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Thriller brasileiro que chocou o mundo na Netflix é um retrato brutal do poder

Thriller brasileiro que chocou o mundo na Netflix é um retrato brutal do poder

Há algo de profundamente incômodo em “Tropa de Elite”. Não apenas pela violência, que é física, explícita, mas porque ela se revela como um espelho ético diante do qual o espectador é forçado a se reconhecer. O filme não oferece a distância confortável do entretenimento. Ele expõe, sem anestesia, a engrenagem social que transforma o policial em carrasco e o morador da favela em alvo, enquanto o cidadão de classe média, protegido por muros e conveniências, mantém as mãos limpas, ou acredita manter.

O capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, é o centro nervoso desse universo. Ele não é herói nem vilão, mas o sintoma mais puro de uma sociedade em colapso moral. Sua voz em off não narra apenas uma história; ela funciona como um tratado involuntário sobre a falência das instituições e o esgotamento de qualquer projeto coletivo de justiça. Quando Nascimento executa, tortura ou enlouquece, o filme não celebra o gesto, ele revela a metamorfose de um homem que, em nome da ordem, é consumido por ela.

Diferente de produções que abordam a violência como espetáculo ou denúncia superficial, “Tropa de Elite” mergulha na ambiguidade. A câmera nervosa, quase documental, aproxima o espectador do caos das operações do BOPE, mas também do caos mental de quem as conduz. Não há catarse, apenas vertigem. Cada incursão nos morros do Rio é uma jornada em que a fronteira entre justiça e barbárie se dissolve. E é nesse limiar que o filme ganha força, porque expõe o quanto o Estado e o crime se espelham, um legitimando o outro.

A tensão entre o real e o simbólico é o que sustenta a narrativa. O filme trata de armas e drogas, mas o verdadeiro tema é o poder, sua lógica, seus disfarces e sua inevitável corrupção. Em um país onde o discurso de “bandido bom é bandido morto” se mistura à indignação seletiva da classe média, o BOPE se torna a figura messiânica que promete ordem à força. “Tropa de Elite” captura esse desejo de limpeza que habita o inconsciente coletivo brasileiro: a fantasia de que a violência pode, paradoxalmente, redimir a violência.

A atuação de Wagner Moura é o ponto em que o discurso fílmico se concretiza. Seu Nascimento é um homem que tenta manter a disciplina enquanto o sentido se esvai. Ele é o agente e a vítima do mesmo sistema. O olhar dele, ora frio, ora desesperado, traduz o colapso interno de quem compreende tarde demais que o dever também é uma forma de prisão. Ao lado dele, os jovens aspirantes ao BOPE funcionam como metáforas da iniciação na máquina do Estado: acreditam entrar para combater o mal, mas acabam sendo moldados por ele.

Há uma dimensão quase filosófica na estrutura de “Tropa de Elite”: a de que o mal não é exterior ao corpo social, mas imanente a ele. O filme, consciente ou não, dialoga com a tradição hobbesiana, o homem que precisa da força absoluta para conter a própria natureza destrutiva. A diferença é que aqui o Leviatã veste farda preta e carrega um fuzil. A brutalidade se torna método, e o método, rotina. A barbárie se institucionaliza.

Ao contrário do que muitos interpretaram, “Tropa de Elite” não é um panfleto nem uma apologia. É uma radiografia. E como toda radiografia, mostra ossos quebrados que preferimos ignorar. Seu impacto não vem do sangue, mas da exposição daquilo que o Brasil contemporâneo tenta ocultar: a cumplicidade cotidiana com a violência, a indiferença que se confunde com justiça, o prazer secreto em ver o castigo aplicado a quem está abaixo na hierarquia social.

O filme termina sem redenção, porque não há onde encontrá-la. A violência que atravessa a favela, o policial e o espectador é a mesma, apenas muda de direção. “Tropa de Elite” incomoda porque rasga a narrativa de inocência que o país insiste em sustentar. E ao fazer isso, obriga cada um de nós a admitir que o sistema que condenamos é o mesmo que, silenciosamente, nos protege.

Filme:
Tropa de Elite

Diretor:

José Padilha

Ano:
2006

Gênero:
Crime/Drama/Suspense

Avaliação:

9/10
1
1




★★★★★★★★★★



Fonte

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