— Achei que o senhor era escritor, vendia livros.
— Já fui escritor faz uns vinte anos, e nunca vendi o suficiente para ser o “senhor” de qualquer coisa, nem do meu próprio umbigo. Saí de moda.
A diarista abriu um sorrisão lindo, e eu tive que explicar.
— Sabe o que é? É que meus genes e a melanina, e minha condição sexual que já não é aquela Brastemp, e o espectro político-partidário (que não tenho) e até meu CEP saíram de moda. Vivo da renda de uma quitinete. Quem paga sua diária é o inquilino que vai entregar a quitinete daqui a quinze dias, e ele está me devendo dois condomínios.
O inquilino deve dois, e eu devo três.
Além do pudim de leite, ela também faz um bolo de laranja maravilhoso, a diarista é gente finíssima, carioca for export. A pedidos da caçula, que às vezes vem ajudá-la na limpeza, e cujo sonho é arrumar um branquelo na gringa, criei perfis para ambas no Tinder:
— As irmãs Bebé vão dar pinta de madame no estrangeiro.
A mais velha garante que me ama, e cultiva o “hobby” de levar souvenires de casa toda vez que faz uma faxina. Diarista, quituteira e cozinheira de mão cheia. Outro dia fez uma feijoada espetacular, ela quem me orientou na compra das carnes e pertences: também adquirimos um caldeirão gigante que caberia perfeitamente João e Maria, a lambança resultou nuns oito quilos de pedaços de porquinhos, fora todos os outros itens.
Tive de parcelar a compra em dez vezes no cartão de crédito. Repeti dois pratos de feijoada. Bem, como forma de agradecimento, e para reforçar a veneração ao quarto de despejo — sempre bom disfarçar o conflito de classes e reforçar o bom-mocismo — solicitei um Uber para levar o caldeirão que “sobrou” da feijoada. E outro Uber para o deslocamento das madames que moram em Santa Cruz, uns sessenta quilômetros de Copacabana. Naqueles dias, Bebé iria adquirir — para sua coleção particular — o jogo de cristais da Boêmia inútil que herdei de dona Marietta (minha mãe) e mais um cinzeirão amarelo que, às vezes, servia p’reu viajar em pretéritas maioneses.
Caramba, até o cinzeirão amarelo? Foi a subtração que mais senti. Não pela subtração em si, mas pelos critérios da diarista; cônscia de que as regras do jogo mudaram, mas não mudaram, uma vez que ela continua fodida e morando longe. Isso não a impede de exercer, talvez inconscientemente, mas com orgulho, as dinâmicas do ódio e da reparação a qualquer custo — segundo o manual do Zeitgeist, o implacável espírito do tempo. Daí que tanto faz se é diarista, atriz da Globo ou colunista da Folha, tanto faz se são cristais inúteis, potes de azeitona, rolos de papel higiênico ou memórias de burguês falido; pois as subtrações (leia-se tomada de território) são diretrizes do métier, eu diria que quase inevitáveis, e sempre brutais — o objetivo claro é a intimidação e a vingança contra o opressor: “Perdeu, playboy”. Ainda que o opressor/playboy seja eu, logo eu.
Nem seria preciso dizer que este mecanismo é alimentado pela culpa. Daí que é hype ser submisso à diarista, em tese a “oprimida”. Tamanha a fartura no dia da feijoada que só não foi maior do que a culpa. Quase chamo um terceiro Uber para escoltá-las, e escoltar o Uber que levava o caldeirão de feijoada. Uma comitiva woke-penitente rumo a Santa Cruz.
Ah, a culpa! Um dos ativos mais longevos da história, acho que rivaliza com o ouro, e com o sexo. Quanto mais doentia a culpa, melhor. Daqui a pouco o governo faz um projeto para incluir a culpa na declaração do imposto de renda. Se for estrutural vai pagar mais! Ontem a culpa judaico-cristã, hoje a afro-quilombola, amanhã só Deus e as IAs é que sabem. Vale lembrar, não obstante, que as naturezas das estruturas e das culpas, quaisquer que sejam, estão sujeitas às ruínas do tempo, são volúveis. As modas passam, o carrasco de hoje é a vítima de amanhã (e vice-versa), tudo muda. Tudo menos a filhadaputagem do ser humano.
Voltando às maioneses pretéritas. Eu falava do defunto bairro do Morumbi, idos de 1972/73, quando mamãe e suas amigas peruas à beira da piscina, fumavam seus Charms e sopravam a fumacinha de suas riquezas e futilidades em direção às chácaras de Paraisópolis. Um refúgio bucólico. Nos anos seguintes as chácaras seriam desmembradas em lotes, e receberiam a primeira leva de migrantes nordestinos. Sortudos. Nem sonhavam com o PCC. A segunda geração também não se submeteu ao jugo do PCC, mas foi obrigada a engolir Sarney, e o roquinho brasileiro da época (páreo duro). As demais, netos, bisnetos e trinetos tiveram/têm mesmo de se submeter à realidade. Vida que seguiu, vida que segue.
Quem diria que o Morumbi seria engolido por Paraisópolis, hoje um megafavelaço dominado pelo crime organizado, e que o cinzeiro amarelo que apagou as guimbas das amigas da dona Marietta, e as cinzas da própria, acabariam em Santa Cruz — muito pra lá de Irajá onde Greta Garbo amarrou seu jegue. Na casa da malandra da Bebé, na casa do caralho.
