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“Vivo 76”: filme explora a fase da ebulição criativa de Alceu Valença nos anos 1970

“Vivo 76”: filme explora a fase da ebulição criativa de Alceu Valença nos anos 1970


Em 1976, um Alceu Valença ainda em ebulição atravessava fronteiras musicais, embaralhava referências e transformava o palco em nascedouro sem volta de um personagem sui generis.


Cinquenta anos depois, esse instante reaparece em “Vivo 76”, documentário dirigido por Lírio Ferreira que investiga o caminho percorrido pelo artista até a explosão criativa registrada no álbum “Vivo!”.


O filme foi exibido, em abril, no É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários e nesta terça (23) ganha sessão no In-Edit, principal mostra brasileira dedicada ao gênero musical, no Cinesesc, na cidade de São Paulo (SP).


O lançamento chega justamente no ano em que Alceu Valença completa 80 anos (no dia 1º de julho), criando uma coincidência simbólica entre a maturidade do artista e o reencontro com uma de suas fases mais inquietas.


Longe da narrativa cronológica convencional, o filme retorna ao período em que o cantor ainda construía as bases da persona que o público aprenderia a reconhecer nas décadas seguintes.


O foco está na travessia: da infância marcada pelo fascínio dos circos ao mergulho na contracultura dos anos 1970, passando pelas experiências artísticas e pelos encontros que moldaram sua identidade musical.




O nascimento de um personagem

Para Lírio Ferreira, o documentário acompanha um momento específico de metamorfose. “O filme é sobre o show, também sobre o disco e sobre a vida dele, mas basicamente é sobre a construção do personagem Alceu”, afirma o diretor.


Essa escolha orientou toda a narrativa. Em vez de percorrer uma carreira já consagrada, o longa observa o instante em que diferentes versões de Alceu parecem coexistir: o jovem tímido, o experimentador, o poeta popular, o artista psicodélico e o performer que ficou conhecido pela energia eletrizante


Segundo Lírio, o interesse estava justamente em compreender como essa figura pública foi sendo inventada. O diretor define o cantor como alguém múltiplo: “palhaço, louco, gênio, espantalho, menestrel e menino”, características que ajudam a explicar a força magnética daquele período.


Recife, psicodelia e invenção

O filme também mergulha na atmosfera cultural que cercava Alceu nos anos 1970. O diálogo com a Banda de Pífanos de Caruaru, a convivência com artistas experimentais do Recife, a parceria com Geraldo Azevedo e a formação da banda que o acompanhou no histórico show “Vou Danado pra Catende”, no Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro (RJ), que rendeu o disco “Vivo!”, aparecem como peças de uma engrenagem criativa em permanente movimento.


A produção recorre a imagens raras, registros em Super-8, fotografias e arquivos de nomes como Fernando Spencer e Jomard Muniz de Britto para reconstruir aquele ambiente.


Entre os materiais resgatados, estão também registros preciosos realizados por Mário Luiz Thompson durante apresentações de “Vou Danado pra Catende”.


Para a produtora Camila Valença, revisitar essa fase significa iluminar um capítulo menos conhecido da trajetória do artista. “As pessoas vão entender bem o período e entender quem é ele, de onde ele veio, de como foi essa transformação e a construção dessa persona que ele é hoje”, observa.


Quando o futuro ainda era rascunho

Idealizado há mais de uma década, o projeto nasceu do desejo compartilhado entre os realizadores e a equipe de Alceu de revisitar um período pouco explorado de sua obra.


Além do próprio Alceu, dão depoimentos no filme: Geraldo Azevedo, Kátia Mesel, Charles Gavin, Julio Moura (biógrafo de Alceu), Antônio Carlos Miguel e Carlos Alberto Sion.


Lírio descreve Alceu como um artista muito seguro de suas convicções, o que exigiu o contraponto de outros entrevistados.


“Alceu também tem uma coisa… ele é um sujeito muito resolvido com as questões dele… ele defende o pensamento dele e não dá muita brecha… esse convite de fazer essas pessoas fazer um ponto também a esse pensamento”, como no caso da eterna recusa em reconhecer o rock como um dos elementos da sua sonoridade.


Em “Vivo 76”, o espectador encontra um Alceu em estado de invenção permanente, que ainda não carregava o peso do próprio mito, mas já apontava para tudo o que viria depois. O filme captura o instante em que o futuro ainda era apenas uma possibilidade e, justamente por isso, parecia tão vibrante.

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