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Uma das melhores atuações de Adam Sandler em drama bonito e delicado na Netflix

Uma das melhores atuações de Adam Sandler em drama bonito e delicado na Netflix

“Reine Sobre Mim”, dirigido por Mike Binder, acompanha a reaproximação entre dois antigos colegas de faculdade enquanto um deles afunda em um luto devastador e o outro começa a perceber que sua própria vida também saiu dos trilhos. Alan Johnson (Don Cheadle) vive em Manhattan com a esposa Janeane (Jada Pinkett Smith) e as duas filhas.

Ele tem um consultório de odontologia bem-sucedido, dinheiro suficiente para sustentar a família e uma rotina organizada até demais. Só que existe um detalhe importante ali. Alan já não suporta mais o próprio cotidiano. O trabalho ocupa quase todo o dia. Em casa, ele raramente consegue terminar uma frase sem ser interrompido. Até os encontros sociais parecem compromissos obrigatórios. Em muitos momentos, Alan circula pela cidade com a expressão de alguém que esqueceu por que acorda tão cedo todos os dias.

É nesse estado de desgaste que ele reencontra Charlie Fineman (Adam Sandler). Os dois dividiram apartamento durante a faculdade, mas perderam contato há anos. Charlie agora vive sozinho, passa boa parte do tempo andando de scooter pelas ruas de Nova York e escutando música alta com fones enormes que praticamente funcionam como uma barreira física contra o mundo. Alan tenta puxar conversa algumas vezes até perceber que Charlie sequer consegue manter atenção por muito tempo.

A situação começa a fazer sentido aos poucos. Charlie perdeu a esposa e as três filhas nos atentados de 11 de setembro. Depois disso, abandonou o emprego, cortou relações com familiares e passou a viver isolado dentro de um apartamento bagunçado, ocupado por videogames antigos, discos, caixas espalhadas e uma reforma eterna na cozinha que nunca parece avançar de verdade. Ele lixa paredes, desmonta móveis e compra equipamentos sem qualquer necessidade aparente. Parece um homem tentando manter a mente ocupada para impedir que certas lembranças voltem com força total.

Adam Sandler surpreende bastante porque abandona completamente o jeito expansivo de várias de suas comédias. Charlie fala pouco, desvia o olhar durante conversas e muda de assunto sempre que alguém menciona sua família. Em algumas cenas, ele simplesmente vai embora no meio de diálogos desconfortáveis. Em outras, reage com irritação infantil diante de perguntas simples. Sandler interpreta esse comportamento sem exageros. Charlie não vira uma caricatura do sofrimento. Ele parece apenas cansado demais para sustentar contato humano por muito tempo.

Alan insiste naquela amizade porque percebe algo que os outros personagens ignoram. Charlie ainda reage quando se sente acolhido. Quando os dois jogam videogame, passeiam de scooter ou passam horas ouvindo música dentro do apartamento, existe uma espécie de tranquilidade rara ali. Alan também ganha algo importante nessa convivência. Pela primeira vez em muito tempo, ele consegue escapar da rotina sufocante da clínica e das cobranças familiares.

Crise em casa

Isso começa a gerar problemas dentro de casa. Janeane observa o marido se afastando emocionalmente da família enquanto passa cada vez mais tempo com Charlie. Há um incômodo crescente naquela relação porque Alan também parece usar o amigo como válvula de escape. Ele não diz isso em voz alta, mas fica evidente que aquele reencontro oferece uma chance de voltar a uma época menos complicada da vida, quando ainda não existiam filhos, pacientes, boletos, horários escolares e jantares sociais obrigatórios.

Mike Binder trabalha essas tensões de maneira bastante natural. O roteiro não tenta transformar Alan em salvador heroico nem Charlie em figura misteriosa cheia de frases profundas. Em vários momentos, os dois se comportam de maneira egoísta, infantil e até inconveniente. Existe uma sequência particularmente desconfortável em que Charlie cria uma situação embaraçosa dentro do consultório de Alan e praticamente destrói qualquer clima profissional do ambiente. Ainda assim, Alan continua voltando porque percebe que abandonar Charlie significaria deixar aquele homem desaparecer de vez.

Drama sem exagerar na dose

O filme mostra como o luto afeta pessoas próximas sem necessariamente virar assunto constante. Os sogros de Charlie tentam se aproximar, mas ele os rejeita porque a simples presença deles reabre lembranças que ele prefere manter enterradas. Angela Oakhurst (Liv Tyler), terapeuta ligada ao passado universitário dos personagens, tenta ajudá-lo em algumas conversas delicadas. Charlie reage mal quase todas as vezes. Ele interrompe sessões, muda de humor sem aviso e transforma qualquer tentativa de aproximação em tensão.

Mesmo sendo um drama pesado, “Reine Sobre Mim” coloca pequenos momentos de leveza muito humanos. Alan e Charlie discutem banalidades, fazem piadas idiotas e passam horas debatendo música como dois universitários envelhecidos que se recusam a admitir a própria idade. Em certa medida, aquelas conversas funcionam melhor que muitas sessões formais de terapia. Pelo menos ali Charlie consegue permanecer presente sem sentir que alguém o observa o tempo inteiro.

Mike Binder também aproveita muito bem Nova York. A cidade aparece cansada, barulhenta e cheia de gente andando sem prestar atenção umas nas outras. Charlie consegue desaparecer naquele cenário com facilidade. Alan vive o oposto. Todo mundo exige algo dele o tempo inteiro. Pacientes, esposa, filhos e colegas ocupam cada espaço possível do seu dia. A amizade entre os dois nasce exatamente desse contraste.

“Reine Sobre Mim” poderia facilmente escorregar para um drama manipulador sobre superação, mas escolhe um caminho mais honesto. O filme aceita que algumas perdas permanecem abertas durante anos e que certos adultos simplesmente seguem funcionando no improviso. Charlie continua emocionalmente quebrado durante boa parte da história. Alan continua perdido dentro da própria rotina. Ainda assim, quando os dois dividem silêncio, música e conversas absurdamente banais dentro daquele apartamento em reforma permanente, existe ali uma sensação rara de companhia verdadeira.



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