“Astronauta libertado, minha vida me ultrapassa em qualquer rota que eu faça…”. O verso de “Dois Mil e Um” (Rita Lee/Tom Zé), parece falar do próprio compositor, que completa 90 anos neste domingo (11). Baiano de Irará, é um dos grandes inventores da música brasileira.
Tropicalista por vocação e inventor por natureza, Tom Zé fez da música um laboratório de ideias, no qual o improvável vira matéria-prima e o absurdo revela sentido. Entre a inteligência sertaneja, o rigor da experimentação e o humor provocador, construiu uma obra avessa a fórmulas convencionais, que faz da estranheza uma linguagem própria.
Sua genialidade, hoje reconhecida no Brasil e no exterior, atravessa gerações: reverenciado por seus contemporâneos, o artista também desperta a curiosidade e a admiração de públicos mais jovens, que encontram em sua música uma liberdade criativa ainda desconcertante.
É isso que faz de Tom Zé um artista tão singular. Sua obra não cabe confortavelmente na categoria de música popular; tampouco se limita à vanguarda, embora dialogue diretamente com ela.
O tropicalismo foi o ambiente em que sua linguagem encontrou uma explosão coletiva, mas Tom Zé sempre pareceu interessado em ir além de qualquer movimento, escola ou rótulo. Ele não apenas participou da revolução tropicalista, como levou para dentro dela uma personalidade que já vinha sendo construída anteriormente.
O menino que aprendeu a desconfiar do óbvio
Essa vocação para a invenção começou muito antes dos palcos. Nascido Antônio José Santana Martins, em 1936, em Irará, Tom Zé cresceu ajudando na loja do pai. Foi ali, atrás de um balcão, que começou a desenvolver uma relação especialmente atenta com o mundo ao redor.
O rádio lhe apresentou Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e outros nomes da música popular. Mas foi a literatura que provocou uma das primeiras grandes revoluções em seu modo de olhar.
Ainda pré-adolescente, leu “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. O sertão do livro não era uma paisagem distante: era o universo humano que ele reconhecia nas pessoas que passavam pela loja, na cidade e no cotidiano. Tom Zé sempre teve a capacidade de encontrar o extraordinário no que está imediatamente diante dos olhos.
Anos mais tarde, em Salvador, ele levaria essa curiosidade para o ambiente acadêmico. Em 1962, entrou em primeiro lugar na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde estudou Regência e Composição. Teve contato com Hans-Joachim Koellreutter e Ernst Widmer, participou da criação do Grupo de Compositores da Bahia e mergulhou na música erudita contemporânea.
Foi também nesse período que ele conheceu o então estudante de filosofia Caetano Veloso.
Tropicalista antes da Tropicália
Quando chegou a São Paulo (SP), em 1968, a convite de Caetano Veloso, Tom Zé encontrou no núcleo tropicalista um território particularmente fértil para suas ideias. Ao lado de Caetano, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes e outros artistas, participou de uma das mais importantes rupturas estéticas da música brasileira. Mas há uma inversão interessante nessa história: Tom Zé não se tornou inventivo por causa da Tropicália. Ele já chegava inventado.
Aos 90, é possível olhar para sua trajetória e perceber que muito do que se convencionou chamar de espírito tropicalista — a colisão entre referências, o humor, a irreverência, a convivência entre o popular e o erudito, o gosto pelo choque e pela provocação — já fazia parte de sua maneira de pensar.
Em 1968, mesmo ano em que se consagrou como vencedor do IV Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, com “São São Paulo”, lançou “Grande Liquidação”, seu primeiro álbum. Mas o que viria depois seria ainda mais radical.
Radicalização e ostracismo
Nos anos 1970, porém, depois da Tropicália, enquanto Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa ascendiam em suas carreiras, Tom Zé foi sendo empurrado para as margens da indústria, enquanto radicalizava sua pesquisa musical.
Máquinas, objetos, fitas magnéticas, ferramentas e instrumentos inventados passaram a integrar seu processo. A música se aproximou da oficina. Daí a ideia de uma espécie de “música operária” e a invenção de instrumentos como o hertzé, o enceroscópio e o buzinório, criações que nascem da capacidade de encontrar som onde aparentemente não existe música.
“Estudando o Samba” (1976), hoje considerado um dos trabalhos fundamentais de sua discografia, não recebeu na época a repercussão esperada. O mercado não parecia saber muito bem o que fazer com um artista que insistia em experimentar.
