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Uma reflexão sobre relacionamentos e amadurecimento na Netflix: até parece terapia

Uma reflexão sobre relacionamentos e amadurecimento na Netflix: até parece terapia

Em “O Último Beijo” lançado no início dos anos 2000 e ambientado na Itália contemporânea, o diretor Gabriele Muccino acompanha um grupo de amigos na casa dos 30 anos que, às vésperas de decisões definitivas, precisam lidar com a passagem para a vida adulta, e com tudo aquilo que tentam adiar.

No centro da história está Carlo, vivido por Stefano Accorsi, um homem que mantém um relacionamento estável com Giulia, interpretada por Giovanna Mezzogiorno. A gravidez inesperada dela acelera um casamento que já vinha sendo discutido, colocando Carlo diante de uma responsabilidade concreta: formar uma família. Até aqui, o caminho parece previsível. O problema surge quando ele começa a duvidar se está pronto para essa vida, ou se está apenas aceitando um roteiro que não escolheu de verdade.

Essa dúvida ganha forma quando Carlo conhece Francesca, uma jovem de 18 anos que aparece como um sopro de liberdade no meio da rotina que se fecha ao seu redor. O que começa como um flerte casual rapidamente se transforma em uma fuga emocional. Carlo passa a dividir seu tempo entre os compromissos com Giulia e encontros secretos, tentando sustentar duas versões de si mesmo, o futuro pai responsável e o homem que ainda quer experimentar o mundo sem amarras.

Os outros

Giulia, por outro lado, não está alheia. Ela organiza a casa, pensa no bebê e espera que Carlo acompanhe esse movimento com a mesma firmeza. Quando percebe as mudanças no comportamento dele, atrasos, distrações, respostas vagas, começa a pressionar por clareza. Não há confrontos explosivos no início, mas sim um acúmulo de pequenas tensões que tornam o ambiente cada vez mais desconfortável. E é aí que o filme acerta, ao mostrar como relações se desgastam mais pelo silêncio e pela hesitação do que por grandes traições declaradas.

Ao redor deles, o grupo de amigos funciona como espelho e contraponto. Cada um enfrenta suas próprias crises, separações, insatisfações, medos de envelhecer, criando um panorama mais amplo sobre essa fase da vida em que ninguém parece completamente seguro das escolhas que fez. As conversas entre eles misturam humor e frustração, com piadas que tentam aliviar o peso das decisões, mas que frequentemente revelam inseguranças profundas. É um riso meio torto, que vem mais da identificação do que da leveza.

Mentiras

Carlo tenta se apoiar nesse humor para justificar suas escapadas. Ele ironiza o casamento, faz comentários sobre a rotina e tenta transformar sua indecisão em algo quase divertido. Funciona por alguns segundos, às vezes arranca um sorriso, mas logo se esgota. Porque, no fundo, ninguém ali ignora o que está em jogo. Nem ele.

O filme constrói sua narrativa sem pressa, acompanhando esses deslocamentos emocionais de forma bastante direta. Não há reviravoltas mirabolantes, mas uma sequência de escolhas pequenas que vão acumulando consequências. Cada mentira contada por Carlo exige outra, cada ausência precisa de uma explicação, e a rede que ele tenta equilibrar começa a ceder. O que parecia uma aventura sem compromisso passa a ter impacto real, especialmente para Giulia, que está lidando com algo muito mais concreto: a chegada de um filho.

Maturidade

Há também um olhar interessante sobre a ideia de maturidade. Carlo não é exatamente um vilão, mas alguém travado entre o desejo de liberdade e o medo de perder o controle da própria vida. Ele quer escolher, mas não quer abrir mão de nada, e é justamente essa tentativa de manter todas as portas abertas que o coloca em uma posição cada vez mais frágil.

“O Último Beijo” reconhece esse impasse com honestidade. Não tenta idealizar relações. Em vez disso, observa seus personagens em movimento, errando, recuando, insistindo. E, no meio disso tudo, deixa claro que crescer não é um evento pontual, mas um processo cheio de desvios, alguns deles difíceis de reparar depois.



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