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Velório de Zuenir Ventura na ABL reúne jornalistas, artistas e políticos em clima de emoção e luto

Velório de Zuenir Ventura na ABL reúne jornalistas, artistas e políticos em clima de emoção e luto


Jornalistas, artistas e políticos se despediram de Zuenir Ventura. Morto na terça-feira (22), aos 95 anos, o corpo do jornalista, escritor e acadêmico foi velado na manhã de ontem, na sede da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Centro do Rio de Janeiro.


Uma bandeira do Fluminense Football Club foi enrolada sobre o caixão. No início da tarde, ele foi levado ao mausoléu da instituição em Botafogo, na Zona Sul da cidade, para o sepultamento. Zuenir ocupava a cadeira 32 da ABL.




O velório foi marcado pela emoção, com amigos, ex-colegas e várias gerações de discípulos de Zuenir, além do prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, e o secretário de cultura Lucas Wosgrau Padilha. Era a “imprensa de luto”, como destacou a jornalista e escritora Míriam Leitão, sua colega no GLOBO e na ABL.


— Várias gerações foram afetadas pela gentileza e generosidade de Zuenir — disse Míriam. — Para além do mundo do jornalismo, ele foi muito importante para o Brasil porque ajudou o país a pensar sobre questões fundamentais. Ele mostrou a tragédia que foi a chegada do autoritarismo em “1968 – O ano que não terminou”, mas também como esse autoritarismo já havia começado antes do AI-5 ser editado. Ficamos com o que ele ensinou e podemos agora continuar seu legado.


Filho de Zuenir, o jornalista Mauro Ventura lembrou a dimensão alcançada pela família de seu pai.


— As pessoas sempre dizem que ele um paizão para todo mundo — disse Mauro. — Dá muito orgulho perceber que a influência que ele teve sobre a gente em casa se espraiava para pessoas que sequer conhecíamos. É um momento de dor, mas estou escutando tantas histórias que me fizeram rir.


Mauro mostrou um bloco repleto de notas com histórias contadas pelos amigos:


— Estava me sentindo ridículo, sendo jornalista no velório do meu próprio pai. Aí depois lembrei que meu pai aprovaria, porque ele também vivia com bloco na mão. Continuo seguindo os passos dele.


Colega de Zuenir na ABL desde 2022, Gilberto Gil vê o jornalista como um “militante cultural”.


— Ele foi um fruto extraordinário dessa grande e frondosa árvore brasileira — diz Gil. — Me aproximei dele quando me mudei para o Rio (em 1972) e fui muito tocado por sua delicadeza. Convivendo com ele na Academia, senti uma característica profunda na alma dele, de dar às pessoas e receber tudo que é possível. Vou guardar todas essas coisas no fundo do coração, lugar onde a memória não precisa funcionar.


O compositor Paulinho da Viola conheceu Zuenir ainda na década de 1960. A dupla se reunia para falar sobre o momento político e a perseguiçao aos artistas. Zuenir também escreveu o roteiro do documentário “Paulinho da Viola —Meu tempo é hoje” (2003), dirigido por Izabel Jaguaribe.


— É uma pessoa que sempre transmitiu conhecimento, cultura e sensibilidade — diz o sambista. — Falava pouco, mas dizia muito, apenas o necessário.


Merval lembrou, que além de “Cidade Partida” e “1968 – O ano que não terminou”, Zuenir escreveu outro livro essencial para compreender o Brasil: ” Chico Mendes – Crime e castigo”, com reportagens sobre o famoso ambientalista brasileiro.


— Ele foi um ambientalista avant la lettre —lembra Merval. — A imortalidade é da obra que a gente deixa. Muito mais do que quase todos o Zuenir vai ser lembrado eternamente pois escreveu livros que são fundamentais para entender o Brasil.


O jornalista Ascânio Seleme trabalhava no Globo em Brasília e coordenava a área de nacional quando Chico Mendes foi assassinado. Foi nesse momento que percebeu o faro do de Zuenir, que trabalhava no Jornal do Brasil na época e também cobria o acontecimento.


— Ele apareceu como o grande repórter que era, e eu como concorrente na época, aprendi na pele o que era concorrer com Zuenir — diz Seleme. — Depois, conhece o mestre do pensamento, autor de tantas obras que iluminaram o país. Só mais tarde, em 2001, conhecei o Zuenir como ser humano ao trabalhar com ele. Esses três zuenirs eram sensacionais: um eu queria matar, o outro eu venerava e o terceiro era uma pessoa maravilhosa.


Arthur Dapieve, que trabalhou com Zuenir no Globo e no Jornal do Brasil, despediu-se do ex-colega com uma “sensação agridoce”.


— Por um lado, o que se vai é um pedaço da história de muita gente, por conta da importância que ele teve em tantas trajetórias profissionais e pessoais. Mas, por outro lado, é também um pedaço da história para todo mundo que fica, congregando em torno de sua generosidade.


Autor do hit “Rio 40 graus”, que fez sucesso no início dos anos 1990, o compositor Fausto Fawcett lembra que Zuenir deu visibilidade ao funk surgido nas favelas do Rio. Seu livro “Cidade partida” documenta a efervescência cultural nos bailes do morro, numa época em que o assunto só era abordado por alguns cientistas sociais nas academias.


— O funk era o morro eletronizado e eletrificado — diz. — Assim como o samba, estava se tornando uma força gigantesca.


Retratado em “Cidade partida”, o antropólogo e fundador da ONG Viva Rio, Rubem César Fernandes lembra que Zuenir esteve nas primeiras reuniões da organização, que surgiu em 1993 como uma reação à onda de violência na cidade.


— Havia reação do tipo “A gente tem que fazer alguma coisa, não é possível um negócio desses” — lembra Fernandes. — E ele trouxe para essas discussões essa marca que era a da geração da Bossa Nova, de uma geração que fez do Rio essa imagem que a gente tem até hoje. Em “Cidade partida”, ele conta a nossa história (do Viva Rio) e dá sentido, coloca em palavras, toda essa mobilização contra a violência. Era um movimento pela cidade: se ela era partida, era preciso juntá-la.


Nesta quinta-feira (24), às 16h, a ABL realiza a tradicional Sessão da Saudade, ritual que marca a despedida do acadêmico antes que sua cadeira seja declarada oficialmente vaga.


Após a sessão, estarão abertas as inscrições para a cadeira 32 que foi de Zuenir, e que tem como patrono Manuel de Araújo Porto-Alegre. O médico e escritor Drauzio Varella deve se candidatar e é o favorito para a eleição que definirá o novo imortal.

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