Daí, para atuar e conseguir sobreviver, à margem das atenções do mercado fonográfico brasileiro, vieram trabalhos com jingles na agência DPZ, de Washington Olivetto, e até uma experiência como trabalhador rural em Embu das Artes. Houve momentos em que o músico procurava nos jornais alguma notícia sobre seus próprios discos… e encontrava silêncio.
Mas a ausência de reconhecimento não significou ausência de criação: foi atuando na margem que ele consolidou características depois celebradas internacionalmente.
Inclassificável
É justamente essa capacidade de colocar em fricção o popular e a vanguarda, rigor erudito e humor popular, entre outros diálogos esteticamente incomuns que torna Tom Zé tão difícil de classificar, até os dias de hoje.
Ele pode partir de Luiz Gonzaga e chegar à música de vanguarda. Pode pensar como compositor erudito e escrever como alguém atento à fala cotidiana. Pode trabalhar com máquinas e, ao mesmo tempo, produzir canções de humor popular. Pode ser cerebral sem abandonar a irreverência.
O humor, aliás, não é mero adereço de sua persona. É uma ferramenta de criação. Tom Zé usa o humor para desmontar solenidades, inverter expectativas e colocar ideias difíceis em circulação. Em sua “Complexo de Épico”, ele brada que “todo compositor brasileiro é um complexado” e que “vá ser sério assim no inferno!”
Sua música pode ser experimental sem ser hermética, sofisticada sem perder o senso de brincadeira. A provocação faz parte desse “jogo lúdico” de criar. É por isso, também, que sua persona artística parece tão inseparável de sua obra. Em Tom Zé, o compositor, o inventor, o performer e o personagem não são departamentos diferentes. São manifestações de uma mesma cabeça inquieta.
Gênio descoberto pelo mundo
Em 1989, David Byrne encontrou “Estudando o Samba” em uma loja de discos durante uma passagem pelo Brasil. O músico americano, ex-líder do Talking Heads, ficou fascinado com a maneira como Tom Zé desmontava e reconstruía o samba. A partir dali, veio a redescoberta.
Em 1990, pela Luaka Bop, gravadora de Byrne, saiu “The Best of Tom Zé – Brazil Classics 4: Massive Hits”, coletânea que apresentou sua obra a uma audiência internacional. A repercussão foi especialmente forte entre músicos e ouvintes ligados à música experimental, à cena alternativa e ao pós-rock.
Depois de anos tentando encontrar um lugar na música brasileira, de repente, o mundo descobria justamente o artista que não cabia em lugar nenhum. O que parecia excesso, excentricidade ou inadequação para parte do mercado brasileiro passou a ser entendido fora do país como sinal de genialidade.
Palco, risco e renascimento
Recife tem um lugar de destaque na trajetória de Tom Zé. Em 1999, o baiano fez no Abril Pro Rock uma apresentação que marcou seu reencontro com o público brasileiro. O artista, que durante anos havia sido tratado como uma espécie de figura periférica, encontrou diante de si uma plateia jovem e entusiasmada – como tem sido grande parte do seu público nas últimas três décadas.
Em 2002, voltou ao festival. Logo após o show – também muito aclamado –, passou mal e sofreu um infarto. Foi levado ao Unicordis, na capital pernambucana, onde passou por um cateterismo e uma angioplastia e ficou quatro dias internado.
O palco pernambucano acabou ligado a um dos momentos mais dramáticos — e também mais simbólicos — de sua história: mais um renascimento.
A invenção continua
Aos 90 anos, Tom Zé não precisa transformar a idade em ponto final. Sua história já ensinou que uma carreira pode sobreviver ao silêncio, ao mercado, ao esquecimento e até às próprias certezas.
E ele segue produzindo – em agosto último, lançou, junto a Marcelo Segreto e à estreante Loretta, o single “Futuro Futuro”– e tendo sua obra celebrada: a mostra “Tom Zé – 90 Anos do Inquieto Jardineiro de Sons”, aberta na última terça (6), na Caixa Cultural de São Paulo, reúne objetos e memórias do artista. E o Selo Sesc lançou, nesta sexta (9), “Relicário – Tom Zé – Ao vivo no Sesc 1996”, registro de um espetáculo de 30 anos atrás.
O menino de Irará que lia “Os Sertões”, o inventor, o artista esquecido, redescoberto por Byrne continuam sendo o mesmo sujeito inquieto: diante do que está à mão, ele pergunta o que ainda é possível fazer com aquilo… certamente será música.
