidade!
Obviamente, a Justia Eleitoral no deu posse pobre bichinha, alegando falta de filiao partidria, imagino. A frase da campanha da Cacareco era bem sugestiva:
– “Melhor eleger um rinoceronte do que um asno.”
O prestgio da Cacareco foi tanto que ela inspirou a fundao de duas encarnaes do Partido Rhinoceros no Canad.
Trinta anos depois, o Rio de Janeiro decidiu que precisava de um “gestor” altura da cidade. A revista Casseta Popular lanou o Macaco Tio para a prefeitura, como uma forma de protesto e deboche contra a classe poltica da poca, cujo lema era “Vote Nulo, Vote Tio“.
Ele era conhecido por sua personalidade forte e vulgar, jogando excrementos em visitantes, principalmente polticos, que no lhe agradavam no zoo do Rio. Uma ttica poltica que, convenhamos, muitos humanos adotaram depois.
Tio ficou em 3 lugar, com mais de 400 mil votos. Ele entrou para o Livro Guinness como o chimpanz mais votado do mundo.
O chimpanz foi criado semi-livre, desde filhote, por um antigo tratador do zoo. Os dois andavam juntos de mos dadas pelo Zoolgico tratando de outros animais. Foi assim que Tio se acostumou postura ereta, mas conforme crescia foi ficando mais difcil de ser controlado pelo tratador.
Grande e forte demais, a diretoria do zoo decidiu colocar Tio em uma jaula como os outros animais, e se tornou revoltado, jogando excrementos os visitantes e mostrando o pnis para as mulheres.
Tio faleceu em 1996, aos 33 anos, vtima de diabetes. Ele foi to popular que a prefeitura decretou luto oficial por trs dias, hasteando as bandeiras estaduais a meio mastro.
Tio foi descrito como o “candidato do povo” e sua votao considerada uma das maiores manifestaes de voto de protesto na histria brasileira.
Saiamos dos bichos no humanos para falar do blefe que virou “varada n’gua“, em 1961.
Jnio Quadros amplamente descrito por historiadores, jornalistas e contemporneos como uma figura poltica excntrica, controversa e esquisita.
Jnio baseava sua carreira no contato direto com o povo, com um estilo oratrio nico, dramtico e messinico. Ele se apresentava como um “salvador” da ptria, usando uma vassoura como smbolo de campanha para varrer a corrupo e a “canalice“, como ele dizia.
Seu comportamento peculiar e decises inesperadas marcaram sua carreira, especialmente durante seu curto mandato como presidente do Brasil em 1961.
Jnio era o mestre do teatro. Ele governava com bilhetinhos amarelos confusos, proibiu biqunis, minissaias e lana-perfume nos bailes de carnaval. Sete meses depois de assumir o cargo, ele achou que era o protagonista de um drama pico.
Jnio renunciou ao cargo de Presidente, acreditando que era tremendamente popular e de certa forma era, pois o Brasil inteiro sabia cantar o jingle de sua campanha: “Varre varre, vassourinha!“
Ele acreditava que o povo e os militares iriam s ruas implorar para que permanecesse no cargo:
– “No v, Jnio! Por favor, o Brasil no vive sem voc!”
as a verdade que o povo, o Congresso e principalmente os militares estavam “poooraqui!” com seus movimentos errticos sobretudo na deciso de condecorar Fidel Castro com a Ordem do Cruzeiro do Sul.
Ele esperava voltar com poderes totais, sem as amarras do Congresso, mas a realidade foi bem outra: o presidente do Congresso leu a carta de renncia, deu um “OK, tchau, int mais” protocolar em tempo recorde e ele teve que fazer as malas.
Ningum foi para a rua pedir para ele ficar. Foi o maior “vcuo” da histria republicana. Ele simplesmente foi embora, o vice assumiu, e o Brasil viveu uma crise poltica monumental gerada por um blefe.
Seus pares da poca descreviam-no como algum de difcil convivncia, muitas vezes paranoico, que acreditava estar governando “contra foras terrveis”.
Sua renncia deu incio a um perodo de grande instabilidade poltica no pas, que acabou resultando no golpe de 1964.
Com a renncia de Jnio, assumiu o vice-presidente Joo Goulart, que era visto com muita desconfiana pela elite econmica, parte da sociedade civil, o alto clero da Igreja Catlica, grande imprensa e setores militares, que o consideravam comunista. Mas esta j outra histria.
A trajetria de Jnio Quadros, de vereador a presidente em uma velocidade meterica, combinada com sua renncia inesperada, consolidou sua imagem como um dos presidentes mais peculiares da histria brasileira.
A histria nos mostra que, no Brasil, o absurdo no um erro do sistema, uma funcionalidade. Se a gente no rir do rinoceronte que ganha eleio, a gente chora pelo humano que perde a noo.
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