“Touch”, dirigido por Baltasar Kormákur e estrelado por Egill Ólafsson, Kôki e Pálmi Kormákur, acompanha Kristófer em dois momentos muito diferentes da vida: a juventude rebelde na Londres dos anos 1960 e a velhice silenciosa na Islândia durante a pandemia. Quando os lapsos de memória começam a se tornar frequentes, ele percebe que ainda existe uma pergunta aberta há mais de cinquenta anos: por que Miko desapareceu sem dizer uma palavra?
A juventude de Kristófer começa quase como um impulso mal calculado. Estudante da London School of Economics, ele se irrita com os colegas e abandona a rotina universitária depois de uma discussão política. Em vez de continuar tentando agradar aquele ambiente cheio de jovens que adoram parecer intelectualmente superiores em mesas de bar, ele aceita emprego como lavador de pratos no restaurante japonês Nippon. A escolha parece improvisada, mas muda completamente a vida dele.
O restaurante pertence a Takahashi, um homem rígido que controla o salão, a cozinha e até o comportamento da filha, Miko, interpretada por Kôki. Kristófer começa apenas limpando pratos e carregando utensílios, mas demonstra curiosidade pela culinária japonesa e tenta aprender o idioma. Aos poucos, conquista a confiança de Takahashi e ganha autorização para praticar receitas antes da abertura do restaurante. A cozinha vira uma espécie de refúgio. Enquanto colegas da faculdade fazem discursos políticos que não alteram muita coisa na realidade, Kristófer passa as madrugadas cortando ingredientes e tentando acertar receitas japonesas em Londres.
O nascimento do romance
O romance entre Kristófer e Miko surge com delicadeza, mas também com tensão constante. Eles precisam esconder a aproximação do pai dela, que observa cada movimento da filha como alguém tentando impedir uma tragédia anunciada. Kormákur evita transformar Miko em figura distante ou misteriosa demais. Ela conversa, provoca, ri das inseguranças de Kristófer e também demonstra cansaço daquela vigilância permanente dentro de casa.
O momento mais doloroso do passado chega quando Miko conta que sua família saiu de Hiroshima depois da bomba atômica. Sua mãe estava grávida durante o bombardeio, e a família passou a conviver com preconceito e medo. Takahashi vive aterrorizado pela possibilidade de doenças hereditárias atingirem os filhos. Esse medo interfere em todas as decisões dele, inclusive no modo como controla a vida afetiva de Miko. O restaurante deixa de ser apenas um espaço de trabalho e passa a funcionar quase como uma fortaleza construída para impedir aproximações.
Fim abrupto
Kristófer demora a entender a dimensão desse controle. Ele acredita que está conquistando espaço na família, aprendendo receitas e construindo uma relação sólida com Miko. Só que a situação muda abruptamente. Depois de viajar por alguns dias, ele retorna e encontra o Nippon fechado. Não há despedida, briga ou explicação. O restaurante desaparece da vida dele da mesma forma que Miko desaparece de Londres. A única coisa deixada para trás é o último pagamento pelo trabalho.
A passagem de tempo em “Touch” é melancólica sem virar sentimentalismo exagerado. Décadas depois, Kristófer, agora interpretado por Egill Ólafsson, vive sozinho na Islândia e administra um restaurante próprio. Viúvo, cansado e enfrentando problemas de memória, ele recebe do médico um conselho simples: resolver pendências enquanto ainda consegue. É quase engraçado perceber que muita gente foge de reencontros antigos porque teme constrangimentos, mas Kristófer resolve atravessar continentes em plena pandemia para procurar uma mulher que não vê desde os anos 1960.
Tempos de pandemia
A pandemia aparece de maneira muito vital no filme. Máscaras, aeroportos vazios e restrições de circulação aumentam a sensação de isolamento do personagem. Kristófer caminha por Londres como alguém tentando conversar com uma cidade que mudou de idioma emocional. Quando encontra o antigo endereço do Nippon, descobre que o restaurante virou um estúdio de tatuagem. O choque não vem apenas da mudança física do lugar. É a confirmação de que o tempo avançou sem esperar por ninguém.
A investigação conduz Kristófer até Hitomi, antiga funcionária do restaurante, que finalmente entrega pistas sobre Miko. O roteiro acompanha essa busca sem transformar cada descoberta em suspense artificial. O interesse do filme está menos na surpresa e mais no desgaste acumulado por pessoas que passaram décadas guardando silêncio.
Reencontro
Quando Kristófer finalmente encontra Miko, agora interpretada por Yôko Narahashi, “Touch” abandona qualquer tentação melodramática. Os dois se observam com hesitação, como pessoas tentando reconhecer no rosto envelhecido os traços da juventude perdida. Então Miko revela o motivo do desaparecimento. Ao descobrir que ela estava grávida, Takahashi decidiu levá-la de volta ao Japão e proibiu qualquer contato com Kristófer. O medo da herança genética causada pela radiação destruiu a relação antes mesmo que ela tivesse chance de amadurecer.
A revelação mais forte do filme envolve Akira, filho dos dois, entregue para adoção ainda bebê. Miko explica que ele cresceu saudável, tornou-se chef de cozinha e construiu uma família própria. Há uma emoção silenciosa quando Kristófer observa o filho trabalhando sem saber quem ele é. Kormákur conduz essa sequência com enorme sensibilidade, sem música excessiva nem discursos chorosos. Basta o olhar cansado de Kristófer acompanhando os movimentos do rapaz na cozinha.
“Touch” poderia cair na armadilha do romance idealizado sobre almas destinadas a se reencontrar. O que impede isso é justamente a maneira como Baltasar Kormákur filma o peso do tempo. Os personagens perderam décadas inteiras. Eles envelheceram longe um do outro, criaram rotinas solitárias e aprenderam a conviver com ausências permanentes. Ainda assim, existe algo profundamente humano naquele reencontro tardio. Talvez porque o filme entenda que certas pessoas continuam ocupando espaço dentro da memória mesmo quando o mundo inteiro insiste em seguir adiante.
