Casos de desaparecimento em Jeju levam turistas a rever viagens e autoridades anunciam medidas (Reprodução/YohapNews)

A descoberta de quatro corpos de pessoas que haviam sido dadas como desaparecidas na Ilha de Jeju, na Coreia do Sul, leva turistas a cancelar ou reconsiderar viagens ao destino. Os casos, registrados em um intervalo de três dias, também expõem falhas no tratamento de ocorrências de desaparecimento pela polícia e ampliam a preocupação entre viajantes em um período em que a ilha já enfrenta queda no número de visitantes nacionais.

Entre os casos está o de Jang Mi-ran, de 37 anos, que havia desaparecido havia mais de três meses. Seu corpo foi encontrado em uma plantação na ilha na segunda-feira, 24 de agosto. Segundo a Associated Press, o policial responsável pelo caso teria encerrado o registro de desaparecimento sem confirmar a segurança da mulher.

O agente, identificado apenas pelo sobrenome Bu, teria informado falsamente ao namorado de Jang que havia conseguido falar com ela por telefone e que ela havia pedido que sua localização não fosse revelada. Após a descoberta de possíveis irregularidades, familiares da mulher publicaram fotos e fizeram apelos por informações sobre seu paradeiro, o que levou o caso a ganhar repercussão.

Turistas cancelam viagens a Jeju após quatro corpos serem encontrados na ilha
O corpo de Jang Mi-ran foi encontrado em uma fazenda de palmeiras a 500m da casa dela (Reprodução/Reuters)

O corpo de outro homem, de cerca de 60 anos, também envolvido em um registro de desaparecimento tratado pelo mesmo policial, foi encontrado em Jeju no sábado, 22 de agosto. De acordo com a polícia, o agente teria encerrado também esse caso com uma declaração falsa.

Além desses dois episódios, outros dois corpos de pessoas anteriormente dadas como desaparecidas foram encontrados na ilha nos dias 23 e 24 de agosto. Embora o policial investigado não estivesse envolvido nesses dois registros, a sequência de descobertas passou a gerar preocupação entre moradores, turistas e empresas do setor.

A reação de parte dos viajantes aparece nas redes sociais e em relatos publicados pela imprensa local. Kang, de 29 anos, que costuma visitar Jeju regularmente e permanecer na ilha por períodos mais longos, cancelou seus planos para o outono após acompanhar as notícias sobre os desaparecimentos. “Eu costumava passear pelas áreas residenciais, curtindo um passeio tranquilo. Mas, após os recentes desaparecimentos, comecei a sentir medo de andar sozinho em Jeju”, diz o turista ao jornal Chosun.

Outro viajante relata que havia planejado uma viagem para Jeju em outubro, mas passou a questionar a decisão após os acontecimentos. “Eu tinha planejado ir para Jeju em outubro, mas agora é muito difícil cancelar. Não sei se pelo menos o centro da cidade é seguro”, escreve.

Também há relatos de famílias que reconsideram a viagem. Um turista conta que seu filho pequeno “chorou e protestou ao saber que iriam para a ilha”. O cancelamento, no entanto, também poderia gerar multas, o que dificulta a decisão da família. Lee, de 23 anos, afirma que sua mãe planejava visitar Jeju no fim do ano, mas ele recomendou que ela não viajasse após os acontecimentos. A preocupação também chega ao setor de hospedagem, especialmente nas áreas próximas aos locais relacionados aos casos.

Turismo em Jeju entra no centro das preocupações

Turistas cancelam viagens a Jeju após quatro corpos serem encontrados na ilha
A ilha é conhecida por suas praias de águas cristalinas (Reprodução/Getty Images)

Para empresários locais, os episódios podem afetar a percepção dos visitantes sobre a segurança do destino. O proprietário de uma hospedaria em Hallim, por exemplo, afirma que a área possui iluminação e recebe viajantes que circulam sozinhos. “Esta área sempre foi tranquila, mesmo para viajantes individuais. Frequentemente recebemos turistas sozinhos, então não acho que toda a área deva ser vista de forma negativa apenas por causa de problemas relacionados à polícia”, declara.

Outro responsável por uma acomodação próxima relata que a segurança da região não costumava ser motivo de preocupação entre os moradores, mas que o cenário mudou após a repercussão dos casos. “Recentemente, recebemos muitos telefonemas de pessoas expressando preocupação”, relata.

Os episódios acontecem em um momento de redução no fluxo de turistas nacionais para Jeju. Dados da Corporação de Turismo de Jeju indicam que 963.401 visitantes sul-coreanos estiveram na ilha em julho, queda de 12,4%, ou 136.620 pessoas, em comparação com os cerca de 1,1 milhão registrados no mesmo período do ano anterior.

Segundo os dados divulgados, foi a primeira vez desde o início da pandemia de Covid-19, em 2020, que o número de turistas nacionais em Jeju ficou abaixo de 1 milhão em um único mês. A redução também continuou em agosto. Entre os dias 1º e 23, a ilha recebeu uma média de 35.295 turistas nacionais por dia, abaixo dos 35.575 visitantes diários registrados no mesmo período do ano passado.

O caso ganha dimensão nacional porque envolve a atuação da polícia e ocorre em um momento em que a Coreia do Sul se prepara para uma mudança em seu sistema de Justiça criminal, que deve ampliar a autoridade policial com a retirada de poderes investigativos dos promotores.

O presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, determinou ao primeiro-ministro que analisasse formas de reformar a polícia diante da repercussão dos casos. O policial Bu foi preso na segunda-feira, e as autoridades anunciaram que investigam os 298 registros de desaparecimento conduzidos por ele desde o ano passado. “Pedimos profundas desculpas por causar preocupação ao público com o tratamento dos casos de pessoas desaparecidas em Jeju. Examinaremos nosso sistema como um todo e faremos melhorias institucionais para evitar que incidentes semelhantes aconteçam novamente”, afirma o comissário interino da Agência Nacional de Polícia, Yoo Jae-seong, durante uma reunião de um comitê parlamentar.

Segundo Yoo, o caso resulta de uma combinação entre uma falha individual e um problema do sistema. No modelo que foi suspenso, policiais podiam encerrar registros de desaparecimento por conta própria, sem comunicar seus superiores.

O ministro do Interior e Segurança, Yun Hojung, e o chefe da polícia de Jeju, Ko Pyeong-ki, também se desculparam publicamente. A repercussão ainda se soma a críticas enfrentadas pela polícia em outro caso ocorrido no início do ano, relacionado ao assassinato de uma estudante do ensino médio.

Diante das preocupações, o governador de Jeju, Wi Seong-gon, anuncia medidas para reforçar a segurança na ilha. As ações incluem a elaboração de um manual integrado de resposta, a instalação de mais câmeras de segurança e o fortalecimento de patrulhas conjuntas entre policiais e voluntários civis. “Concentraremos todos os nossos esforços na proteção da vida cotidiana dos moradores e visitantes de Jeju e na manutenção da confiança pública em Jeju como um destino seguro”, afirma Wi.

*Com informações de Associated Press e ZNews.